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A exceção síria

Issa Goraieb

O professor Jack Goldstone, da Universidade George Mason, da Virgínia, é considerado um dos mais eminentes especialistas americanos das primaveras árabes que floresceram em 2011 para produzir, infelizmente, na maioria das vezes, apenas amargos resultados. A partir desse ano, num estudo publicado na Foreign Affairs, Gladstone enumerou as condições necessárias ao sucesso de toda revolução naquela região atormentada que é o Oriente Médio:

– Um regime irremediavelmente injusto, incapaz, que represente uma ameaça para o futuro do país;

– As elites, principalmente militares, que deixam de ser solidárias com o governo e rejeitam defendê-lo;

– Mobilização contra o regime de grande parte da população que abrange grupos étnicos, religiosos e socioeconômicos;

– Potências estrangeiras que se negam a socorrer o regime, ou impedem que este use os meios de que dispõe para esmagar os rebeldes;

Se devêssemos levar em conta esses critérios, constataríamos a rara particularidade do caso da Síria, país onde há cinco anos se trava uma guerra civil, na qual já morreram mais de 250 mil pessoas. Pois, na realidade, a Lei de Gladstone só pode explicar parcialmente os desenganos e a extraordinária capacidade de resistência a esta cruel ditadura.

Ninguém poderia crer razoavelmente que Bashar Assad, que mandou bombardear o próprio povo, possa um dia retomar o poder. Mas seu reinado não deverá acabar tão cedo. Repudiado por grande parte da maioria sunita, ele conserva o apoio da minoria alauita à qual pertence, que detém o comando do Exército. Quanto às interferências das potências estrangeiras, o regime de Damasco as explorou em seu proveito. Desde o início da rebelião, beneficiou-se do apoio político e paramilitar do Irã e os combatentes libaneses do Hezbollah. Mas foi principalmente a ação repentina da poderosa aviação russa que melhorou consideravelmente a situação de Assad, permitindo que suas tropas progredissem em várias frentes. Tal ativismo contrasta com a extrema prudência demonstrada pelo governo Obama que incansavelmente exigiu, em vão, a saída do ditador, preocupado acima de tudo em evitar as empreitadas aventureiras da era Bush. Os EUA limitaram-se a participar de uma coalizão aérea internacional visando exclusivamente o Estado Islâmico.

É precisamente a este respeito que hoje a teoria de Gladstone se mostra incompleta; com efeito, ninguém poderia imaginar, na época em que foi formulada, que um elemento decisivo – o terrorismo de inspiração religiosa – faltava à sua lista. O que mais garante a sobrevida de todo regime em crise é, na realidade, a ausência de uma alternativa válida. Por mais detestável e fortemente contestada que ela seja internamente, a ditadura síria está sendo cada vez mais considerada o menor dos males, diante do monstruoso fenômeno do EI. Para a Síria, este recurso do mal menor não é novo: durante seus 35 anos no poder, Hafez Assad, pai do atual presidente, usou e abusou dele. 

Seu filho Bashar foi ainda mais longe, libertando milhares de prisioneiros radicais islâmicos, ciente de que estes não tardariam em se transformar em combatentes, e depois em poderosos rivais dos grupos de rebeldes moderados. A maquiavélica manobra teve sucesso, pois que os terroristas se tornaram um objetivo prioritário para a maior parte dos países implicados no conflito da Síria. As conversações indiretas entre o regime e os adversários foram suspensas até o dia 25, em razão da ofensiva da aviação russa. A situação é dramática, pois os bombardeios também atingem a população.

Já sabemos claramente o que Putin quer: recolocar Assad no comando, qualquer que seja o prêmio militar, político ou humano. Resta saber o que Obama quer. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

*Issa Goraieb é colunica do 'Estado" e jornalista radicado em Beirute

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