Lourival Sant’Anna / Estadão
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50 anos da morte de Che Guevara: Ele queria ‘morrer como um mártir’, diz pesquisadora

Marcela Iacub traçou um perfil psicológico do personagem revolucionário e afirma que ele se tornou uma figura ‘crística’ com a foto de seu cadáver, na qual ‘parece ter se entregado a seus carrascos em um estado de satisfação’

O Estado de S.Paulo

09 Outubro 2017 | 07h00

PARIS - Além da imagem de guerrilheiro que defende um ideal, Ernesto “Che” Guevara estava obcecado com a morte e com a ideia de martírio, diz a pesquisadora franco-argentina Marcela Iacub, que traçou um perfil psicológico do célebre revolucionário.

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Ela é diretora de pesquisa no Centro Nacional de Pesquisa Científica francês e acaba de publicar "Le Che, à mort" (“Che, até a morte”, em tradução livre).

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Veja abaixo os principais trechos da entrevista concedida à agência de notícias France-Presse.

Por que Che passou a ser uma lenda?

Há duas lendas que dizem respeito a Che: a lenda castrista e a lenda "crística", na qual se apoia, sobretudo, o filme hollywoodiano "Che", de Steven Soderbergh. Para muitos, ele se tornou uma figura "crística" com a foto de seu cadáver. Talvez o mito nunca tivesse existido sem essa foto tirada horas depois de sua execução por parte do Exército boliviano e para a qual seu corpo foi preparado (seu cabelo foi cortado e injetou-se formol em seu rosto). Vários fotógrafos chegaram depois ao local. Graças à luz dos flashes, os olhos de Che estavam cheios de luz. O mundo inteiro viu essa imagem perfeita, com a qual Che mostrou que era um mártir no sentido cristão do termo, porque parece ter se entregado a seus carrascos em um estado de satisfação. Em contrapartida, as fotos tiradas logo depois de sua execução foram escondidas durante 20 anos. São horríveis e nunca teriam dado lugar a um culto como esse.

Che Guevara também é o símbolo do revolucionário defendendo um ideal?

Em sua adolescência, ele não era comunista e não estava comprometido politicamente, mas havia decidido morrer muito jovem, como um mártir. É o que se pode ler em alguns de seus poemas. Naquela época, já se condenava a morrer como um herói. Em seus "Diários de Motocicleta" (sobre seu périplo pela América Latina aos 20 anos), já imaginava seu destino. Para fazer uma análise psicológica do personagem, me baseei em seus escritos. Antes de mais nada, queria lhe dar a palavra, porque também escrevia bem. Acredito que tenha inventado seu personagem desde sua juventude, lendo romances de aventuras. Tinha um ideal muito elevado para si mesmo, provavelmente, porque sua família era aristocrática, mas havia caído na miséria. Queria salvar a humanidade, tornando-se um grande cientista quando era jovem. Estudou Medicina. Como não teve êxito por esse caminho, tentou liderar uma guerra total e definitiva contra o capitalismo. Queria que a humanidade morresse lutando, mesmo que o combate terminasse em uma derrota.

O que resta de Che na atualidade?

Somos uma sociedade mais pacifista do que nos anos 1960-1970. Não aceitamos mais a luta armada como meio para impor nossas ideias políticas, diferentemente de décadas anteriores. O que persiste é o mito do mártir, a ideia de que, se matou e se exterminou seus oponentes, foi para evitar coisas mais graves. Caso contrário, por que tantos comunistas caíram no esquecimento e ele não? Em sua relação com a morte, talvez haja algo em comum com a atitude dos jihadistas: o desejo de glória, a ideia de já se considerar morto. / AFP

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Após 50 anos, Che permanece como figura mítica da revolução armada durante Guerra Fria

Personagem histórico deverá receber homenagens em Cuba e na Bolívia, onde seus quatro filhos visitarão o vilarejo no qual o pai foi executado em 1967 pelo Exército boliviano

O Estado de S.Paulo

09 Outubro 2017 | 07h00

HAVANA - Para os 50 anos de sua morte na selva boliviana, Ernesto "Che" Guevara, uma figura mítica da ação revolucionária armada durante a Guerra Fria, receberá homenagens em Cuba e na Bolívia.

