AFP PHOTO / POOL / MARTIN BUREAU
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‘A Europa não é aluna da Alemanha’

Candidato à presidência francesa pelo PS diz defender barreiras tarifárias, mas não o fim da União Europeia

Entrevista com

Arnaud Montebourg, pré-candidato do Partido Socialista à presidência da França

Andrei Netto CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

18 Dezembro 2016 | 05h00

Em seis meses, líderes políticos de quatro das cinco maiores potências do Ocidente perderam seus cargos: Barack Obama, nos EUA, deixará a Casa Branca ao término de seu segundo mandato. David Cameron, ex-primeiro-ministro do Reino Unido, e Matteo Renzi, ex-premiê da Itália, não tiveram a mesma sorte. A terceira vítima de 2016 é François Hollande, presidente da França. Ao anunciar que não seria candidato à reeleição nas eleições presidenciais de abril e maio de 2017, o ex-líder do Partido Socialista (PS) se tornou mais um derrubado pelo discurso “antissistema”. 

O favorito para representar o partido é Arnaud Montebourg. O ex-ministro da Economia de Hollande, crítico ferrenho do ex-chefe, conseguiu impor sua vontade, obrigando o presidente a se afastar. Montebourg é claro ao se definir: “Eu sou Bernie Sanders”, diz ele, em referência ao adversário democrata de Hillary Clinton nas primárias dos EUA. O ex-ministro francês flerta com o populismo ao criticar de forma aberta a Alemanha, a austeridade fiscal e a União Europeia (UE). Também é duro ao dizer que o bloco ficará melhor sem o Reino Unido. “Número ímpar é melhor”, ironiza.

O socialista pretende dar uma guinada à esquerda no PS e enfrentar em luta aberta os candidatos da direita, François Fillon, do partido Republicanos, e da extrema direita, Marine Le Pen, da Frente Nacional (FN). Montebourg recebeu em Paris na semana passada jornalistas de New York Times, Washington Post, The Guardian, Corriere della Sera, El País e Estado para apresentar seu projeto de governo para a França. A seguir, as questões respondidas ao Estado.

O sr. não deseja um governo econômico europeu integrado?

Eu quero um governo econômico europeu. Mas não quero mais burocratas. Quero políticas, mas não de direito europeu. Mais de 60% das legislações europeias são fabricadas pela UE fora de qualquer controle democrático. Os Estados podem perfeitamente coabitar com a potência da UE caso se unam, se relançarem os investimentos em infraestrutura, aumentarem os salários de forma concertada, progressiva e consensual em toda a zona do euro. Proporei também compartilhar as dívidas causadas pela crise.

Isso é contrário à posição defendida pela chanceler da Alemanha, Angela Merkel. 

É contrário aos tratados europeus, mas eu não aceito mais os tratados. Os tratados caducos que nos afundam no populismo.

A história da UE mostra que a França e a Alemanha devem trabalhar juntas para fazer o bloco avançar, não?

A Alemanha não é a Europa. Não somos dirigidos por Wolfgang Schauble (ministro das Finanças da Alemanha). Não somos seus alunos. Quando digo isso, os italianos me aplaudem e me dizem em voz baixa: “Bravo! Nós não podemos dizer isso!”. Pois cabe à França dizê-lo! Como diria o chanceler alemão (Helmut) Kohl, a Alemanha é europeia, mas a Europa não é alemã. Nós vamos construir um bloco reformador contra um bloco conservador dirigido pela Alemanha. 

Uma UE que é dividida em duas filosofias tão diferentes pode ser sustentável no longo prazo? 

Cada um deve fazer seus esforços. Nós já fizemos muito. É a hora de pedirmos uma evolução das coisas ou não haverá mais UE. Na França, será Marine Le Pen. A eleição de 2017 é o último posto de gasolina antes do deserto. É a última etapa antes do populismo, antes de eventos graves que desconstruirão a UE. 

O senhor defende a “desglobalização”? Não é o que defende Donald Trump?

Donald Trump nomeou gente do Goldman Sachs (para compor seu gabinete) - logo ele, que acusava Hillary Clinton de ser pró-Wall Street. Tenho a impressão de que ele é mais pró-Wall Street do que ela.

O que, afinal, significa uma “desglobalização”?

É a preferência por um circuito curto. Ou seja, é a produção que se aproxima do local do consumo. Para mim, foi Barack Obama quem lançou a desglobalização quando dizia: “Vamos trazer nossos empregos de volta para casa”. O movimento que lancei quando estava no governo, do Made in France, não teve sequência em nível europeu porque a Alemanha bloqueou. Esse movimento cultural é irresistível: ele aparece na agricultura, na indústria, no comércio, na venda direta e no digital, que dá ao consumidor mais poder.

Como fazer isso?

Com taxas alfandegárias que subirão, com a moderação das trocas comerciais. Sou a favor do comércio livre, mas livremente consensual, e não do livre-comércio imposto de forma autoritária. Quando os americanos colocam 622% de imposto sobre o dumping do aço chinês, eles têm razão. A Comissão Europeia põe 15% e impõe medidas temporárias e provisórias. A UE é incapaz de se proteger. 

Se o senhor for eleito, essa filosofia também valerá no interior da UE?

Não. Nós somos solidários na construção comunitária. Nós precisamos do poder da UE.

Então, é isso que o distingue da Frente Nacional de Marine Le Pen, que quer o fim da UE e da moeda única?

Você compreendeu tudo. Eu sou um europeu, sou contra a destruição da Europa. Não sou a favor da destruição do euro. Sou a favor da sobrevivência da UE, da sobrevivência do euro. 

A França enfrenta uma onda de terrorismo patrocinada pelo grupo Estado Islâmico. Quais suas propostas para enfrentá-la?

Em primeiro lugar, a França dispõe do arsenal jurídico para enfrentar a ameaça. As forças de segurança estão fazendo muito progresso e a prova disso é que já evitaram vários atentados. Os meios que não temos são os meios humanos. Houve em meio a esse período (de atentados) quem perdesse o sangue-frio. Houve quem propusesse uma Guantánamo francesa. Isso é condenável. Propor o confisco de nacionalidade (proposta de François Hollande) seria ineficaz e segregacionista, porque teria como alvo quem é binacional.

Há uma guerra na Síria e no Iraque. Qual é a sua visão sobre esse conflito?

Síria e o Iraque estão em guerra há cinco anos, com pelo menos 300 mil mortos. Eu proponho uma visão confederativa da Síria, fiadora das três minorias: alauíta, sunita e curda. Durante a Guerra Fria o conjunto das potências mundiais se reuniu para garantir a estabilidade de fronteiras e a proteção de populações. Agora precisaríamos de uma conferência que inclua as potências regionais, que guerreiam por procuração: Irã, Arábia Saudita e Turquia. 

Se perder as prévias do PS para Manuel Valls, por exemplo, o senhor está pronto para apoiá-lo na campanha à presidência?

Pergunte a ele se me apoiará caso eu vença. Eu respeito as regras.

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