SANA/Divulgação
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A difícil paz na Síria

Líderes da oposição a Assad buscam uma saída política após fracassos militares

Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo

23 Fevereiro 2017 | 05h00

A guerra civil na Síria volta a ter destaque. Começa hoje, em Genebra, uma reunião destinada a prolongar o cessar-fogo negociado por Moscou, que entrou em vigor em 30 de dezembro e, até agora, está sendo respeitado.

A reunião dá sequência às discussões conduzidas em Astana, capital do Casaquistão, sob a batuta de três países: Rússia, Irã e Turquia. O encontro de Genebra ocorrerá sob o patrocínio das Nações Unidas, mas está claro que o verdadeiro mestre de cerimônias será o presidente russo, Vladimir Putin. O líder do Kremlin substituiu o Ocidente (leia-se Estados Unidos e Europa) no turbilhão sírio.

A Rússia está em campo na Síria há meses. Primeiro, brutalmente, com a decisiva intervenção das forças russas, especialmente em Alepo. Depois, sutilmente, renovando os frágeis laços do diálogo.

Com os Estados Unidos e a Europa fora do jogo, a Rússia conduz as negociações ao lado de dois outros países, Irã e Turquia. É uma escolha lógica, pois os dois são próximos do drama sírio. Mas é também uma investida audaciosa, pois os dois países têm posições incompatíveis sobre a Síria.

Ancara detesta o tirano sírio Bashar Assad, enquanto Teerã, que lidera o “arco xiita” no Oriente Médio, o apoia fortemente. Entre essas duas posições, a Rússia representa uma terceira via. Assim, Moscou terá, naturalmente, o papel de árbitro.

A Rússia, no entanto, joga um jogo perigoso, pois o processo pode descarrilar a qualquer momento. Isso explica a prudência do mediador das Nações Unidas em Genebra, Staffan De Mistura: “Não dá para dizer que vá funcionar, mas devemos aproveitar a tendência à negociação, pois nenhum cessar-fogo se mantém indefinidamente sem uma solução política.”

Há um ponto que facilitará o diálogo: o esfacelamento das forças rebeldes, uma coalizão heterogênea de grupos terroristas salafistas, da Al-Qaeda e remanescentes da revolta popular inicial que levou à guerra civil. Mas a discussão será ácida. Há o risco de ser paralisada pelos debates sobre o destino de Assad.

O que fazer com esse homem repugnante, responsável por 300 mil mortes em seu próprio povo? Aparentemente, não há solução: os russos exigem a permanência de Assad no poder – o que é inaceitável para a maioria dos países ocidentais, aos olhos dos quais o atual líder de Damasco não poderá de jeito nenhum continuar a conduzir seu país após a volta da paz.

A França e a Europa são as principais vozes contra a permanência de Assad no governo. Há também os rebeldes internos que combateram o ditador sírio e foram convidados a Genebra, mas seus chefes hoje estão desacreditados. Entre os rebeldes que se opõem ao tirano está Louay Hussein. Preso várias vezes pelo regime sírio, ele diz abertamente que a oposição não tem mais força, honra ou autoridade: “Foi vencida, ponto final”, disse.

“Está sendo convidada para Genebra, mas sua presença é puramente decorativa. Serve apenas para agradar aos padrinhos europeus. A verdade é que, para nós, opositores, só resta um caminho, o da política. Infelizmente, a oposição é uma casca vazia. Só existe na TV.”

Por isso, formou-se em Beirute, no Líbano, o Bloco Nacional, que reúne partidos e personalidades civis. O grupo quer mostrar que o combate na Síria não acabou e vai continuar na arena política. Seu objetivo imediato é abrir o caminho para eleições transparentes e pluralistas. “Será o início da cura”, diz Hussein. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

 

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