Meridith Kohut/The New York Times
Meridith Kohut/The New York Times

A fome na Venezuela é real

Venezuelana que trabalhou com ajuda humanitária em países da África e da Ásia após desastres e guerra agora usa sua experiência em um contexto que nunca esperou ter de usar

Francisco Toro / WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

02 Junho 2017 | 05h00

A última coisa que Susana Raffalli esperava era terminar trabalhando com ajuda humanitária em seu país, a Venezuela. Com mais de três décadas de carreira, Raffalli trabalhou com pessoas famintas em todos os lugares, da Indonésia afetada por um tsunami ao Paquistão e campos de refugiados na Argélia.

Nutricionista com treinamento em crises humanas, ela participou de grupos da Oxfam que tratam com rigor estatístico termos como "crise alimentar" e "fome". Agora, de volta a Caracas, sua cidade-natal, ela está aplicando sua experiência em um contexto que nunca esperou ter de usar.

"As pessoas vêm aqui e veem esses arranha-céus e não conseguem acreditar que há pessoas famintas aqui", disse por telefone de Caracas. Raffalli disse que, inicialmente, também foi difícil para ela acreditar. Mas, então, como chefe para a crise de alimentos na Venezuela da organização católica Cáritas, começou a aplicar os mecanismos de monitoramento humanitário usado no mundo todo.

O que ela descobriu foi chocante. A Cáritas pegou como amostragem mais de duas dúzias de áreas de risco nas paróquias mais pobres de quatro Estados e começou a pesar crianças com menos de 5 anos. Isso permitiu à Cáritas medir "a aguda desnutrição global" - o mecanismo-chave que as organizações de ajuda humanitária utilizam para saber a severidade da desnutrição.

Em outubro, 8,9% das crianças que eles pesaram tinham desnutrição moderada ou severa. O número era alto e continuou subindo. Em abril, 11,4% das crianças em áreas vulneráveis tinham desnutrição aguda - acima dos 10% que as agências de ajuda humanitária usam para declarar uma crise alimentar. 

Cada vez mais Raffalli está vendo as famílias adotando estratégias de adaptação à emergência, geralmente associadas a países afetados pela guerra. Ao menos 63% das famílias estariam apelando a "alimentos incomuns"; 70% pararam de consumir alimentos que consideram importantes; e 85% das famílias em áreas de risco dizem que estão comendo bem menos.

Pelo menos 57% das famílias das áreas de risco reduziram os alimentos essenciais e 44% passam o dia todo com apenas uma refeição. No total, 34% das famílias estão recorrendo a pelo menos uma estratégia de emergência - um sinal de falta de alimentação aguda - como vender bens para comprar comida, reduzindo gastos essenciais, buscando comida no lixo ou mandando as crianças pedirem comida nas ruas.

Os debates ideológicos do governo socialista não são mais ouvidos pelas pessoas cujas barrigas estão roncando de fome.

Segundo a Cáritas, as pessoas agora têm uma dieta menos variada e trocam alimentos mais nutritivos pelos mais baratos. Em dezembro, 47% das famílias conseguiam comer ovos, mas agora apenas 38% conseguem. Carne e frango estavam no menu de 41% dessas famílias no fim do ano; mas agora estão apenas no de 33%. Mesmo margarina e óleo de cozinha estão fora do alcance de muitas pessoas - 64% usavam esses itens em dezembro, mas agora apenas 34% usam.

Nesse país tropical, tubérculos e frutas são os únicos alimentos que sobreviveram às indústrias de alimentos. Os tubérculos estão substituindo alimentos mais nutritivos como carne, ovos, leite e vegetais.

 

Para Raffalli, os números falam por eles mesmos. Apesar de a Venezuela ter uma grande reserva de petróleo, sua imagem de um país de renda média caiu por terra com a dura realidade que as famílias enfrentam.

É por isso que, por meio da Cáritas, Raffalli está adotando o mesmo tipo de assistência humanitária para as crianças na Venezuela que ela ajudou a aplicar em Angola em 2005, após a guerra, e depois da grande seca e da crise política em Mianmar.

Mas enfrentar um governo que rejeita em admitir que há uma crise humana torna seu trabalho mais desanimador. A Cáritas tem conseguido atender crianças em pelos menos 32 paróquias, ajudando a alimentar 1.575 crianças diretamente e mantendo um sistema de alerta que permitirá respostas humanitárias relevantes de acordo com a escalada da crise.

Esta é apenas a ponta do iceberg. A Venezuela necessita de uma ajuda humanitária sustentada para conter o atual número de mortes e impedir que uma geração inteira de crianças seja afetada. Mas o governo rejeita reconhecer essa realidade e teimosamente resiste em declarar emergência humanitária e aceitar a ajuda mundial, incluindo a dos EUA, que está sendo oferecida.

Com a aproximação da temporada de chuvas, e o surgimento sazonal de doenças infecciosas, Raffalli está especialmente preocupada: crianças desnutridas têm mais dificuldade para combater infecções.

"Se você me dissesse dez anos atrás que eu acabaria fazendo em casa o mesmo trabalho que costumava fazer na África ou no sul da Ásia após um desastre, nunca acreditaria em vocês", disse Raffalli. Mas isso é a Venezuela de hoje.

 

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