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Em Cuba, onde todos os alunos começam o dia prestando o sermão dos "pioneiros", prometendo "ser como Che", no mausoléu que abriga os restos mortais do lendário guerrilheiro desde 1997 em Santa Clara, estão programadas cerimônias comemorativas.

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O presidente cubano, Raúl Castro, sucessor de seu irmão Fidel, morto em 2016, deverá estar presente para homenagear o homem que era chamado de "O Argentino" nesta cidade, onde ganhou em 1967 uma decisiva batalha contra as tropas do ditador Fulgencio Batista (1952-1958).

Na Bolívia, seus quatro filhos, nascidos e residentes em Cuba, visitarão La Higuera, vilarejo no sul do país onde o guerrilheiro foi executado em 1967, anunciou o presidente Evo Morales.

Ernesto Che Guevara foi capturado no dia 8 de outubro de 1967 pelo Exército boliviano depois de ser ferido em batalha, e executado no dia seguinte. As homenagens são, tradicionalmente, realizadas no dia de sua captura.

Mito ainda vive

Quando foi capturado, ele liderava um grupo de guerrilheiros que sobreviviam a combates, fome e doenças. Che foi levado para uma escola abandonada, onde passou sua última noite. Na tarde seguinte, o revolucionário foi executado sumariamente por Mario Teran, um sargento boliviano.

Aos 39 anos, Che entrava para a História e se tornava um mito, enquanto seu corpo magro era exibido como um troféu. A mitologia revolucionária da qual ele é símbolo foi revivida em 1997 pela descoberta de seus restos mortais e sua exumação solene no mausoléu de Santa Clara por Fidel Castro.

No mundo inteiro, a imagem-culto do guerrilheiro - a foto do cubano Alberto Korda tirada em 1960 e a mais difundida no mundo - continua sendo reproduzida em milhões de camisas, cartazes, bonés e bolsas, apreciados pela juventude dos cinco continentes, mas também por estrelas do futebol e da música.

Guerrilha de corpo e alma

Depois de estudar Medicina na Argentina e de várias jornadas que forjaram suas convicções, esse defensor declarado da violência política conheceu Raúl e Fidel Castro no México, antes de participar da guerrilha que levou "os barbudos" ao poder em Havana em 1959.

De seus companheiros cubanos, ele guarda o apelido de "Che", uma interjeição característica argentina que serve para atrair a atenção do interlocutor, cumprimentá-lo ou expressar surpresa.

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Após supervisionar por seis meses a repressão dos "contrarrevolucionários" - o que nunca negou -, dirigiu por um tempo o Banco Central cubano e o Ministério da Indústria. Mentor da aproximação da Revolução Cubana com Moscou, afastou-se posteriormente dos posicionamentos soviéticos favoráveis ​​à "convivência pacífica" com o bloco ocidental para defender uma estratégia de conquista do poder pelas armas.

"Outras terras do mundo reclamam a contribuição de meus modestos esforços", escreveu para Fidel em 1965, ao pedir uma licença para levar a luta para a África em particular. Ele terminou o documento com sua famosa frase: "Até a vitória, sempre!".

Seguiram-se meses de "desaparecimento", enquanto esteve no Congo tentando, sem sucesso, impor uma revolução armada para, então, embarcar em sua última guerra na Bolívia. / AFP

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‘Ernesticos’, os jovens que carregam o nome e o legado de Che Guevara

Todo dia 14 de junho na maternidade Mariana Grajales, em Santa Clara, o primeiro menino nascido recebe o nome de Ernesto, se os pais estiverem de acordo

O Estado de S.Paulo

09 Outubro 2017 | 07h00

SANTA CLARA, CUBA - Santa Clara, no centro de Cuba, é considerada a cidade de Che Guevara, mas também é a dos "Ernesticos", jovens que levam o nome do guerrilheiro e a responsabilidade de perpetuar seu legado.

