A educação do jihadista

Nas universidades, recrutadores manipulam versões dos acontecimentos mundiais e atraem jovens inteligentes, mas sem maturidade emocional

MAAJID, NAWAZ, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

06 Março 2015 | 02h02

Na semana passada, o homem chamado de Jihadi John pela mídia mundial foi desmascarado. Seu nome é Mohamed Emwazi, muçulmano nascido no Kuwait, naturalizado britânico e morador de Londres. Não apenas isso. O mais famoso recrutado ocidental pelo Estado Islâmico foi identificado como um indivíduo formado em ciência da computação pela Universidade de Westminster.

Muitas pessoas ficaram chocadas com o fato de o suposto carrasco que aparece nos vídeos do EI ser uma pessoa formada e da classe média londrina. Na realidade, as instituições acadêmicas britânicas há anos estão infiltradas por idealistas teocráticos perigosos. Sei disso, pois fui um deles.

A Universidade de Westminster é conhecida por ser um viveiro de atividade extremista. A Sociedade Islâmica da universidade é influenciada, às vezes controlada, pelo grupo radical islâmico Hizb-ut-Tahrir e ela regularmente oferece um palanque a pregadores do ódio.

No mesmo dia em que foi revelado o nome de Mohamed Emwazi, a universidade sediaria uma palestra de Haitham al-Haddad - um homem acusado de pregar a homofobia, defender a mutilação genital feminina e declarar que o povo judeu descende dos macacos e de porcos. O evento foi cancelado pela Sociedade Islâmica, apenas por questões de segurança.

O "entrismo" islamista - termo que originalmente descrevia as táticas adotadas por Leon Trotski para controlar uma organização comunista rival na França nos anos 30 - continua a ser um problema dentro das universidades e escolas britânicas. Há 20 anos, atuei como "entrista" islamista na faculdade.

Nasci e cresci em Essex, nos arredores de Londres, em uma família paquistanesa culta e com boa situação financeira. Mas já estava me tornando adulto quando o genocídio dos muçulmanos da Bósnia ocorreu. Aquele horror, juntamente com a violência de brancos racistas que vivi em meu país, levaram-me a ficar desconectado da sociedade.

Eu tinha uma mente muito inquisidora, debatendo os fatos que se verificavam no mundo, e também havia o desejo, fomentado pela educação que recebi, de cuidar das pessoas. Mas não tinha a maturidade emocional para processar tudo isso. O que me tornou alvo fácil para o recrutamento islamista. E nessa ebulição surgiu o meu recrutador, ele mesmo formado em uma faculdade de medicina em Londres.

Ele pertencia ao grupo Hizb-ut-Tahrir, termo árabe que significa o partido da libertação. Um grupo revolucionário internacional criado em 1953 foi o primeiro movimento a promover a ressurreição de um califado com uma versão da sharia (lei islâmica). Ao contrário da Al-Qaeda, o Hizb-ut-Tahrir defende golpes militares, não o terrorismo, para chegar ao poder.

Os recrutadores são especialistas em manipular os acontecimentos mundiais para apresentar o que chamo de "narrativa islamista" - que o mundo está em guerra com o Islã e somente um califado protegerá os muçulmanos contra os cruzados. Fui seduzido pela ideologia e atraído para sua subcultura alternativa.

Aos 16 anos adotei as ideias do movimento com entusiasmo. Fui orientado a me matricular na Newham College, instituição de ensino financiada pelo Estado a leste de Londres, com a finalidade de me tornar conhecido no câmpus e recrutar outros estudantes para a causa. Quando fui eleito presidente da associação de alunos, explorei a ingenuidade da escola, registrando os seguidores para votarem em mim e consolidar nosso controle.

A atmosfera envenenada que meus seguidores e eu criamos no Newham College ficou tão perigosa que em 1995 meu guarda-costas apunhalou e matou um estudante não muçulmano no câmpus, aos gritos de "Allahu Akbar!" O assassino, Saeed Nur, foi condenado. Fui expulso da faculdade, mas meu ativismo não parou aí. Trabalhei primeiramente no Paquistão, depois no Egito, recrutando jovens soldados para participar do programa revolucionário do Hizb-ut-Tahrir. Em 2001, fui preso pela polícia secreta do presidente Hosni Mubarak. Nos quatro anos que passei numa prisão no Cairo, aos poucos, reconsiderei a ideologia do Islã e acabei abandonando-a. Quando fui libertado, iniciei meu trabalho de defesa dos direitos humanos e contra o extremismo.

A Sociedade Islâmica na Universidade de Westminster, como outras universidades na Grã-Bretanha, ainda é cobiçada pelos "entristas" radicais. Essas instituições devem proteger a liberdade de expressão, mas precisam também ser vigilantes de modo a assegurar que os conferencistas não tenham palanques para promover suas mensagens tóxicas para uma plateia vulnerável.

Esses palestrantes dizem que pregam o islamismo, mas eles disseminam uma distorção fortemente politizada, com frequência violenta, da minha fé. É mais fácil do que se pode pensar pessoas brilhantes e capazes como Emwazi se deixarem seduzir pela visão de mundo míope dos pregadores do ódio. Há muito tempo um número enorme de jovens de famílias educadas, relativamente prósperas, vêm defendendo causas jihadistas.

Contestar o conceito de Estado, a teoria democrática e a política de poder no Oriente Médio certamente seria uma sofisticação intelectual, mas isso não torna um jovem idealista menos vulnerável à exploração por recrutadores hábeis. Independentemente da boa formação, esses jovens talvez podem estar passando por uma crise de identidade ou ter ressentimentos que são manipulados pelos recrutadores.

O desejo de impor uma religião a uma sociedade é uma ideia repugnante, mas muitos muçulmanos britânicos não pensam desse modo. Há décadas, permitimos que ideólogos islamistas trabalhem livremente em nossas comunidades a ponto de o islamismo se tornar uma forma alternativa de expressão política para muitos jovens muçulmanos na Grã-Bretanha e na Europa.

O salto para um adolescente britânico normal ingressar no Estado Islâmico é enorme. Mas é muito menor para alguém que cresceu num clima em que os sonhos de ressurreição de um califado e de impor uma força distorcida de islamismo é a norma. Enquanto não enfrentarmos essa suposta legitimidade do discurso islamista nas suas raízes não conseguiremos acabar com o flagelo da radicalização. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É PARLAMENTAR LIBERAL-DEMOCRÁTICO

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