Sergey Ponomarev/The New York Times
Sergey Ponomarev/The New York Times

A estranha migração pela fronteira da Rússia

Autoridades da Finlândia montaram local de descarte para antigos carros russos confiscados na fronteira dos dois países; onda migratória, porém, é inconstante e intriga governo

Andrew Higgins, The New York Times, O Estado de S. Paulo

12 Abril 2016 | 12h14

KANDALAKSHA, RÚSSIA - Nos últimos meses, tantos carros decrépitos da era soviética trouxeram migrantes para a Europa, tendo como ponto de partida essa gelada cidade russa, que os funcionários da fronteira com a Finlândia, que confiscam os veículos enferrujados assim que eles entram no país, observaram consternados seu estacionamento se transformar em um ferro-velho.

Para arrumar a bagunça e oferecer espaço para os carros recém-confiscados, o serviço de alfândega da Finlândia montou um local de descarte separado. Então, em março, tão de repente e misteriosamente como começou, a parada de carros velhos trazendo migrantes acabou abruptamente, pelo menos por um tempo.

"Não temos ideia do que está acontecendo. De repente, eles pararam de vir. É só o que sabemos", afirma Matti Daavittila, chefe do posto de fronteira cercado pelo gelo perto de Salla.

O fluxo de refugiados e migrantes na rota do Ártico pela Rússia - primeiro para a Noruega e depois para a Finlândia - é pequeno se comparado com as centenas de milhares de pessoas fugindo da guerra ou das dificuldades que fizeram a viagem para Europa pela Turquia ou pela Grécia.

Mas o trânsito descontínuo acrescentou uma boa dose de ansiedade geopolítica, além de intriga, a uma crise que está acabando com a União Europeia (UE). Ela já fez soar sinais de alarme em Helsinque, capital da Finlândia bem ao sul, e em Bruxelas, onde os líderes da UE, em encontros recentes sobre a crise da migração, discutiram a estranha e sempre mutante rota do Ártico pela Rússia.

A intriga surge de uma suspeita cada vez maior no Oeste de que a Rússia está alimentando e explorando a crise dos migrantes na Europa para conseguir concessões ou talvez quebrar a unidade europeia sobre as sanções econômicas impostas contra Moscou por suas ações na Ucrânia. Apenas um dos 28 Estados-membros da União Europeia precisa romper com o acordo para que o regime de crédito e outras restrições entre em colapso.

"Infelizmente, parece uma demonstração política da Rússia", afirma Ilkka Kanerva, ex-ministro das Relações Exteriores da Finlândia e hoje presidente do Comitê de Defesa parlamentar do país. "Eles são muito habilidosos para mandar sinais. Querem mostrar que a Finlândia deve tomar cuidado com suas decisões próprias sobre coisas como exercícios militares, nosso pacto com a OTAN e as sanções da União Europeia" contra a Rússia, diz ele.

Ao contrário do fluxo de refugiados para a Grécia de barco, muito determinado pelo clima no Mar Egeu, o fluxo pela Rússia depende quase totalmente do fato de o Serviço de Segurança Federal da Rússia, o sucessor da KGB, abrir ou fechar as estradas em uma região de fronteira muito militarizada e cheia de bases.

Nos primeiros dois meses do ano, quase 800 pessoas procurando asilo atravessaram da Rússia para a Finlândia perto de Salla, um ponto de passagem a oeste de Kandalaksha na região finlandesa da Lapônia. Em comparação, no mesmo período do ano passado ninguém cruzou.

Jorma Vuorio, diretor-geral do Departamento de Migração da Finlândia, diz que está surpreso pelo "fenômeno completamente novo" de pessoas buscando asilo que chegam pela Rússia. Mas afirma que "não existem provas, apenas especulação" do envolvimento do Estado russo.

O trânsito para a Europa pelo Ártico, que envolveu relativamente poucos sírios, começou no final do último verão, quando mais de cinco mil migrantes surgiram de repente, de bicicleta, para atravessar a fronteira norte da Rússia, que antes era firmemente controlada, com destino à Noruega. Mas esse fluxo de bicicletas acabou de repente em 30 de novembro, depois que as autoridades russas voltaram a aumentar o controle da fronteira, assim que autoridades norueguesas chegaram a Moscou para falar sobre a contenção dos migrantes.

Então, a rota dos migrantes mudou em direção ao sul, para a fronteira da Rússia com a Finlândia, quando guardas russos lotados nas estradas em dois pontos de passagem pararam de bloquear os viajantes sem visto.

A Finlândia rapidamente proibiu o trânsito de bicicletas por todos os 1.336 quilômetros de sua fronteira com a Rússia, permitindo apenas que as pessoas em carros atravessassem. Essa ordem acabou com um mercado crescente para bicicletas velhas no norte da Rússia, mas criou um novo para carros baratos e decrépitos com condições suficientes apenas para cruzar a fronteira com a Finlândia.

Vuorio diz que a Rússia informou ter mais de 11 milhões de estrangeiros vivendo em seu território, um conjunto grande de migrantes em potencial para a Europa, mas afirmou que duvida que Moscou permitiria uma enchente caótica nas regiões sensíveis de fronteira. Gangues de criminosos, e não as autoridades, acredita ele, parecem ser os verdadeiros responsáveis pela escala e direção da migração para a Europa pela Rússia.

Ele acredita que a última interrupção no trânsito não foi o resultado de algum acordo entre a Finlândia e as autoridades russas, que têm participado de semanas de discussões intensas e de alto nível. "Nosso único acordo é que temos boas relações", explica ele, perplexo com o fluxo migratório irregular.

Mas isso, diz Kanerva, o presidente do Comitê de Defesa, é exatamente o objetivo da Rússia - manter a Finlândia sem equilíbrio e por isso cautelosa antes de fazer qualquer movimento na direção da OTAN ou tomar outra decisão que poderia deixar o país vizinho irritado. Lembrando que a Rússia se mostrou hábil na chamada guerra híbrida da Ucrânia no uso de ferramentas não militares para conseguir objetivos, ele afirma que os migrantes "são parte de uma estratégia mais ampla".

"Eles querem que a gente fique nervoso e preste atenção aos seus interesses", explica. Quem não precisa ser convencido da manipulação russa na questão dos migrantes são eles próprios.

Em entrevistas em Kandalaksha, migrantes do centro e do oeste da África retidos ali dizem que cada um pagou milhares de dólares para "guias" que trabalham muito próximos de autoridades russas e prometeram levá-los para a Finlândia. O sistema era muito organizado, afirmam os migrantes e não permitia que mais de 30 pessoas atravessassem para a Finlândia a cada dia. Quem ia aonde e em que veículo era estabelecido antes, contam eles, com os guias e os oficiais compilando listas detalhadas de seus nomes, data de partida e carros.

"Eles estão todos na mesma facção: oficiais, funcionários dos hotéis, motoristas. É o negócio deles", afirma Honoré Basubte, jovem migrante da África Ocidental que veio para a Rússia como estudante. Como muitos outros migrantes que viajaram para Kandalaksha, ele explica que lhe deram uma ordem de deportação da Rússia antes de partir e disseram que deveria ir logo para a Europa.

"Agora eles afirmam que não podemos ir porque a fronteira está fechada. É um jogo sujo", conta.

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