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A cada ano na maternidade Mariana Grajales desta "heroica cidade", a homenagem é atribuída ao primeiro menino nascido no dia 14 de junho, dia do nascimento de Ernesto Che Guevara em 1928. Se os pais estão de acordo, um dos dois nomes do recém-nascido será Ernesto.

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Desde 1992, foram batizados 24 "Ernesticos", sem que até agora essa honraria tenha sido refutada. Em Santa Clara, onde Guevara travou uma batalha decisiva em 1958, não se brinca com o culto ao guerrilheiro argentino-cubano.

"Che é emblemático aqui, está em todos e nos convoca", assegura Noris Cárdenas, diretora do Memorial Ernesto Che Guevara, que desde 1997 guarda os restos do guerrilheiro, executado há 50 anos na selva boliviana.

Juramento

A cada manhã, estudantes cubanos fazem um juramento: "Seremos como o Che". Mas os "Ernesticos" de Santa Clara assumem um compromisso que vai muito além da simples profissão de fé.

Lázaro Ernesto tem apenas 12 anos, mas assegura ter se imposto uma estrita linha de conduta desde que tomou consciência do legado do Che. "Estudar, me comportar bem, ser honesto, ser bom com meus amigos e minha família", enumera Lázaro, sob o olhar vigilante de sua mãe, Mayelin Morán, uma dona de casa de 40 anos.

Muito tímido, o menino, que é fã do atacante Lionel Messi, diz se sentir "orgulhoso” de ter o mesmo nome do guerrilheiro, mas admite que “trava” todo dia 14 de junho, quando seus colegas de escola o cumprimentam em seu aniversário.

Daniel Ernesto assume a fama com maior serenidade. Aos 24 anos, é o segundo dos "Ernesticos" e o mais velho dos que vivem em Santa Clara. Técnico em informática no hospital pediátrico da cidade, este fervoroso colecionador de camisetas com a imagem do Che, acostumou-se a ser reconhecido na publicação de artigos e na difusão de reportagens. Contudo, ele admite que "tentar estar à altura" de Che às vezes "pode ser um peso".

Homenagens

Os jovens são regularmente convocados para cerimônias oficiais na província e se reúnem todo 14 de junho para homenagear seu guerrilheiro favorito. "Tem a ver com marcar o legado do Che no tempo, mas sobretudo com contribuir para a formação das novas gerações a partir dos valores que Che deixou em nossa história", explica Felicia Lara, da Universidade Pedagógica de Santa Clara.

Atualmente encarregada do programa "Ernesticos", coordenado pela universidade, ela insiste na importância que tem para os jovens incorporar as principais qualidades do guerrilheiro, como honestidade e humanismo, embora explique que não se trata de exigir-lhes o impossível.

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"São herdeiros, meninos da cidade que se distinguem por levar o nome de Ernesto, e (...) por suas qualidades morais, éticas, mas sem exigir que sejam mais do que simplesmente um menino ou um adolescente", adverte Felicia, destacando, com orgulho, que "nunca fomos decepcionados por um Ernestico".

Por definição, todos os "Ernesticos" são meninos, mas Felicia lembra os apuros que viveu há 17 anos, ao descobrir que um recém-nascido tinha uma irmã gêmea. O dilema foi resolvido quando os pais aceitaram nomeá-la Celia, em homenagem à revolucionária Celia Sánchez, braço direito de Fidel Castro, morta em 1980. / AFP

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Fotógrafo relata como foi estar diante do corpo de Che no dia seguinte à morte do guerrilheiro

Marc Hutten foi um dos poucos jornalistas estrangeiros a testemunhar a cena: o cadáver do lendário personagem em um necrotério improvisado em Valle Grande, no sul da Bolívia

O Estado de S.Paulo

09 Outubro 2017 | 07h00

PARIS - No dia 10 de outubro de 1967, o corpo do guerrilheiro argentino Ernesto Che Guevara foi exposto, um dia depois de sua morte em um necrotério improvisado em Valle Grande, no sul da Bolívia, onde tentava lançar uma nova revolução.

