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Idioma russo entra em declínio na antiga URSS

Países fortalecem idiomas nativos, o que pode levar o russo a perder 150 milhões de fluentes na língua até 2025

Clifford J. Levy, The New York Times

21 Setembro 2009 | 08h01

Num canto da livraria Bukvatoriya, localizada nesta capital da península da Crimeia, há estantes repletas de obras literárias tão provocativas para o Kremlin quanto um batalhão de soldados da Otan. Os livros são clássicos - de autoria de Oscar Wilde, Victor Hugo, Mark Twain e Shakespeare - que foram traduzidos para o ucraniano, em edições destinadas ao público adolescente. Um Harry Potter que lança feitiços em ucraniano também está presente nas prateleiras. As crianças podem até ler Púchkin, o mais celebrado autor russo, em versão traduzida.

 

Duas décadas atrás, a demanda por tais obras seria pequena, levando-se em conta que a maioria das pessoas nesta região pertence à etnia russa. Mas o governo da Ucrânia está exigindo que o idioma ucraniano seja empregado em todas as facetas da sociedade, especialmente nas escolas, para garantir que a próxima geração seja orientada por Kiev, e não por Moscou.

 

A medida ucraniana se tornou um ponto de ignição nas relações entre os dois países e reflete a queda no status do idioma russo não apenas na antiga União Soviética, mas no ex-bloco soviético como um todo.

 

"O declínio no emprego do idioma russo é um golpe duríssimo para Moscou, nas esferas econômicas e sociais", disse o sociólogo Aleksei Vorontsov, da Universidade Herzen, em São Petersburgo. "Trata-se de um rompimento de laços, deixando a Rússia mais isolada."

 

O russo parece estar sofrendo mais do que outros idiomas coloniais porque os países obrigados a absorvê-lo possuem uma identidade nacional mais coesa e estão agora promovendo seus idiomas nativos para afirmar sua soberania.

 

O russo é um dos poucos grandes idiomas a perder adeptos e, segundo estimativas, o total de pessoas fluentes no russo cairá para 150 milhões até 2025, um grande declínio em relação aos 300 milhões de versados no russo que havia em 1990, um ano antes do colapso soviético.

 

A situação foi agravada pela crise demográfica na própria Rússia, que até 2050 pode perder 20% de sua população.

 

A queda no número de pessoas fluentes no russo não se deu de maneira uniforme nos territórios da antiga URSS. Nas ex-repúblicas soviéticas do Quirguistão, o russo ainda é adotado.

 

Mas países que se sentiam subjugados pelo poder soviético, como os Estados bálticos, se vingaram por meio da obrigatoriedade da fluência em seus idiomas nativos como pré-requisito para a concessão de cidadania.

 

Esta disputa é mordaz na Ucrânia, especialmente na península da Crimeia, no Mar Negro, um antigo território russo onde 60% da população de 2 milhões pertencem à etnia russa. Muitas escolas na Crimeia empregam o russo como primeiro idioma, mas com frequência são obrigadas a lecionar matérias como geografia e matemática em ucraniano. E exames nacionais de grande importância são feitos exclusivamente em ucraniano.

 

O ressentimento pode aparecer em lugares inusitados. Quando o Tajiquistão, ex-república soviética localizada na Ásia Central, disse há poucos meses que rebaixaria o status da língua russa, exigindo que os documentos do governo fossem redigidos exclusivamente no idioma tajique, um grito de protesto emanou daqueles que enxergavam o russo como uma ponte para a Rússia e para o mundo exterior. Nos ex-satélites soviéticos na Europa, onde o russo foi essencialmente expurgado com o comunismo, houve uma restauração pequena, mas notável.

 

O idioma é útil no comércio com o mercado da Rússia e, assim, a procura por aulas de russo tem aumentado. A ironia é que a língua franca do comunismo passou a ser um recurso usado na busca do capitalismo.

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