Mary Altaffer/AP
Mary Altaffer/AP

A consciência de Pequim

A morte de Liu Xiaobo contém uma mensagem para a China – e também para o Ocidente, que tem se mantido omisso

THE ECONOMIST, O Estado de S.Paulo

14 Julho 2017 | 05h00

Liu Xiaobo, que morreu nesta quinta-feira, não era muito conhecido no Ocidente. Apesar disso, seu nome se destacava na luta pela democracia na China. Seus apelos serenos e persistentes em favor da liberdade do povo chinês garantiram a ele um lugar entre os gigantes da dissidência moral, como Andrei Sakharov e Nelson Mandela, com os quais também compartilhou o destino de prisioneiro de consciência e o Nobel da Paz.

Liu morreu de câncer hepático. Acadêmico e escritor especializado em literatura e filosofia, ele havia cumprido 8 dos 11 anos de prisão a que fora condenado por subversão. Seu crime foi ter redigido um manifesto em favor da democracia, bandeira que ele defendia havia décadas, tendo tido participação relevante nos protestos da Praça da Paz Celestial (Tiananmen), em 1989.

As autoridades chinesas o impediram de buscar tratamento no exterior. Colocaram guardas para vigiá-lo no hospital, mobilizaram seu exército de censores na internet para eliminar toda e qualquer manifestação de solidariedade e ordenaram que seus parentes se mantivessem em silêncio. O Partido Comunista quer que o mundo esqueça Liu e sua luta. Há o risco de que isso de fato aconteça.

Jogo cínico. Os governos ocidentais há muito reagem com timidez e cinismo ao tratamento cruel que a China dispensa a seus dissidentes. Na década de 80, quando o país começou a se abrir para o mundo, os líderes ocidentais estavam ansiosos para ter os chineses a seu lado na luta contra a União Soviética. Por isso não davam atenção ao problema dos presos políticos chineses. Por que aborrecer o reformista Deng Xiaoping, incomodando-o com questionamentos sobre ativistas?

A atitude dos líderes ocidentais mudou em 1989, quando Deng reprimiu as manifestações da Praça da Paz Celestial, promovendo um massacre que resultou em centenas de mortos. De repente, começaram a chover críticas à prisão de dissidentes (a coisa era facilitada pelo fato de a China não parecer mais tão importante, agora que a União Soviética estava entrando em colapso). De tempos em tempos, o governo chinês libertava alguém, na esperança de se reabilitar aos olhos do mundo.

Em meados dos anos 90, com a economia chinesa crescendo em ritmo acelerado e o comércio internacional se expandindo, os dissidentes voltaram a ser tratados como uma questão menor. As grandes empresas do Ocidente não viam a hora de pôr os pés naquele mercado florescente. Os Estados Unidos, o Reino Unido e outros países organizaram “diálogos sobre direitos humanos”, um expediente útil para desvincular as trivialidades humanitárias das negociações comerciais de alto nível.

A crise financeira de 2008 acentuou essa tendência. O Ocidente começou a ver na China uma tábua de salvação econômica. Na semana passada, os líderes do G-20 realizaram na Alemanha sua reunião anual. O presidente da China, Xi Jinping, estava presente. Não se ouviu um pio sobre Liu, cuja doença terminal acabara de vir a público.

Nome aos bois. Por que procurar confusão? A China retalia países que denunciam o desrespeito aos direitos humanos em seu território. Só no ano passado a potência asiática reatou suas relações com a Noruega, rompidas em 2010, quando Oslo foi sede da cerimônia em que o Nobel da Paz foi concedido a Liu (como os chineses não concordaram em libertá-lo para receber o prêmio, Liu foi representado por uma cadeira vazia).

Além do mais, o fato é que Xi provavelmente se faria de surdo a eventuais críticas. Antes de assumir o poder, em 2012, o líder chinês ridicularizou “a meia dúzia de estrangeiros que parecem não ter nada melhor a fazer do que ficar por aí, com a barriga cheia, apontando o dedo para o nosso país”. Uma vez no poder, aumentou ainda mais a repressão aos dissidentes. Apesar disso, os líderes ocidentais deveriam sair vigorosamente em defesa dos dissidentes chineses. 

A capacidade de retaliação da China não é tão grande assim, sobretudo se o Ocidente agir de maneira unificada. E as manifestações públicas de censura desafiariam a opinião de Xi de que prender dissidentes pacíficos é algo normal. O silêncio só o encoraja a deter um número ainda maior de ativistas. E, para os que arriscam tudo em busca da democracia, o apoio do Ocidente é um estímulo tremendo.

Há também um princípio fundamental em jogo. Debate-se atualmente na China se os valores são universais ou variam conforme a cultura de cada país. Com o silêncio sobre Liu, o Ocidente indica sua concordância tácita com o pensamento de Xi, segundo o qual não existem valores que digam respeito à humanidade como um todo. A mensagem não só prejudica a causa dos defensores da democracia na China, como ajuda o líder chinês a encobrir uma falha em seu argumento: a China também é signatária da Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU.

Liu representava o que há de melhor entre os dissidentes chineses. Seu manifesto em favor da democracia era claro em suas reivindicações: o fim do sistema de partido único e liberdades genuínas. Não era seu objetivo promover sublevações, e sim estimular uma discussão pacífica. 

Centenas de pessoas, incluindo intelectuais proeminentes, haviam assinado o manifesto quando Liu foi trancafiado numa cela. De lá para cá, os censores e os brutamontes do Partido Comunista encarregam-se de asfixiar o debate. O Ocidente deveria parar de ajudá-los a realizar seu trabalho. O trabalho de Liu Xiaobo, infelizmente, está feito. / ALEXANDRE HUBNER

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