Gustavo Amador/Efe
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Tranquilidade marca começo de eleições em Honduras

Segundo Justiça Eleitoral,urnas devem ficar abertas até às 20h; primeiros resultados devem ser divulgados às 22h

estadao.com.br,

29 Novembro 2009 | 12h25

As eleições presidenciais em Honduras começaram em clima de aparente calma, em meio a crise política detonada pelo golpe de Estado de junho. Os colégios eleitorais abriram às 11h da manhã deste domingo (horário de Brasília) e serão fechados às 20h.

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A abertura da jornada eleitoral começou com um ato em uma escola de Tegucigalpa. Os membros da mesa fizeram um juramento e o primeiro voto foi de Melitina Castellanos, uma senhora de 93 anos.

Cerca de 4,6 milhões de hondurenhos estão aptos a votar na eleição de hoje. Ao menos 1 milhão deles vive no exterior. Os primeiros resultados devem ser divulgados às 22h.

O presidente de facto, Roberto Micheletti, votou às 13h15 (horário de Brasília) em sua cidade natal, El Progreso, no norte de Honduras, e afirmou que "não há incidentes eleitorais em nenhum lugar do país". "Eu tenho fé em Deus que nada vai ocorrer", ao comentar sobre a aparente normalidade do pleito. "Demonstremos ao mundo inteiro que Honduras é diferente, o temor ficou para trás e a responsabilidade de fazer uma Honduras melhor está nas mãos de todos os hondurenhos."

Grande parte da comunidade internacional não reconhece o pleito devido à derrubada do presidente Manuel Zelaya, em junho passado. Após quatro meses de crise no país, um acordo costurado pelos EUA previa um governo de coalizão até a realização de eleições, mas Zelaya e o governo de facto de Roberto Micheletti não chegaram a um acordo.

O presidente da Justiça Eleitoral hondurenha, Enrique Ortez, disse hoje que o processo eleitoral goza de todas as garantias legais. "Será o mais transparente e o mais observado. Os hondurenhos devem votar para mandar uma mensagem de que as coisas estão se normalizando", disse. A eleição não está sendo observada por autoridades internacionais.

 

O presidente deposto, Manuel Zelaya, diz que a votação é ilegítima e pede para os hondurenhos não votarem. Há algumas semanas, seu candidato César Ham desistiu de concorrer, mas o partido esquerdista Unificação Democrática rompeu com Zelaya para continuar na corrida eleitoral.

Cisão

Além da divisão interna, a votação ampliou o racha no continente. De um lado, estão os países que a aceitam a eleição como a única solução possível para a crise hondurenha - EUA, Panamá, Peru, Colômbia e Costa Rica. De outro, estão os que a consideram a legitimação do golpe - Brasil, Venezuela, Argentina, Nicarágua e Paraguai.

A disposição da comunidade internacional em defender Zelaya, porém, esbarra na intenção do presidente deposto de realizar um referendo que servisse de apoio para a convocação de uma Constituinte.

Ao aproximar-se do presidente venezuelano, Hugo Chávez, Zelaya provocou setores militares, empresariais e políticos. E, da embaixada brasileira, onde está abrigado desde setembro, tentou conclamar seus aliados a um contragolpe - sem contar os apelos internacionais pela busca de uma solução pacífica.

Os candidatos favoritos nas eleições de hoje, Porfírio "Pepe" Lobo, do Partido Nacional, e Elvin Santos, ex-vice-presidente de Zelaya, do Partido Liberal, tentam se desvencilhar da briga entre o presidente de facto, Roberto Micheletti, e Zelaya.

 

Elvin Santos afirmou que "é preciso deixar o passado para trás". "Nós somos o futuro e a esperança do povo hondurenho, queremos deixar para trás o passado", respondeu Santos aos jornalistas que

perguntaram sobre informações publicadas de que o deposto presidente, Manuel Zelaya, que permanece na Embaixada do Brasil em Tegucigalpa, poderia buscar o exílio depois das eleições.

 

Já o candidato Porfírio "Pepe" Lobo, favorito nas pesquisas de intenção de voto, assegurou que "é mais imporante que nunca" que o povo vote, ao depositar seu voto na cidade de Juticalpa, no norte de Honduras, feudo do presidente deposto Manuel Zelaya. Lobo, que perdeu as eleições para Zelaya em 2005, também afirmou que não incidentes no país. "A votação está ocorrendo normalmente, as pessoas estão indo às urnas."

Após a votação, Pepe promete buscar apoio até do Brasil, apesar das constantes críticas do governo de facto ao País. "O governo brasileiro não tem direito de pedir que Honduras não realize eleições, somos um povo soberano", disse ao Estado Martha Lorena Alvarado, vice-chanceler de Micheletti.

O apoio que realmente importa para os hondurenhos é o dos EUA, destino de 80% das exportações do país. Apesar de inicialmente terem condenado o golpe, com o fracasso das negociações entre Zelaya e Micheletti, os americanos estão dispostos a aceitar o resultado da votação se elas "seguirem os padrões internacionais".

Diante disso, o governo de facto, que chegou a declarar estado de exceção quando Zelaya voltou ao país, prontamente tomou medidas para aumentar a "transparência" da votação.

"A OEA e a ONU se recusaram a estar aqui, mas dezenas de outros representantes internacionais vieram para observar a votação", disse Denis Gómez, juiz do Tribunal Supremo Eleitoral. "Colocamos câmeras em 15 pontos de votação e no local onde será feita a apuração para que todos possam acompanhar o processo."

Zelaya vai "acompanhar a eleição" de dentro da embaixada brasileira. Na quarta-feira, o Congresso deverá votar sua restituição. Segundo fontes diplomáticas, porém, as chances de que ela seja aprovada "são próximas de zero". No dia 27 de janeiro, o mandato do presidente deposto terminará. O Brasil diz que não reconhecerá o novo presidente. O problema é que, a partir dessa data, ele será o único governo em Honduras.

Com Ruth Costas, enviada especial de O Estado de S. Paulo e Efe

 

Texto atualizado às 15h30

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