U.S. Department of Defense/Handout via REUTERS
U.S. Department of Defense/Handout via REUTERS

A grande mãe

A 'mãe de todas as bombas', pois, fez-se ouvir de Damasco a Pyongyang

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

15 Abril 2017 | 05h00

Os americanos detonaram no Afeganistão a GBU 43/B. Dito assim, não impressiona. Mas, se explicarmos que essa GBU é uma bomba que pesa 9,8 toneladas, custa US$ 5 milhões e é chamada de “mãe de todas as bombas”, aí ela já começa a impor respeito. Fica, porém a pergunta: por que essa “mãe” foi jogada nesse Afeganistão do qual não se ouvia falar havia meses, talvez anos? 

A GBU explodiu no leste do Afeganistão, na Província de Nangarhar, onde existem subterrâneos nos quais jihadistas se escondem e guardam seus equipamentos. Foram mortos 92 combatentes. Acrescente-se que esses mortos eram do Estado Islâmico (EI). 

Como acreditava que o EI, embora muito poderoso no Oriente Médio, fosse fraco no Afeganistão, onde domina o Taleban, fui ouvir especialistas, como o correspondente no Afeganistão do jornal Le Monde, Julien Boujssou. 

Aprendi que, de fato, há membros do EI no Afeganistão, mas não são numerosos, e de todo modo não são a única força a fustigar o governo de Cabul. Existem hoje 600 combatentes do EI na Província de Nangarhar e 300 na vizinha Província de Kunar. É muito, mas bem menos que alguns anos atrás. O próprio porta-voz da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) no Afeganistão afirma que “a ameaça do EI diminuiu no país”. Nos dois últimos anos, o EI perdeu dois terços de seu território no Afeganistão e metade dos combatentes. 

Sua capacidade de perturbar, é claro, continua grande. No início deste mês, o EI matou cinco moradores de Cabul num atentado suicida. Em julho de 2015, outro atentado suicida na capital afegã deixou 80 mortos. Mas, na conta geral de vítimas de atentados no Afeganistão em 2016, o EI fica para trás: assassinou 899 pessoas de um total de 6.954. 

Então, por que essa “mãe de todas as bombas”? Quem dá uma pista é o ex-presidente do Afeganistão, Hamid Karzai: “Não é a guerra contra o terrorismo que desaprovo, mas a utilização abusiva, desumana e brutal de nosso país como campo de experimentação de novas armas perigosas.” 

Essa tese, provavelmente exata, deve ser completada com a observação de que tal experimentação foi também um sinal de advertência ao EI em seus domínios no Oriente Médio - no Iraque e na Síria. A mensagem pode ser lida assim: “Os americanos puniram duramente o regime de Bashar Assad por usar gás venenoso contra rebeldes sírios, destruindo aviões do governo. Mas que fique claro: o inimigo número 1 dos Estados Unidos e do mundo livre continua sendo o EI, que será perseguido em toda parte, incluindo seus redutos distantes do Afeganistão.” 

Uma segunda advertência vai para a Coreia do Norte, cujo estranho chefe, Kim Jong-un, insiste em prosseguir com seus ensaios nucleares.  A “mãe de todas as bombas”, pois, fez-se ouvir de Damasco a Pyongyang. 

Antes, a propósito das intervenções de força dos Estados Unidos no planeta, falava-se em “política do porrete”. Será que a partir de agora vai se falar em "política da grande mãe"? / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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