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Marc Hutten, fotógrafo da agência France-Presse, foi um dos poucos jornalistas estrangeiros a testemunhar a cena. Suas fotografias coloridas do corpo do companheiro de armas de Fidel Castro rodaram o mundo.

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O Exército boliviano afirmou na época que Che morreu em decorrência de seus ferimentos. Mais tarde, descobriria-se que ele foi executado após ser feito prisioneiro.

Marc Hutten morreu em 2012. Apenas algumas fotografias dessa reportagem ainda estão nos arquivos da agência.

Veja a seguir a descrição histórica da cena ocorrida há 50 anos de acordo com suas anotações, divulgadas no dia 11 de outubro de 1967:

Diante do corpo de "Ramón"

Valle Grande (Bolívia), 11 outubro 1967

Do enviado especial da "France-Presse": Marc Hutten

Ontem à tarde vi o corpo, cravejado pelas balas e sem vida, de um guerrilheiro apelidado "Ramón", o suposto nome de guerra de Ernesto "Che" Guevara.

Fomos cerca de 30 jornalistas, entre eles apenas 3 correspondentes estrangeiros, que chegamos a Valle Grande, um povoado pacato no sudeste boliviano, para constatar ali a morte do mais prestigiado dos guerrilheiros.

Após descer das alturas enevoadas do aeródromo militar de La Paz (4,1 mil metros), nosso "Dakota" parou em Valle Grande na hora da “siesta”. No outro extremo do povoado de ruas desertas, uma cerca diante da qual estavam parados aproximadamente 50 curiosos dava acesso a um terreno no fim do qual se erguia, em uma ladeira, um necrotério improvisado em um antigo estábulo. Altos oficiais e soldados armados nos receberam.

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O cadáver de um homem barbudo, de cabelo longo e vestido apenas com uma calça verde oliva, jazia sobre uma maca colocada em uma pia de cimento. Um cheiro de formol pairava acima do corpo cravejado por balas e ensanguentado, que tinha a seus pés outros dois cadáveres, sobre o mesmo solo.

Os oficiais encarregados de dissipar cada uma de nossas eventuais objeções sobre a identidade de "Ramón" se empenhavam em apontar a semelhança, traço por traço, do corpo com o guerrilheiro. Não há dúvida possível, nos diziam: as impressões digitais do cadáver correspondem às de Guevara.

"Ramón" foi fatalmente ferido na batalha do domingo anterior, a poucos quilômetros de La Higuera, perto de Valle Grande. Morreu pelos ferimentos na primeira hora de segunda-feira. "Não foi executado", garantiu o coronel Arnaldo Saucedo, comandante do segundo batalhão de “rangers” que opera no setor.

"Sou Che Guevara, fracassei", teria murmurado, dirigindo-se aos soldados que o fizeram prisioneiro. Isso pelo menos é o que afirma o general Alfredo Ovando, comandante-chefe das Forças Armadas bolivianas. Mas ao ser questionado sobre isso, pouco antes, em uma entrevista coletiva, o coronel Saucedo declarou que "Ramón" não tinha estado consciente em nenhum momento.

Os jornalistas que se amontoavam ao redor do necrotério, incluindo fotógrafos e cinegrafistas, dão sinais de estupefação e incredulidade. Um erro na identificação pareceria ser, contudo, impossível. Um colega boliviano me diz: "Valle Grande acaba de entrar na história revolucionária da América do Sul".

Aos pés do corpo de "Ramón", outros dois guerrilheiros jazem sobre o solo. Seriam os corpos de "El Chino", um peruano, e de "El Moro", um médico cubano. Outros dois cadáveres, que seriam ao que tudo indica bolivianos, ainda não foram identificados definitivamente.

