AFP / Patrick KOVARIK
AFP / Patrick KOVARIK

‘A extrema direita foi superestimada’

Para o diretor de pós-graduação do Departamento de Ciências Políticas e Estudos Internacionais da Universidade de Birmingham, europeus cansaram-se do voto de protesto  

Entrevista com

Sotirios Zartaloudis

Renata Tranches, O Estado de S.Paulo

16 Julho 2017 | 05h00

Depois de um período de radicalização do discurso e crescimento de tendências de extrema direita na Europa, a derrota de Marine Le Pen na França e o próprio revés de Theresa May no Reino Unido mostram que eleitores europeus estão se cansando do “voto de protesto”. A avaliação é do cientista político da Universidade de Birmingham (Reino Unido) Sotirios Zartaloudis, para quem a popularidade dos extremistas de direita no Velho Continente foi superestimada. As atenções agora se voltam para a decisão na Alemanha, em setembro, onde a chanceler Angela Merkel buscará um quarto mandato, mas para Zartaloudis, pouco deverá mudar, independente do resultado. “Desde a 2.ª Guerra, 90% dos partidos na Alemanha têm sido moderados”, disse, em entrevista ao Estado

A emergência de um forte nacionalismo e euroceticismo pela Europa desafiou os partidos tradicionais e deu espaço à emergência de movimentos e partidos de extrema direita. O sr. acredita que essa tendência ainda é forte na Europa?

A popularidade dos movimentos de extrema direita sempre foi superestimada. Eles nunca tiveram o apoio de uma maioria em nenhum país europeu. No entanto, recentes reveses e derrotas dos partidos de extrema direita como o Ukip (Partido de Independência do Reino Unido), no Reino Unido, e na Holanda mostram que talvez os eleitores estejam cansados desses partidos de protesto. 

Essa tendência estaria perdendo força? 

Os partidos tradicionais, como o de May, no Reino Unido, e o de (Mark) Rutte, na Holanda, têm abraçado algumas de suas políticas e retóricas, especialmente no que diz respeito à imigração. Portanto, não conseguimos saber se essas ideias foram totalmente combatidas e dissipadas ou não. Na França, (Marine) Le Pen nunca venceria a presidência do país. Apesar da obsessão da mídia sobre sua popularidade, ela nunca conseguiria administrar uma campanha que pudesse alcançar mais do que 50% dos votos. 

Houve uma resposta centrista entre os europeus a esse movimento de extrema direita, como a eleição de Emmanuel Macron na França? 

Como eu disse, a França sempre votou para presidentes centristas, não há nenhuma surpresa aqui. Le Pen nunca passou de uma escolha por um voto de protesto. Na verdade, essa eleição foi muito mais um resultado previsível do uma grande mudança no país. 

Após um período em que observamos uma forte polarização na política em vários países na Europa, que há espaço para as tendências mais centristas nas próximas eleições?

Depende de como definimos centro. Eu não acho que a polarização vai se esvair, mas isso também dependerá da realidade econômica dos países. O crescimento (econômico) parece estar retornando à Europa e isso possivelmente ajudará as pessoas que se sentem, neste momento, raivosas com as elites. 

O candidato alemão Martin Schulz e seu SPD podem ser considerados representantes dos moderados? Como isso influenciará as eleições na Alemanha este ano? 

Sim, mas isso também se aplica a (Angela) Merkel. Desde a 2.ª Guerra, 90% dos partidos na Alemanha têm sido moderados. 

Com relação ao Reino Unido, como o sr. avalia os resultados das últimas eleições? 

Elas foram mais uma humilhação pessoal para May, que parece ser uma líder muito fraca. Isso também significou um retorno à tradicional política esquerda/direita com James Corbyn oferecendo uma política mais em favor do bem-estar social em comparação às políticas de May, que parece não oferecer nada além do discurso do “forte e estável”, o que não quer dizer muito aos eleitores. Um “Brexit duro” também tem sido repelido à medida que as pessoas se dão cada vez mais conta da catástrofe econômica que ele representaria aos britânicos.

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