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Alejandro Rustom/Reuters

´Sistemas antidemocráticos temem ideias', diz Vargas Llosa

Escritor foi retido no aeroporto de Caracas e advertido que não poderia fazer declarações políticas no país

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28 Maio 2009 | 07h57

O escritor peruano Mario Vargas Llosa reagiu à pressão que sofreu na imigração do aeroporto de Caracas afirmando que os "sistemas antidemocráticos têm medo de ideias". O escritor foi retido por uma hora e meia nesta quarta-feira, 27, e advertido que, como estrangeiro, não teria direito de fazer declarações políticas na Venezuela.

 

"Ninguém pode colocar limites ao livre pensamento. Eles pensam que ideias são como bombas, que podem causar explosões sociais. Nós não queremos isso", disse, segundo a AP. O escritor viajou à Venezuela para participar da conferência "O Desafio Latino-Americano: Liberdade, Democracia, Propriedade e Luta contra a Pobreza", organizada pela "Cedice", um think tank conservador baseado em Caracas, que também convidou o ex-presidente boliviano Jorge Quiroga.

 

"Eles revistaram minha bagagem e comprovaram que não trago nada de contrabando, nenhum material explosivo, nem subversivo, salvo alguns livros de poesias", disse o escritor. Na segunda-feira, 25, seu filho, o jornalista Álvaro Vargas Llosa, também ficou retido por três horas enquanto seus documentos eram checados.

 

O ministro da Cultura da Venezuela, Héctor Soto, declarou que Vargas Llosa havia sido "insolente" e "desrespeitoso" com o país e com "os ícones da população", segundo o jornal El Universal, de Caracas. Soto disse que o escritor assumiu a cidadania espanhola porque "tem vergonha" de ser um peruano.

 

Liberdade de expressão

 

O episódio ocorre em um momento em que o debate sobre a liberdade de expressão toma fôlego na Venezuela. Nesta quarta-feira completaram-se dois anos que a emissora opositora RCTV saiu do ar porque Chávez rejeitou renovar sua licença.

 

Funcionários do setor de comunicações, atores e grupos opositores realizaram no fim da tarde de quarta-feira uma manifestação em Caracas em apoio à RCTV, que agora transmite via cabo de Miami. Em debates, entrevistas e discursos, diversos venezuelanos também demonstraram seu repúdio às ameaças recentes de Chávez contra outra TV opositora - a Globovisión.

 

À tarde, o ministro de Comércio da Venezuela, Eduardo Samán, apresentou à promotoria provas de supostas irregularidades na compra de 24 veículos confiscados na sexta-feira, 22, numa das casas de Guillermo Zuloaga, dono da Globovisión. Zuloaga, que tem uma distribuidora da Toyota, diz que os automóveis foram adquiridos de forma regular e denuncia perseguição política.

 

"O tema da liberdade de expressão está hoje mais vivo do que nunca. O governo quer regular todas as formas de pensamento e ameaça a Globovisión para impedir críticas", disse o diretor da RCTV, Marcel Granier.

 

Em maio de 2007, o governo venezuelano recusou-se a renovar a licença da RCTV, que estava havia 53 anos no ar e era campeã de audiência. A justificativa foi a de que Granier teria participado do fracassado golpe contra Chávez em 2002. Na época, foram realizados protestos em toda a Venezuela em apoio à emissora.

 

Desde então, a Globovisión tem sido a única emissora opositora que ainda transmite na rede aberta - embora apenas para as três principais cidades do país. Mas, há três semanas, o chanceler Nicolás Maduro acusou a emissora de fazer "terrorismo midiático" ao noticiar o terremoto que abalou Caracas no dia 4 sem consultar as autoridades venezuelanas.

 

Após o tremor, a Globovisión disse que sua intensidade foi de 5,4 graus, citando o Serviço Geológico dos EUA. Além disso, o diretor da TV, Alberto Ravell criticou a "reação lenta" do governo. Segundo autoridades, por tais faltas a Globovisión pode ser multada ou obrigada interromper suas transmissões temporariamente. Na sexta-feira, a Organização dos Estados Americanos (OEA) e o relator da ONU para a Liberdade de Opinião e Expressão, Frank La Rue, manifestaram preocupação pelas ameaças do governo venezuelano.

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