O coronel Saucedo, que oferece uma entrevista coletiva depois da apresentação dos corpos, afirma que só restam nove guerrilheiros em todo o sudeste boliviano e já não há focos de insurreição. Atlético e com um bigode preto, fala de pé sob a imagem religiosa que decora uma das paredes da sala do hotel em que nos reunimos.

Um militar americano assiste a essa coletiva. Não usa nenhuma insígnia, mas sua estatura, sua pele corada e seu uniforme entregam sua nacionalidade. O abordo para entrevistá-lo em inglês. Ele vira para um soldado boliviano e pergunta, em espanhol, o que queremos.

Dirigindo-se a mim, acrescenta "não compreendo" e vai embora. Ao ser questionado sobre isso, o coronel Saucedo me diz: "Sim, é um militar americano, um instrutor do centro de Santa Cruz. Veio aqui como observador. Nenhum 'boina verde' americano participa nas operações militares na Bolívia".

Uma lista de 33 guerrilheiros, incluindo mais de uma dezena de cubanos, abatidos desde que começaram as hostilidades no dia 23 de março, foi publicada em Valle Grande. O general Ovando reduz a guerrilha boliviana a proporções tão reduzidas quanto inesperadas, afirmando que seus efetivos nunca passaram de 60 homens.

"A aventura da guerrilha chegou ao fim", afirma. "Como toda aventura destrambelhada deve chegar ao fim. Seu fracasso se deve à ausência de qualquer apoio popular e à aridez do terreno escolhido". E acrescenta: "Enterraremos Guevara aqui mesmo, em Valle Grande".

O guerrilheiro "Ramón" teria encontrado a morte no fundo de um vale estreito, ao fim de uma violenta batalha, de corpo a corpo ou quase: as nove balas que o atingiram foram disparadas a 50 metros de distância.

Ele deixou um diário, cujos escritos, que preenchem uma agenda alemã de 7 de novembro de 1966 a 7 de outubro de 1967 - 11 meses exatamente - não dá margem a dúvidas, dizem, sobre a identidade do autor. Ali se encontra uma frase "irrefutável" para Régis Debray*: "Foi encarregado de uma missão em nome da guerrilha". / AFP

* O escritor francês Régis Debray, que se juntou a Che Guevara, foi preso e julgado na Bolívia em 1967, acusado de ter participado em confrontos que deixaram 18 mortos nas fileiras do Exército boliviano.

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Se Che não tivesse morrido, a América Latina seria livre e socialista, diz irmão do guerrilheiro

Em entrevista à agência ‘France-Presse’, Juan Martin Guevara afirmou que ‘as duas imagens mais famosas do mundo são as de Cristo e a de Che’

O Estado de S.Paulo

09 Outubro 2017 | 07h00

BUENOS AIRES - Cinquenta anos após sua morte, o argentino Ernesto Che Guevara, companheiro de revolução de Fidel Castro em Cuba, continua a ser uma figura mítica e continuará a ser nos próximos três séculos, assegura seu irmão Juan Martin Guevara.

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Em entrevista à France-Presse, o irmão mais novo do revolucionário sem fronteiras, de 74 anos, conta a intimidade da família Guevara e confessa seu sofrimento por não ter acompanhado Che em sua última missão, na Bolívia, no dia 8 de outubro de 1967. Confira a entrevista abaixo.

Por que Che Guevara morreu na Bolívia?

"Os militares bolivianos dizem que ele morreu em combate, mas não é verdade. Ele foi executado pelo Exército boliviano. Eles o fotografaram como se fosse um troféu. O Partido Comunista provavelmente o traiu. A URSS (União Soviética) desempenhou um papel muito importante. As duas agências de inteligência mais poderosas da época, a KGB russa e a CIA americana, concordavam em um ponto: o projeto revolucionário latino-americano não deveria funcionar. Valeria a pena assumir a liderança de um pequeno grupo armado na Bolívia? Importante como era? Concordo com Fidel Castro. Não é a política que deve estar no front, a política deve enviar outros para o front".

