Carmiña Moscoso/BBC
Carmiña Moscoso/BBC

Uso de véu em hospital custeado pelo Irã gera debate na Bolívia

Fotos de mulheres cobertas no local foram publicadas na imprensa boliviana; ministro diz que não houve queixas

BBC Brasil, BBC

27 Novembro 2009 | 09h51

Antes mesmo de começar a funcionar, um hospital financiado pelo governo iraniano na Bolívia está causando polêmica, depois que funcionárias da instituição foram fotografadas usando véus para cobrir o corpo e a cabeça.

O hospital, que só começará a funcionar em janeiro do ano que vem em El Alto, subúrbio de La Paz, nos Andes, foi inaugurado durante a visita do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, ao país. As fotos, publicadas nos jornais El Diário e La Razón, causaram polêmica na Bolívia. Nas gravações feitas pelo El Diário, às quais a BBC teve acesso, duas mulheres confirmam o uso de véus.

Mas, enquanto uma diz que o uso da vestimenta é obrigatório, a outra diz que é facultativo. "Nos disseram que se quiséssemos ser contratadas no hospital deveríamos usar o véu e bem, não entendo o que isso significa, mas como preciso do trabalho, não temos outra opção", disse uma enfermeira que não quis se identificar.

Já a funcionária administrativa responsável pelos funcionários do hospital, Pou Mount, disse que está usado o véu "como parte do uniforme, sob o conceito de que este é um pedacinho do Irã na Bolíva". Ela disse que, na entrevista de seleção, questinou se as mulheres "concordavam com as regras" e que "todas concordaram". "Ninguém é obrigada a usar o véu", disse.

Liberdade religiosa

Sob a nova Constituição boliviana, promulgada pelo governo de Evo Morales, "o Estado respeita e garante a todos a liberdade de religião e crenças espirituais, de acordo a visão de mundo de cada um".

Mas para a ONG Católicas pelo Direito de Decidir, a prática observada no hospital "rompe o princípio básico das liberdades e direitos consagrados nos documentos internacionais dos direitos humanos e ainda mais na Constituição Política do Estado Plurinacional da Bolívia", nas palavras da sua porta-voz, Tania Nava.

O ministro do Trabalho, Calixto Chipana, discorda de que a utilização do véu no hospital financiado pelo governo iraniano represente um desrespeito a esse princípio. O ministro disse que enviou inspetores ao hospital, e que estes não recolheram queixas de uso forçado do véu. "Se houver qualquer reclamação vamos agir", garantiu. Para Chipana, as denúncias da imprensa boliviana "mais parecem uma guerra contra a ajuda do Irã".

A BBC tentou falar com os diretores do hospital, mas foi informada de que o diretor do hospital, o iraniano Birjandi Masout Maleki, só conversará com a imprensa na segunda-feira.

 

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