Jamil Chade/Estadão
Jamil Chade/Estadão

Imigrantes repetem rota de judeus dos anos 30 na Europa

Voluntários da fronteira entre Itália e França montam redes clandestinas para ajudar estrangeiros

Jamil Chade, Enviado Especial / Ventimiglia, Itália, O Estado de S. Paulo

22 Outubro 2016 | 17h23

VENTIMIGLIA, ITÁLIA - "Onde estão seus documentos?", gritava um policial em italiano ao egípcio Ahmad Nasser. Sem entender e visivelmente nervoso, ele levantava as mãos, como se fosse um criminoso pego em flagrante. Instantes depois, ele seria colocado à força em uma viatura e levado para uma delegacia. Dali, seria enviado ao sul da Itália para eventual deportação. Seu crime: ser um imigrante ilegal. 

Nasser, pouco antes, tinha conversado com o Estado e relatado que deixou o Egito na esperança de encontrar trabalho na Alemanha ou na Grã-Bretanha. A Itália seria apenas a porta de entrada. "Você tem ideia do que é não ter futuro?", disse. 

Quando chegou à Europa, porém, descobriu que as fronteiras da Itália com os vizinhos estavam fechadas. Teria dificuldades para atingir seu objetivo. Sem saber o que fazer para seguir viagem, perambulava pela cidade de Ventimiglia, na fronteira entre a Itália e a França. Mas, naquele dia, não teve sorte. Ao se sentar em um muro, foi identificado por um carro da polícia que, como se tivesse visto um crime hediondo, ligou os faróis, sirene e prendeu o "criminoso". 

Se sírios, iraquianos e imigrantes de outras nacionalidades contam com certa proteção por serem considerados refugiados de guerra, milhares de outros estrangeiros que tentam uma vida melhor na Europa como imigrantes não têm auxílio da ONU, garantias legais e muito menos simpatia dos governos europeus. Pelo continente, partidos têm vencido eleições com um slogan simples: "Não podemos receber toda a pobreza do mundo".

Enquanto governos europeus têm fracassado em encontrar uma solução para o fluxo de estrangeiros, a única política comum hoje na UE tem sido a da repressão. Um verdadeiro esquema de guerra foi montado, com patrulhas no Mediterrâneo, uso de satélites e novos muros pelo continente. 

Depois de andar toda uma noite pela floresta e acompanhando o Rio La Roya entre as montanhas, aqueles que não são pegos pela polícia chegam ao outro lado da fronteira. A rota é a mesma usada, nos anos 30 e 40, por milhares de judeus para fugir de leis antissemitas.

Estudos realizados na região contam como, ainda em 1938, agentes de fronteira, policiais e fazendeiros locais passaram a ajudar judeus alemães a fugir usando a rota. A situação mudaria dramaticamente quando Roma e o regime de Vichy passaram a adotar leis que agradariam ao Reich.

Quase 80 anos depois, imigrantes fazem, sem saber, o mesmo percurso. Mas o desafio não termina ao pisar em solo francês. Pela lei, a polícia tem o direito de devolver à Itália todos aqueles que estejam na proximidade das fronteiras. Por isso, o objetivo máximo é deixar a região. 

Para isso, esses estrangeiros têm contado com aliados inesperados: os moradores dessa região montanhosa entre França e Itália. De forma clandestina, alguns deles passaram a ajudar centenas de imigrantes a fazer seu caminho pelo continente. 

Um deles é Cedric Herrou, um pequeno produtor da zona dos Alpes franceses que se dedica a vender azeite de oliva, ovos e outros alimentos. Ao Estado, ele diz que, nos últimos meses, eram cada vez mais frequentes as cenas de estrangeiros sendo retirados de forma violenta dos trens e ônibus. "Parecia cena da Alemanha nazista. Eu podia fechar os olhos ou agir", afirma o produtor, de 37 anos.

Em um primeiro momento, ele transformou sua casa, incrustada na montanha, para esconder os imigrantes. Naquele santuário, poderiam comer, descansar e tratar feridas, antes de seguir caminho. Mas Herrou decidiu que apenas oferecer abrigo não era suficiente. Com outros moradores, passou a usar seu pequeno furgão para garantir que, pelas montanhas, esses estrangeiros chegassem até trens que os levassem para longe dali. Em menos de seis meses, ele conta que já ajudou a transportar mais de 200 estrangeiros entre a Itália e sua chácara, do lado francês. 