O que teria acontecido se ele não tivesse morrido?

"Se ele não tivesse morrido na Bolívia em 1967, a América Latina seria agora livre, soberana, independente e socialista. Era isso o que ele queria. Pois, se ele estivesse vivo, teria triunfado. Para ele, era tudo ou nada. Por que ele não permaneceu como ministro em Cuba? Porque não era seu objetivo de vida, não era o tipo que fica sentado em um escritório. O que ele teria se tornado, é impossível saber, mas permaneceria ao lado do povo em luta".

Como soube de sua morte?

"Eu trabalhava (em Buenos Aires) em uma empresa de laticínios e, na madrugada, os jornais saíram com sua foto nas capas. Tive de terminar o dia do trabalho, foi difícil. Muitas vezes haviam anunciado sua morte, mas, dessa vez, sabia que era verdade. A família se reuniu. Meu pai e minha irmã acreditavam que a foto havia sido manipulada. Meu irmão Roberto viajou para a Bolívia. Depois, Havana confirmou que era Ernestito. O ministro do Interior boliviano havia enviado para Cuba suas mãos, cortadas, para a verificação das impressões digitais".

Como você explica o fato de Che ter se tornado uma celebridade mundial?

"Os mitos existem, porque as sociedades os criam. Digo que as duas imagens mais famosas do mundo são as de Cristo e a de Che. Um amigo me disse uma vez: 'Você exagera, a de Cristo é mais conhecida'. Claro, ele morreu há 2 mil anos; Che, há 50. Nós não estaremos aqui para vê-lo, mas o Che, em 300 anos, sempre será Che. E espero que haja outros Ches".

Descreva um pouco da personalidade de seu irmão.

"Ele tinha um grande senso de humor, que é de família. Quando tinha uma ideia em mente, ia até o fim. Era visionário, de um pensamento profundo. A herança que ele deixou para a juventude foi seu pensamento, sua ética, sua ação, seus 'culhões'. Ele permaneceu profundamente argentino, amava o chá-mate e churrasco".

Ser irmão de Che ajudou a determinar seu destino, não?

"Era militante universitário antes da Revolução Cubana, e Ernesto era meu irmão de sangue e meu companheiro de ideias. Ele nos ensinou a não ler como lemos a Bíblia. Ele era antidogmático, com a liberdade de pensar. Teria gostado de permanecer com ele em Cuba, em 1959, mas meu pai não quis. Em La Higuera (lugar de sua morte na Bolívia), pensei 'por que eu não estava ao seu lado?'. Ser seu irmão não é um fardo, mas uma herança. Nem sempre foi fácil: colocaram bombas, metralharam nossa casa. Sua ação ameaçou interesses muito poderosos".

Che amava as mulheres?

"Ele atraía a atenção das mulheres. Não era muito exigente em termos de beleza feminina, amava as mulheres normais. Hilda (sua primeira mulher), não era uma Brigitte Bardot. Graças a ela, conheceu Fidel. A mulher de sua vida? Pelo que sei, Aleida March foi a mais importante de sua vida. Ela lhe deu quatro filhos. Mas, sua mulher eterna era a revolução". / AFP

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Claudia Müller, O Estado de S.Paulo

09 Outubro 2017 | 08h12

Além da faceta de guerrilheiro, mais comumente lembrada quando se pensa em Che Guevara, ele também teve contribuições importantes no campo teórico. O médico argentino escreveu textos e proferiu discursos sobre industrialização, desenvolvimento, problemas internacionais, guerrilha. Porém, no campo econômico suas ideias ainda continuam relevantes, segundo analistas.

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Diversos temas foram objeto de estudo e debate por Che Guevara em textos e discursos, como a estratégia revolucionária, o caminho do socialismo em sociedades subdesenvolvidas, o ser humano do futuro, a luta armada, relações de trabalho, a utilização de incentivos morais para aumentar a produtividade, a teoria marxista, entre outros. Além disso, ele se mostrou um cronista por meio de seus diários, que relataram suas viagens pela América Latina quando jovem, a guerra revolucionária em Cuba e a insurgência na Bolívia.

