Visita do papa desperta esperança de mudança em Cuba

Durante muitos anos os membros do Partido Comunista Cubano se recusaram a entrar na capela católica para cerimônias fúnebres no histórico cemitério Cristóvão Colombo, em Havana.

REUTERS

24 Março 2012 | 12h20

Eles ficavam do lado de fora enquanto outras pessoas homenageavam o morto porque crenças religiosas eram proibidas pelo partido, e ser visto em uma igreja, especialmente em uma católica, poderia trazer problemas mesmo para alguém de luto.

Mas esses dias se foram e a Igreja assumiu um papel maior na sociedade cubana desde a visita do papa João Paulo 2o, em 1998, comentou Erick Oscio, de 68 anos, que se lembra de ter ficado do lado de fora da capela no cemitério.

"As coisas estão mais relaxadas e o tabu acabou. Depois disso, tudo mudou para a religião em Cuba", disse Oscio, coronel reformado do Exército, que agora trabalha como funcionário de um estacionamento.

"João Paulo deu início a uma diferente evolução aqui, que abriu as coisas para os crentes."

Catorze anos depois da memorável viagem de João Paulo 2o a Cuba, o papa Bento 16 irá à ilha na segunda-feira - após uma parada de três dias no México - para uma visita que não se espera que seja um momento de ruptura, mas que para alguns cubanos acendeu esperanças de mais mudanças políticas e econômicas.

Ele pode ter ensejado aspirações mais ambiciosas do que o esperado. Na sexta-feira, deu uma estocada no governo cubano ao dizer a repórteres que a ilha caribenha precisava de um novo modelo econômico porque o comunismo tinha fracassado.

"Hoje é evidente que a ideologia marxista, do modo como foi concebida, não corresponde mais à realidade", declarou o papa no voo para o México, onde chegou na tarde de sexta-feira.

"Não podemos mais construir uma sociedade deste modo. Novos modelos deveriam ser encontrados com paciência e de um modo construtivo", disse ele, estendendo a oferta da Igreja para ajudar na transição num dos últimos países comunistas do mundo.

Quando lhe perguntaram na sexta-feira sobre os comentários do papa, durante a abertura de um centro de imprensa que será usado durante a visita dele, o chanceler cubano, Bruno Rodríguez, disse apenas que Cuba iria escutar respeitosamente o pontífice durante sua visita de três dias e que considerava "útil" a troca de idéias.

Apesar de o Partido Comunista ter encerrado sua proibição às crenças religiosas em 1991, é uma tarefa dura seguir o antecessor de Bento 16 porque os cubanos, de modo geral, vêm sua visita em 1998 como um marco que levou à melhoria das relações entre o Estado e a Igreja no país depois de décadas de hostilidade iniciada após a revolução de 1959.

RAÚL CASTRO

A tarefa deste papa será ampliar os recentes ganhos da Igreja nas relações com o governo e buscar um papel maior em uma época de mudança em Cuba, agora presidida por Raúl Castro, irmão de Fidel Castro.

O cardeal Jaime Ortega, líder da Igreja Católica em Cuba, tem enfatizado o lado spiritual da visita do papa e a esperança de reenergizar a religião na ilha que, durante 15 anos, durante o governo de Fidel, chegou a ser oficialmente declarada um Estado ateísta.

Uma alta autoridade do Vaticano, falando sob anonimato, disse recentemente que o papa queria assegurar ao governo cubano que seu ex-inimigo somente queria ser prestativo, não ameaçador, num momento em que Raúl Castro realiza reformas para melhorar a economia de estilo soviético do país.

A boataria em Cuba está em pleno vapor, com especulações de que, como um gesto de boa vontade para com o papa, o presidente cubano poderá libertar prisioneiros políticos, soltar o empreiteiro norte-americano Alan Gross ou finalmente anunciar reformas na imigração prometidas no ano passado.

Gross, de 62 anos, cumpre pena de 15 anos por ter criado ilegalmente redes de Internet, num caso que emperrou as relações entre EUA-Cuba.

(Reportagem de Jeff Franks)

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