AFP Photo/MIGUEL RIOPA
AFP Photo/MIGUEL RIOPA

Portugal e Espanha atravessam estiagem extrema

Clima deixa rios quase secos, devasta plantações e causam queimadas espontâneas; especialistas dizem que seca deve se tornar mais frequente

O Estado de S.Paulo

21 Novembro 2017 | 06h24

MADRI - Espanha e Portugal sofrem com uma seca devastadora que deixou vários rios quase secos, causou queimadas espontâneas e devastou plantações — e especialistas alertam que secas prolongadas se tornaram ainda mais frequentes.

Quase toda a extensão de Portugal foi afetada pela seca extrema dos últimos seis meses, algo que não ocorria desde 2005. A maior parte da Espanha também recebeu muito menos chuvas do que o esperado.

"É uma situação de ruína", disse Jose Ramon Gonzalez, um pequeno fazendeiro da região da Galícia, onde normalmente há chuvas.

Devido à falta de pasto, Gonzalez foi forçado a gastar milhares de euros para comprar forragem para o gado em julho, quatro meses antes do que ocorreria normalmente. "Há rios, córregos, que nem eu, aos 45 anos, nem meus pais jamais vimos secar, e que agora estão secos."

Cerca de 1,38 milhão de hectares de grãos, girassóis, e oliveiras foram afetadas pela seca ou geada na Espanha, de acordo com dados coletados até o fim de outubro pela seguradora agrícola Agroseguro.

A empresa pagou mais de 200 milhões de euros (R$764 milhões) em compensações neste ano.

"Você se sente incapaz, como quando fica doente, não consegue fazer nada. Essa doença é chamada de seca", disse Vicente Ortiz, um fazendeiro de Castela-Mancha, na região central da Espanha, cujas planícies intemináveis são descritas no livro Dom Quixote, de Miguel de Cervantes.

Ortiz diz que sua colheita de grãos caiu 70% com relação ao ano passado, e que ele espera colher só metade da colheita de azeitonas.

A situação também é dramática para os fazendeiros em Portugal.

"Todas as plantações estão sofrendo com a falta de água na região, desde oliveiras até grãos e uvas", disse Fremelinda Carvalho, presidente da associação de fazendeiros em Portalegre, região central de Portugal.

Os campos e florestas, secos, levaram ao surgimento de queimadas espontâneas, que metaram 109 pessoas em Portugal e cinco na Galícia — muitos morreram dentro de seus carros, enquanto tentavam fugir do fogo.

Conflitos por água

Reservatórios de água estão com níveis anormalmente baixos. Em Portugal, em outubro, 28 reservatórios estavam com apenas 40% da capacidade.

No último fim de semana, cerca de cem caminhões de bombeiros começaram a transportar água de uma represa no norte de Portugal para outra que estava ficando vazia e que abastece a cidade de Viseu, com cerca de cem mil residentes.

Na Espanha, os reservatórios de água ao longo do rio Tagus, que desemboca no Atlântico, perto de Lisboa, estavam, pela marcação dia dia 13 de novembro, com menos de 40% de sua capacidade.

Os níveis eram ainda menores no rio Douro, mais ao norte e no rio Segura, que é usado para irrigar as plantações no sudeste da Espanha.

A maior companhia elétrica da ESpanha, Iberdola, viu sua produção de energia por hidrelétricas cais 58% nos primenos nove meses do ano, na comparação com o mesmo período do ano passado, o que levou ao aumento das tarifas de energia.

A seca está incensando conflitos entre as regiões por conta do uso da água. Por exemplo, um grande aqueduto construído em 1960 pelo ditador espanhol Francisco Franco para levar água do rio Tagus para o rio Segura agora é fonte de tensão.

"O rio Tagus não pode aguentar esse aqueduto", disse Antonio Luenbo, chefe da agência que regula a água na região de Castela-Mancha.

A água retirada do rio Tagus era usada para desenvolver culturas de frutas e vegetais no sudeste da Espanha e agora isso é feito com água dessalinizada, retirada do Mar Mediterrâneo.

Riscos climáticos

Especialistas avisam que secas devem se tornar mais frequentes na região.

"A Espanha mostra sinais de mudança climática desde 1980, que se tornaram mais visíveis a partir do ano 2000", disse Jorge Olcina, um geógrafo que chefia o instituto do clima da Universidade de Alicante.

O clima do país tende a apresentar características mais subtropicais. "Temperaturas mais altes e chivas mais raras e intensas. Então riscos climáricos, ondas de calor, secas e enchentes, vão aumentar nas próximas décadas", disse.

Espanha gerenciou a água "muito mal", disse o porta-voz do Greenpeace na Espanha, Julio Berea.

Ele citou exemplo do uso de água para irrigar árvores que normalmente não precisam de muita água, como oliveiras e amendoeiras, e a plantação de culturas que exigem muita água, inadequadas para o clima mediterrâneo espanhol.

Ambos os governos prometeram providenciar ajuda financeira aos fazendeiros, que ainda aguardam ansiosamente pela chuva. "Estamos constantemente olhando para o ceú", disse Ortiz, o fazendeiro de Castela-Mancha.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.