Em agosto, ele chegou a ser preso e afirma que a polícia foi alertada por moradores da região que são contrários à atitude dos voluntários. Um juiz de Nice, porém, considerou que Herrou não agia por dinheiro, não era um contrabandista de pessoas e, portanto, não poderia ser julgado. Não existe lei na Europa que criminalize a ajuda a um estrangeiro. Por enquanto. 

A rota clandestina, porém, ganhou fama, atraindo dezenas de estrangeiros. Ativistas, médicos voluntários e ONGs também passaram a agir na região. Herrou encontrou um novo esconderijo para os estrangeiros, usando um armazém abandonado no vilarejo de Saint Dalmas de Tende, na França, e entre as montanhas, onde o Estado os encontrou. 

"Eu quero viver em Paris", diz Wegatha, uma eritreia de apenas 17 anos que viaja sozinha. Ela diz que, na Itália, um taxista pediu € 250 para atravessar a fronteira. "Eu não acreditei que ele conseguiria e optei por caminhar", disse a jovem, que recebeu ajuda dos voluntários das montanhas. "Meus pais acham que, desde que cheguei à Europa e sobrevivi ao mar, eu vivo como uma princesa. Vou deixar eles acharem isso", comentou, enquanto tentava se esquentar do outono de baixas temperaturas nas montanhas. 

A reportagem acompanhou como muitos, depois de chegar a Ventimiglia, cruzam a fronteira para a França por um caminho nada tradicional: atravessando florestas e montanhas a pé. Yousseff e Omar, dois amigos do Sudão, fariam na noite de quinta-feira o trajeto, sem saber exatamente até onde isso os levaria. "Acho que não vai ser mais perigoso do que o mar. Disseram que é só seguir um rio", comentou Omar, entre um sorriso nervoso e um semblante de fadiga. "Estamos viajando desde 2014", disse.

Parte dos argumentos dos contrários à imigração tem uma justificativa de segurança: a inteligência obtida por diversos governos confirma que alguns terroristas estariam usando o mesmo trajeto feito por imigrantes e refugiados para entrar na Europa. Apenas em 2015, dados oficiais apontam que 284 mil ordens de expulsão de estrangeiros foram emitidas pelos governos europeus. No primeiro trimestre de 2016, foram mais 69 mil expulsões. Isso sem contar outros 117 mil barrados nas fronteiras e enviados de volta a seus países no ano passado.

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Paróquia local dá abrigo a dezenas de estrangeiros

Igreja atende pedido do papa Francisco, mas parte da comunidade deixa de ir à missa em protesto

Jamil Chade, Enviado Especial / Ventimiglia, Itália, O Estado de S. Paulo

22 Outubro 2016 | 17h29

VENTIMIGLIA - ITÁLIA - Na modesta paróquia de San Antonio, em Ventimiglia, o arcebispo da região seguiu à risca o pedido do papa Francisco e abriu a Igreja para os estrangeiros. Locais que serviam de escritórios, sala de festas e despensa foram transformados em quartos para mais de 50 pessoas, que se apertam entre os beliches improvisados.

Em 2015, o pontífice apelou para que cada paróquia mostrasse solidariedade com a onda de estrangeiros na Europa. Poucas seguiram a ordem. Mas na cidade de fronteira entre a Itália e a França os religiosos locais entenderam que não poderiam mais deixar os estrangeiros dormindo em praças e na praia. "Com Deus não se brinca. Ele está vendo tudo o que fazemos", brincou Giuseppe, um aposentado que se ocupa de preparar a Igreja para as missas, cada vez mais vazias. 

Aberto há cinco meses, o local está com a capacidade esgotada. Segundo o escritório da Cáritas na região, a decisão foi a de acolher apenas mulheres sozinhas, famílias com crianças ou casais cujas mulheres estejam grávidas. Sem trabalho, visto ou possibilidade de continuar a viagem, é na paróquia que acabam vivendo no limbo. 

