AP Photo/Richard Drew
AP Photo/Richard Drew

A defesa do mundo pós-americano

Na ONU, Trump encorajou outros líderes a colocarem seus países em primeiro lugar, e é isso que Rússia e China estão fazendo

Fareed Zakaria / THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

23 Setembro 2017 | 05h00

O discurso do presidente Donald Trump nas Nações Unidas foi bem apresentado, mas com uma mistura bizarra de tópicos e entonações. Em alguns momentos, enalteceu a realpolitik e, em seguida, insistiu na importância da liberdade e da democracia. Mas um tema predominou: o apoio incondicional ao nacionalismo. Neste aspecto Trump fez algo inusitado, talvez surpreendente para um presidente dos EUA: encorajou, e até acatou, a ascensão de um mundo pós-americano.

Falemos primeiro da miscelânea. No início do seu discurso, ele afirmou: “Na América, não tentamos impor nosso estilo de vida a ninguém”. Mas depois censurou Coreia do Norte, Irã, Venezuela e Cuba por seus sistemas políticos não democráticos, basicamente exigindo que se tornem democracias liberais.

O perigo desse tipo de retórica exaltada é que ela tem sido seletivamente aplicada, e assim é vista cinicamente pelo mundo como a maneira de caracterizar o egoísmo americano. 

Trump levou esta hipocrisia a um novo patamar. Denunciou o Irã pela falta de liberdade e quase ao mesmo tempo fez uma menção favorável à Arábia Saudita. Sob todos os aspectos – direitos políticos, tolerância religiosa, liberdade de expressão –, o Irã é uma sociedade muito mais aberta que a Arábia Saudita, uma monarquia absoluta aliada do establishment religioso mais fanático do mundo.

O principal ponto do discurso foi sobre o nacionalismo. Trump exaltou a soberania e o nacionalismo, escolhendo um exemplo peculiar. Aproveitando as palavras de Harry Truman de apoio ao Plano Marshall, Trump descreveu o enfoque do ex-presidente como “belo” e “nobre”.

Mas alguém imagina que Trump apoiaria realmente o Plano Marshall? Tratou-se de um vasto programa de ajuda externa, administrado por burocratas do governo para ajudar estrangeiros a ressuscitarem suas indústrias e se tornarem concorrentes das empresas americanas.

Washington gastou, em termos de porcentagem do PIB, cinco vezes mais do que despendeu durante a fase de combate na Guerra no Afeganistão. Para o Plano Marshall funcionar, os EUA incentivaram as nações europeias a cederem sua soberania econômica e criarem a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, que foi a gênese da União Europeia.

A frase mais significativa do discurso de Trump foi esta, pronunciada de maneira dramática: “Como presidente dos EUA, sempre colocarei a América em primeiro lugar, enquanto vocês, como líderes de seus países, sempre devem colocar seus países em primeiro lugar”.

Mas é isto que países como Rússia e China vêm afirmando nas últimas décadas. Nos últimos 70 anos, o grande debate entre as nações tem sido entre aqueles que defendem interesses nacionais mesquinhos e os que acreditam que a paz duradoura e a prosperidade dependem da promoção do interesse comum no seu sentido mais amplo. 

Este enfoque, concebido por Franklin Roosevelt e todos os presidentes americanos desde então, levou à criação das Nações Unidas e todas as organizações que monitoram e auxiliam no campo do comércio, doenças e questões climáticas, entre outros assuntos que extrapolam as fronteiras. 

Mas Trump está cansado de ser o líder do mundo. Ele se queixou de que outros países são injustos ao tratarem os EUA, de algum modo a nação mais poderosa do mundo, como vem ocorrendo.

A solução oferecida por ele, um retorno ao nacionalismo, seria acolhida com entusiasmo pelas grandes potências do mundo, como Rússia e China, e também por países como Índia e Turquia, que tendem a agir visando seus próprios interesses. Naturalmente, isso significará uma espetacular aceleração do mundo pós-americano, em que esses países moldarão as políticas e as instituições em seu benefício, não em vista de interesses mais amplos.

Trump reclamou que os EUA respondem por 22% do orçamento da ONU. Caso reduza o apoio, poderá se surpreender com a rapidez com que a China vai tentar ocupar a vaga. E tão logo o consiga, definirá a ONU e a agenda global, como os EUA fizeram durante sete décadas.

Talvez os chineses até proponham que a sede seja transferida para Pequim. Pensando bem, esta transferência poderá liberar vários hectares de terra no East River, onde Trump poderia construir novos condomínios. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É COLUNISTA 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.