REUTERS/Ammar Awad
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A Casa Branca e a arte do desapego

Os chineses e os judeus estão sussurrando a seus filhos: "Realmente existe um Papai Noel. E o nome dele é Donald Trump"

Thomas L. Friedman, The New York Times, O Estado de S.Paulo

08 Dezembro 2017 | 05h00

Em quase 30 anos de cobertura da política externa dos Estados Unidos, nunca vi um presidente desistir de tanto, para tantos, por tão pouco. Na China e em Israel, o Natal chegou no início deste ano. Os chineses e os judeus estão sussurrando a seus filhos: “Realmente existe um Papai Noel”. O nome dele é Donald Trump. Quem pode culpá-los? 

Palestinos protestam e Israel ataca Faixa de Gaza após Trump mudar status de Jerusalém

Comecemos com Israel. Todo governo israelense, desde sua fundação, desejava que os EUA reconhecessem Jerusalém como sua capital. E todo o governo dos EUA se absteve de fazer isso, argumentando que o reconhecimento deveria vir apenas após um acordo de paz entre israelenses e palestinos. Pois Trump acaba de conceder isso – de graça. Que acordo! Por que você daria isso de graça e não usaria o fato como moeda de troca para avançar a possibilidade de um acordo? 

Trump poderia ter dito duas coisas ao primeiro-ministro Binyamin Netanyahu. Primeiro, ele poderia dizer: “Bibi, você continua me pedindo para declarar Jerusalém como a capital de Israel. OK, eu farei isso. Mas quero um acordo. Aqui está o que eu quero em troca: você declarará o fim de toda a construção de colônias israelenses na Cisjordânia”.

Esse compromisso é necessário. Isso traria um avanço real para os interesses dos EUA e para o processo de paz. Como explica Dennis Ross, negociador dos EUA da paz no Oriente Médio: “Quando você para de construir fora das áreas de colônias, você preserva, no máximo, a possibilidade de uma solução de dois Estados e, no mínimo, a capacidade de os israelenses se separarem dos palestinos. Manter as construções em áreas palestinas densamente povoadas torna impossível a separação.” 

Trump também poderia ter anunciado uma embaixada em Jerusalém Oriental, em território palestino. Assim, pelo menos, evitaria a ideia de estar fazendo um gesto unilateral, que só complicaria o processo de paz.

Em ambos os casos, Trump poderia ter se vangloriado para israelenses e palestinos de ter conseguido o que Barack Obama jamais fez, algo que faria avançar o processo de paz, a credibilidade dos EUA e não deixaria constrangidos nossos aliados árabes. Mas Trump é um imbecil. Ele é ignorante e pensa que o mundo começou no dia em que ele foi eleito.

É só perguntar aos chineses. Basicamente, no seu primeiro dia de mandato, Trump deixou de lado o acordo de livre-comércio da Parceria Trans-Pacífico (TPP), claramente sem tê-lo lido ou ter pedido à China qualquer concessão comercial em troca. Trump simplesmente jogou pela janela a única ferramenta mais valiosa que os EUA possuíam para moldar o futuro geoeconômico da região na nossa direção e pressionar a China a abrir seus mercados para mais bens americanos.

Trump agora está tentando negociar aberturas comerciais com a China sozinho – bilateralmente – e chegando a lugar nenhum. No entanto, ele poderia estar negociando com a China como chefe de um bloco l de 12 países do TPP, que controlariam 40% da economia global. Pense no que perdemos.

Em junho, um funcionário de Hong Kong me disse: “Quando Trump retirou-se do TPP, a confiança de todos seus aliados nos EUA despencou. Depois que os EUA engavetaram o TPP, todos agora estão olhando para a China.” Segundo ele, entre os outros aliados que decepcionamos com o fim do TPP também estão os reformadores econômicos da China. Eles esperavam que o acordo “forçasse a China a reformular suas práticas comerciais e a abrir seu mercado”.

Trump é suscetível a essas concessões, não só porque é ignorante, mas porque não vê a si mesmo como o presidente dos EUA. Ele se vê como o presidente de sua base. E porque esse é o único apoio que ele deixou, ele sente a necessidade de continuar alimentando sua base ao cumprir as promessas toscas e mal concebidas que jogou a eles durante a campanha. Agora, novamente, colocou outra dessas promessas à frente dos interesses nacionais dos EUA. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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