"Isso aqui é angustiante", disse Daniat, uma garota de 19 anos da Eritreia. Controlando a entrada, um imigrante afegão que, há cinco anos na Europa, decidiu desistir de procurar trabalho na Europa e passou a ser voluntário da Cáritas. Em troca, o muçulmano ganha alojamento e comida. "Um dia eu ainda consigo um emprego", diz.

Para mães, a Igreja tem sido o momento "mais próximo de casa" de todo o trajeto de meses entre a África e a Europa. "Aqui, voltamos a ser uma família", disse Hanna, que usou a última economia que a família tinha depois da morte do marido para tentar a sorte na Europa. Com quatro filhos pequenos, ela optou por um caminho mais seguro. Da Eritreia, foi para Sudão e Egito. "Ali, peguei um barco grande. Não queria me arriscar na Líbia", contou. Assim como todos os demais, aguarda uma definição dos governos para decidir se continua a viagem para o Reino Unido, onde tem parentes.

Os pais da bebê Naila, de 7 meses, também usam o gesto da paróquia para "respirar". A criança nasceu no caminho da fuga, já no Sudão e em uma casa improvisada. Para seus pais, o fato de ela estar viva "já é um milagre". O parto antes da hora obrigou a família a permanecer por alguns meses nas proximidades de Cartum. Só depois é que puderam seguir para a Líbia. "Não sabemos o que vai ocorrer conosco. Mas estamos descansando aqui e rindo com nossa filha", disse o pai de Naila, que não quer mostrar o rosto nem ter o nome publicado.

No pátio interno, crianças matam o tempo brincando e jogando futebol. São eritreus, etíopes, sudaneses e nigerianos. Cada um com sua religião.

Em um dos cantos do jardim da Igreja, uma sudanesa abre um tapete e faz suas orações, depois de identificar com seu celular a direção de Meca. 

Os religiosos decidiram que não aceitariam apenas cristãos e o resultado foi surpreendente. "Todos convivem muito bem", disse Giuseppe, destacando que os muçulmanos não criam problemas na convivência nem fazem exigências. 

Os maiores problemas, no entanto, vêm de parte da comunidade cristã local. "Tem muita gente que não gosta", conta um dos funcionários, apontando que fiéis têm perguntado por quanto tempo aquelas pessoas ficariam ali. Alguns chegaram a deixar de frequentar as missas. "Essa igreja vivia vazia, com pouca gente nas missas. Ela agora serve para algo real", disse outro voluntário. 

Funcionários do centro disseram ao Estado como, na semana passada, o enterro de um antigo morador do local causou certa tensão. A família do morto pediu ao padre que retirasse os imigrantes da entrada na hora que o caixão passasse. Com ironia, ele respondeu que não contaria ao morto que seu enterro estava sendo acompanhado por estrangeiros. E não retirou os imigrantes.

Repressão. Na quinta-feira, o Estado presenciou como uma operação de cerca de 50 policiais desmontou um centro clandestino de acolhimento de estrangeiros. No total, cerca de 40 pessoas foram detidas, além dos organizadores do centro – 23 dos mais de 40 imigrantes eram menores e seriam transferidos para um centro especializado. O restante seria devolvido para a polícia italiana, que os mandaria para o sul do país, por onde entraram. Quem não conseguisse provar que precisava ficar, seria deportado. 

Apesar de a operação contar com tropa de choque e homens fortemente armados, a reação dos estrangeiros não foi de resistência nem de tentativa de fuga.

Quem não é deportado imediatamente, acaba em um centro no lado italiano da fronteira que hoje abriga 500 pessoas. Na porta, policiais italianos fortemente armados controlam quem entra e quem sai. "Fotos são proibidas", declarou um deles, pedindo à reportagem que se retirasse do local. "Para estar aqui na porta é necessário obter uma autorização da prefeitura", alegou. 

Questionado sobre quanto tempo levaria para uma aprovação, o policial apenas mexeu os ombros. "Ninguém sabe", disse. A reportagem pediu autorização para visitar o centro. Até ontem não havia recebido qualquer tipo de resposta. 

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