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Entretanto, os escritos sobre a guerrilha têm menos relevância atualmente do que na época em que foram feitos, explica o autor do livro "A Teoria Política de Che Guevara" e professor de filosofia na Universidade Saint Louis, em Madri, Renzo Llorente. “Hoje temos outras possibilidades de lutar pacificamente para mudar as sociedades de regiões como a América Latina”, explica.

Porém, suas teorias guerrilheiras encorajaram outras regiões e ajudaram a universalizar a experiência cubana. “O apoio que Cuba oferecia a muitas insurgências armadas depois do triunfo da Revolução Cubana tinham inspiração, pelo menos parcialmente, nas ideias de Che”, explica Llorente.

Para o coordenador do curso de relações internacionais da Universidade Federal Fluminense, Adriano de Freixo, as ideias sobre guerrilhas tiveram grande impacto nas décadas de 1960 e 1970 e o livro "Guerra de Guerrilhas" foi fonte de inspiração para a maior parte da esquerda armada latino-americana naquele período.

“Isso aconteceu tanto por suas críticas à tática dos partidos comunistas de entrar no jogo eleitoral e parlamentar ‘burguês’, quanto pela ideia de que um pequeno grupo de revolucionários bem treinados trabalhando junto às populações camponesas teria condições de levar adiante o processo revolucionário”, ressalta Freixo.

Prática

As ideias econômicas de Che Guevara, principalmente sobre como a economia deveria ser organizada na tentativa de construir uma sociedade socialista, foram postas em prática quando ele se tornou ministro da Indústria em Cuba. “A crença na defesa da igualdade, no dever social e na solidariedade internacional continuam relevantes atualmente e inspiraram, por exemplo, as propostas de Che para reorganizar a economia cubana e mudar os princípios que regulam o comércio internacional”, explica Llorente.

Alguns dos discursos que ele fez sobre problemas internacionais, como a Guerra do Vietnã, a situação no Congo, da África em geral, e sobre pobreza, repressão e imperialismo ainda se mostram válidos, de acordo com a autora do livro "Che Guevara: A Economia da Revolução" e associada da London School of Economics and Political Science, Helen Yaffe. “Provavelmente, essas ideias são ainda mais relevantes hoje, em uma sociedade mais dividida entre os que têm tudo e os que têm nada”, afirma. “Todas as doenças socioeconômicas que Che e a Revolução Cubana tentaram confrontar, não apenas em Cuba, mas internacionalmente, ainda existem."

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Por ter esses pensamentos, Che divergiu de outros ministros cubanos, que apoiavam a União Soviética. Segundo Helen, em 1962 o médico argentino afirmava que o capitalismo voltaria para a URSS. “Ele não tinha uma bola de cristal, mas entendia as implicações das políticas econômicas que os soviéticos estavam seguindo, por meio do uso de ferramentas capitalistas que causavam  um aumento da individualidade, competição e busca do lucro”, afirma.

Para Llorente, Che se mostrou bastante crítico com algumas políticas da URSS “em um momento que alguns dirigentes cubanos se negavam a questionar a linha política de Moscou”. O coordenador do curso de Relações Internacionais da UFF também explica o conflito do argentino com as políticas da URSS. “Essa questão acaba sendo a base das divergências centrais entre Che e Fidel e, consequentemente, do distanciamento do modelo de socialismo imaginado por Che e efetivamente implementado em Cuba”.

Foram esses ideais, considerados pelo argentino essenciais para tornar a sociedade mais justa, fraterna e livre da exploração, que ajudaram na criação do ícone Che Guevara. “A sua aura de mártir que morreu em defesa das ideias em que acreditava foi fundamental para a construção do mito”, defende Freixo.

