Dezenas de irlandeses vítimas de abuso buscam aconselhamento

Dezenas de vítimas de abuso sexual em paróquias católicas de Dublin entraram em contato com serviços de aconselhamento psicológico, na quinta-feira, após a divulgação de um relatório ter mostrado que arcebispos acobertaram obsessivamente décadas de abusos amplos.

PADRAIC HAL, REUTERS

27 Novembro 2009 | 13h36

Os serviços de aconselhamento disseram que o relatório, que detalhou numerosos exemplos de violência e disse que um padre abusou sexualmente de mais de cem crianças, desencadearam as memórias das vítimas e levaram muitas delas a vir a público pela primeira vez.

O serviço de aconselhamento Faoiseamh, montado pela Igreja Católica, disse que os telefonemas triplicaram esta semana, e o Centro de Crise de Estupros de Dublin disse que o número de chamados de vítimas saltaram de uma média diária de 25 para mais de 140 na quarta-feira.

"Houve uma avalanche de chamados", disse à Reuters a executiva-chefe do Centro, Ellen O'Malley-Dunlop.

"A maioria era de pessoas que estava ligando pela primeira vez, que estavam sofrendo muito e cujas memórias tinham sido reativadas. Elas se sentem péssimas por não terem se manifestado antes, mas a natureza desse crime é justamente essa: silenciar as pessoas", disse ela.

O relatório do inquérito foi divulgado seis meses após um relatório igualmente condenatório e ainda mais explícito sobre açoitamentos, trabalho escravo e estupros coletivos que eram comuns em escolas industriais e reformatórios administrados pela Igreja em fase anterior do século 20.

O Centro de Crise de Estupros de Dublin disse que o número de pessoas que o procuraram subiu 300 por cento após a divulgação do chamado relatório Ryan, em maio, mas que subiu mais ainda na quarta-feira.

"Após o relatório Ryan recebemos ligações de pessoas mais velhas, mas ontem à noite houve muitos homens mais jovens, na casa dos 30 anos, que estavam totalmente arrasados", disse O'Malley-Dunlop.

Grupos de vítimas exortaram o ministro da Justiça, Dermot Ahern, a estender as investigações a todas as arquidioceses do país, mas o bispo auxiliar de Dublin disse que, em vez disso, o tempo e o dinheiro devem ser investidos no aprimoramento dos serviços de proteção à infância.

O bispo Eamonn Walsh disse à Reuters que uma investigação igualmente ampla sobre abusos cometidos apenas em outras áreas de Dublin levaria vários anos e simplesmente traria os mesmos resultados.

"Podemos fazer duas coisas: passar os próximos dez anos investigando o que aconteceu entre 1960 e 2000 ou aprender com o que aconteceu, destilar tudo e definir o que precisamos fazer agora", disse Walsh, referindo-se ao período coberto no novo relatório.

"É preciso investir nossa energia e nosso dinheiro na proteção das crianças através de serviços civis e da igreja. O que queremos é ter profissionais fazendo o trabalho que nós, da igreja, fizemos de maneira inepta no passado, com resultados desastrosos."

(Reportagem adicional de Antonella Ciancio)

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