AFP PHOTO / LUDOVIC MARIN
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A colônia órfã

Novo embaixador francês disse que 'o Brasil é hoje para a França o que foi para Portugal no século 16'

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

12 Novembro 2017 | 03h00

Há quase 900 empresas francesas instaladas no Brasil. Juntas, geram cerca de 500 mil empregos. O estoque de investimentos diretos franceses aqui é de US$ 30 bilhões. No ano passado, a China ultrapassou a França. Mas, considerando os últimos três anos, a França foi o segundo maior investidor direto no Brasil, depois dos Estados Unidos. Os dados são da Embaixada da França em Brasília. 

+ Macron ocupa espaços

Respaldado por essa aposta concreta no Brasil, o novo embaixador francês, Michel Miraillet, reuniu repórteres para um café da manhã na sexta-feira em São Paulo. E fez duas advertências significativas, não só pelo peso da parceria, mas por vir de um país que, no contexto europeu, há décadas é considerado burocrático, protecionista e subjugado pelo corporativismo sindical, quando comparado a uma Inglaterra ou a uma Alemanha.

A primeira advertência diz respeito à burocracia: “Como importar maquinário se, para isso, é preciso preencher documentos de 50 páginas? Os processos administrativos aqui são muito penosos. Implicam porque está escrito em tinta azul e não preta”. Isso se aplica também à demora para obter vistos para profissionais estrangeiros e para registrar patentes.

A segunda diz respeito ao protecionismo industrial, expresso nas leis de conteúdo local mínimo, que pode chegar a 60%. “Se você não pode importar não pode exportar tecnologia”, resumiu o embaixador, dando como exemplo a Embraer, que é o que é porque não sofre restrições à internalização de tecnologia. Segundo ele, a facilitação de investimentos, nas negociações entre a União Europeia e o Mercosul, até agora não passa de “boas intenções”.

Abertura

As queixas do embaixador estão no contexto dessas negociações, e elas são duras, envolvem múltiplos interesses de setores empresariais, contraditórios dentro de um mesmo país. Mas elas podem e devem ser ouvidas de um outro ângulo também: “Nós já estivemos lá”, disse várias vezes o embaixador, referindo-se às resistências enfrentadas – e em muitos casos, superadas – contra mudanças que abrem para a concorrência e colocam o país no curso doloroso, porém necessário, da competitividade.

O embaixador contou que, em sua conversa com o presidente Emmanuel Macron antes de assumir seu posto em Brasília, há dois meses, o líder francês lhe disse que “o Brasil pode ter escândalos, mas é um navio que está indo em frente, uma democracia, que está mandando seus políticos corruptos para a cadeia”. A França ainda não fez isso com os seus. 

A Lava Jato tem um impacto mundial no aperfeiçoamento da conduta das empresas. E abre caminho para companhias estrangeiras vir competir no Brasil, como construtoras francesas, por exemplo, que não disputavam obras aqui porque tinham de pagar propinas. 

Futuro

Para não deixar dúvidas sobre o interesse francês no País, Miraillet disse que “o Brasil é hoje para a França o que foi para Portugal no século 16”. A imagem é muito boa, pelo que ela quer e pelo que não quer dizer. Ao formulá-la, o experimentado embaixador não teme que os brasileiros interpretem que a França queira explorar as riquezas do Brasil numa relação assimétrica e colonialista. Isso está fora de seu radar, e do radar de quem vive no mundo contemporâneo, no qual a riqueza é gerada em cadeias horizontais, não no acúmulo vertical de capital e tecnologia.

Miraillet quer expressar o quanto, para a França, o Brasil contém um imenso reservatório de oportunidades, como um país continental, cheio de recursos humanos e naturais, porta de entrada e base para toda a América do Sul, e cuja principal cidade, São Paulo, tem um PIB maior que o do Kuwait — e de Portugal, a propósito. 

Mas às vezes se tem a impressão de que 195 anos de independência não foram suficientes para o Brasil abandonar a mentalidade de colônia. Ainda que órfã de uma metrópole.

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