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Claudia Müller, O Estado de S.Paulo

09 Outubro 2017 | 08h37

Apesar dos esforços dos guerrilheiros liderados por Che Guevara, Fidel e Raúl Castro, a Revolução Cubana não teria sido bem sucedida sem apoio popular, acreditam especialistas. Diante da repressão do governo de Fulgêncio Batista, parte dos cidadãos passou a auxiliar os militantes com donativos e um lugar para dormir. Além disso, é importante lembrar o fato de o exército do ditador ser formado por pessoas muitas vezes sem comprometimento ideológico com Batista.

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Os guerrilheiros cubanos contavam com uma rede de ajuda composta por donas de casa, crianças, motoristas de ônibus e quem mais quisesse colaborar, seja com dinheiro, donativos ou uma cama. “Nesse sentido, o que aconteceu foi um movimento de massa”, explica a autora do livro "Che Guevara: A Economia da Revolução" e associada da London School of Economics and Political Science, Helen Yaffe. A população resolveu ajudar também em razão do descontentamento causado pela forte repressão do governo vigente.

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Os soldados de Batista eram majoritariamente pessoas muito pobres, que entravam no exército porque não tinham outras opções de emprego, explica Helen. Como eles não estavam vinculados ideologicamente ao regime, muitos abandonaram o exército ou se juntaram aos militantes.

“Os guerrilheiros conseguiram vencer o exército regular do ditador Batista graças a uma estratégia militar correta, de um lado, e a desmoralização dos soldados, de outro”, explica o autor do livro "A Teoria Política de Che Guevara" e professor de Filosofia na Universidade Saint Louis, em Madri, Renzo Llorente.

Cerca de 20 mil pessoas foram mortas durante o regime Batista e a violência era tão intensa que se tornou mais seguro ser um guerrilheiro nas montanhas do que na cidade. O apoio popular, portanto, surgiu tanto nos centros urbanos quanto no campo, o principal cenário das operações da guerrilha até a última fase do confronto e onde havia miséria e analfabetismo.

Luta

A guerrilha de Che Guevara e dos irmãos Castro começou com 82 expedicionários a bordo do barco Granma, que saiu do México em novembro de 1956 com destino a Cuba. Para que o exército rebelde sobrevivesse, entre aqueles que não foram mortos em combate e os novos integrantes, era preciso conseguir comida com os camponeses ou por meio do cultivo. Durante o confronto, os rebeldes andavam continuamente e dormiam onde podiam, conta Llorente.

Entretanto, a guerra de guerrilha não é uma tática militar com grande relevância prática atualmente, já que o cenário mudou. Além disso, Che frisava que essa opção só deveria ser utilizada quando os canais democráticos não estivessem mais abertos. Nesse sentido, a situação em Cuba e na América Latina como um todo, na época, proporcionava as condições para o uso desse meio. “Existia muita repressão, pobreza, exploração e imperialismo”, conta Helen.

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Para Llorente, a imprensa internacional também exerceu um papel importante na Revolução Cubana, principalmente no começo da guerra. Cerca de dois meses depois da chegada dos guerrilheiros a Cuba, o jornalista americano Herbert Matthews, do jornal The New York Times, publicou textos sobre a conversa que teve com Fidel Castro. “Isso serviu para desmentir a versão de Batista de que a guerrilha estava liquidada e, ao contrário, os textos mostravam que o movimento estava imparável, o que agora sabemos que estava certo."

Entretanto, para o coordenador do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense, Adriano de Freixo, a imprensa internacional, principalmente a americana, só se mostrou simpática aos guerrilheiros porque, a princípio, o movimento não tinha uma orientação socialista, apenas nacionalista e anti-imperialista.

Com o tempo, as medidas reformistas e nacionalizantes propostas pelos revolucionários resultaram em confronto com os EUA e mudaram a opinião da imprensa liberal. “A princípio, nem mesmo o governo do então presidente dos EUA, Dwight Eisenhower, via com preocupação a ação dos guerrilheiros, já que a questão socialista não estava colocada e a América Latina não era prioridade na política externa americana”, explica Freixo.

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