A diplomacia da Venezuela em tempos de crise 

A diplomacia da Venezuela em tempos de crise 

Sem ter mais como pagar aluguéis, diplomatas venezuelanos em Londres têm teto improvisado

Jamil Chade, Correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

18 Março 2018 | 06h00

GENEBRA - A crise da Venezuela já afeta a diplomacia do país em aspectos muito mais elementares do que a preparação de funcionários ou a abertura de embaixadas. Em vários postos, os salários não são pagos desde dezembro. Em casos mais graves, como em Londres, os diplomatas passaram a viver em um prédio do governo, após calote no pagamento de aluguéis.

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No dia 29 de janeiro, a embaixadora da Venezuela em Londres, Rocío Maneiro, enviou uma carta “urgente” ao chanceler, Jorge Arreaza, explicando a situação. Segundo ela, o país tem cinco edifícios na capital britânica, entre eles o Bolívar Hall, uma sala para concertos e eventos culturais. O local conta com três apartamentos para alojar delegações e artistas. 

“Como o último salário pago foi em setembro de 2017, vários funcionários diplomáticos em Londres se encontram impossibilitados de pagar aluguéis, já que tiveram de priorizar o pagamento de comida e transporte”, escreveu Rocío na carta, que o Estado obteve e também foi transmitida para a chefe de recursos humanos da chancelaria. 

Segundo ela, para que os trabalhos da missão pudessem ser mantidos em “condições mínimas”, foi decidido que os três apartamentos passariam a alojar três diplomatas venezuelanos e suas famílias. Eles são Yaiza Piñate, Celina Hernández e Marcos García. 

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Na avaliação da embaixadora, a situação é “difícil”. “A conselheira Piñate, o primeiro-secretário García e a segunda-secretária Hernández ocuparão os três apartamentos do Bolívar Hall a partir de 1.º de fevereiro de 2018, até que se regularize a situação de pagamentos de salários”, escreveu a embaixadora. Ela indicou que durante esse período não haveria local para alojar delegações que o governo enviar a Londres. Procurada pela reportagem, a embaixadora não retornou os telefonemas nem os e-mails. 

A situação de Londres não é um caso isolado. Pela Europa, o Estado confirmou que outros postos diplomáticos também sofrem com a falta de pagamentos. Alguns estão sem receber há cinco meses. Em pelo menos duas embaixadas, nos últimos meses, as contas pessoais dos funcionários estão sendo pagas pelo chefe da missão. 

Em fevereiro, alegando corte de gastos, o governo de Nicolás Maduro fechou as embaixadas em Helsinque, Copenhague e Estocolmo. Endividada em diversas organizações internacionais, a Venezuela não tem mais acesso a documentos de reuniões na Organização Mundial do Comércio (OMC), onde o país já é considerado “membro inativo”. 

Dados obtidos pelo Estado revelam também que Caracas acumulava, até outubro de 2017, uma dívida de dois anos em suas contribuições obrigatórias com a ONU, o que levou o país a ser suspenso de algumas votações na Assembleia-Geral. Em dezembro, a Venezuela tinha uma dívida de US$ 28 milhões com a organização. 

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