A guerra contra o véu

Leis proibindo minaretes e outros símbolos do islamismo ganham força em vários países do continente e restringem as liberdades dos muçulmanos de toda a Europa

Edward Cody, O Estado de S.Paulo

18 Maio 2010 | 00h00

THE WASHINGTON POST

Selma disse que, desde que começou a usar a burca, há seis semanas, as pessoas olham para ela assustadas, com ar de desaprovação. Recentemente, ela foi forçada por um policial a levantar o véu para mostrar o rosto. "Na Bélgica é proibido seguir suas convicções religiosas, de maneira lógica", disse a jovem de 22 anos, que pediu para não ser identificada.

São tempos difíceis para os cerca de 15 milhões de muçulmanos da Europa Ocidental. Respondendo a uma onda de ressentimentos disseminada nas sociedades europeias, vários governos começaram a impor restrições ao mais frontalmente visível dos costumes islâmicos, que é o uso do véu que cobre todo o rosto. Fora dos saguões dos Parlamentos e Ministérios, contudo, os sentimentos anti-islâmicos vieram à tona numa avalanche de insultos via internet e ataques contra símbolos muçulmanos.

Na Bélgica, a Câmara dos Deputados aprovou uma lei proibindo o uso do véu em público - foi o primeiro país da Europa Ocidental a adotar tal medida. Os legisladores belgas explicaram que o objetivo é "enviar um sinal" para os muçulmanos fundamentalistas e preservar a dignidade e os direitos da mulher.

Citando os mesmos objetivos, a Assembleia Nacional da França, por maioria esmagadora, declarou o uso do véu que cobre todo o rosto da mulher "contrário aos valores da república", o primeiro passo para a aprovação de uma lei similar à da Bélgica. O governo conservador do presidente Nicolas Sarkozy prometeu aprovar a lei até o fim do ano, apesar dos dois pareceres da Corte Constitucional francesa que disseram que a lei é inconstitucional.

Na França, que tem 6 milhões de muçulmanos, a maior população islâmica da Europa, a decisão de Sarkozy tem apoio da maioria. Em pesquisas recentes, dois terços dos entrevistados se disseram favoráveis a uma proibição total ou parcial da burca.

No mês passado, um açougue muçulmano e uma mesquita foram pichadas no sul da França depois que Sarkozy decidiu levar adiante a proibição. Na semana passada, vândalos profanaram um cemitério de soldados muçulmanos que morreram combatendo pelo Exército francês.

Propostas de uma lei proibindo o véu também foram apresentadas na Itália e Holanda, embora sua aprovação seja incerta. Algumas cidades italianas e holandesas já impuseram restrições; na semana passada, uma tunisiana foi foi multada em US$ 650 por sair à rua com o rosto coberto em Novara, norte da Itália.

Na Suíça, onde a construção de minaretes foi proibida em novembro, a ministra da Justiça, Eveline Widmer-Schlumpf, declarou que o governo pretende proibir o uso da burca, mas as regras não valerão para as turistas do Golfo Pérsico que passam férias no país e gastam prodigamente em hotéis e lojas de luxo.

Selma prometeu continuar cobrindo o rosto em público, apesar das humilhações que sofre. A discussão ficou ainda mais aguda porque os imigrantes muçulmanos que vieram para a Bélgica, nos anos 60 e 70, tiveram filhos e netos que nasceram e cresceram no país. Eles não pretendem retornar aos países de origem e não acham que devem abaixar a cabeça, como fizeram seus antepassados. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É COLUNISTA S

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