REUTERS/Enrique Calvo
REUTERS/Enrique Calvo

A hora zero catalã

Como uma das regiões mais cultas da Espanha adotou o nacionalismo?

Mario Vargas Llosa *, O Estado de S.Paulo

01 Outubro 2017 | 03h00

Haverá hoje um plebiscito na Catalunha? Espero ardentemente que, em um ato de sensatez, o governo autônomo tenha cancelado a convocação. Ao mesmo tempo, conheço de sobra os elevados níveis de teimosia e irrealidade que acompanham todo nacionalismo. De forma que é impossível, apesar de tudo – e esse “tudo” é muitíssimo – o governo catalão se empenhar em incentivar seus partidários a desobedecer a lei e votar. 

Se acontecer isso, o chamado plebiscito será uma caricatura de consulta. Inválida, sem o censo dos eleitores, nem urnas autorizadas, nem representantes, nem registros eleitorais, com uma porcentagem mínima de participantes, todos independentistas. Ou seja, o monólogo patético de uma minoria cega e surda à racionalidade, pois, segundo as pesquisas, pelo menos dois terços dos catalães admitem que o referendo carece de validade legal. 

Servirá apenas para alimentar a vitimização, ingrediente essencial de toda ideologia nacionalista e para acusar o governo espanhol de ter violentado a democracia impedindo o povo catalão de exercer o direito de decidir seu destino mediante a mais pacífica e civilizada maneira democrática, que é votando.

Escrevo este artigo muito distante da Espanha, e desconheço os últimos episódios desse problema que manteve intranquilo o país nas últimas semanas. Mas talvez a distância seja boa para indagarmos com serenidade o que levou a Catalunha, uma das regiões mais cultas e cosmopolitas da Espanha, a adotar em seu seio, de forma tão disseminada, essa antiquada, provinciana e extravagante ideologia que é o nacionalismo. 

Como é possível que milhares de jovens universitários e estudantes de uma sociedade moderna, que faz parte do mais generoso e idealista projeto democrático de nosso tempo – a construção da Europa, concebida exatamente como uma cidadela contra os nacionalismos que banharam a história de sangue e de cadáveres – tenham agora como ilusão política querer encastelar-se em uma sociedade fechada e obsoleta, que retrocederia e empobreceria brutalmente a Catalunha, uma vez que a região sairia do euro e da União Europeia e teria um grande e difícil trâmite para retornar a ambos?

A resposta não pode ser a defendida pelos nacionalistas de modo aguerrido – de que isso se deve ao fato de a “Espanha roubar da Catalunha” –, pois desde a queda da ditadura de Franco e a transição para a democracia essa região obteve progressivamente a maior atribuição de competências econômicas, culturais e políticas de toda sua história.

Poderia não ser suficiente, evidentemente, e talvez tenha havido da parte dos governos centrais negligência em atender às exigências da Catalunha; mas isso tem uma saída perfeitamente negociável dentro da legalidade e não pode justificar a pretensão de cortar de maneira unilateral 500 anos de história comum e romper com o restante de uma comunidade que está presente e atrelada de mil maneiras na sociedade e na história catalãs. 

Herança. Nada pode estar mais distante do provincianismo racista e anacrônico do nacionalismo que a grande tradição cultural bilíngue da Catalunha, com seus artistas, músicos, arquitetos, poetas, romancistas, cantores, que estiveram quase sempre na vanguarda, experimentando novas formas e técnicas, abrindo-se ao restante do mundo, assimilando o novo com fruição e propagando-o pelo restante da Europa.

Como se encaixam um Gaudí, um Dalí ou um Tàpies com um Puigdemont e um Junqueras? E um Pla ou Foix ou Marsé ou Serrat ou Cercas com Carme Forcadell ou Ada Colau? Há um abismo tal entre o que uns e outros representam, que é difícil de imaginar alguma linha de continuidade cultural ou ideológica que os una. 

A explicação está certamente em um trabalho de doutrinamento sistemático, que começou nas escolas e projetou-se para todo o conjunto da Catalunha, por meio dos grandes meios de comunicação. Orquestrado e financiado pelo governo catalão desde os anos de Jordi Pujol e seus seguidores, foi tocando fundo nas novas gerações até impregná-las com a ficção perniciosa que representa todo nacionalismo. 

Uma doutrinação que foi mal neutralizada pela inércia ou ingênua crença da parte do governo e da elite política e intelectual do restante da Espanha – de que aquela manipulação mentirosa não seria aceita, a sociedade catalã saberia resistir a ela e o problema se resolveria por si mesmo.

Não foi assim e essa negligência irresponsável está hoje por trás do monstro que cresceu e levou uma boa parte da Catalunha a uma deriva separatista que, mesmo que não triunfe – e eu creio firmemente que não triunfará – pode arrastar a Espanha a uma crise traumática. Entre outras consequências nefastas, ela poderia paralisar o processo de recuperação econômica que tantos sacrifícios já custou aos espanhóis. 

Um setor minoritário da extrema esquerda adotou como causa comum a independência catalã e outro, mais numeroso e mais sensato, exige diálogo. Não há dúvida de que este último parece indispensável. O problema é que, para que um diálogo seja possível e frutífero, é preciso que haja algum denominador comum entre os participantes dele.

No passado, foi lamentável que as negociações não ocorreram. Mas agora, embora não impossível, é muito mais difícil dialogar com os que não aceitam “a secessão, sim ou sim” e têm em sua intransigência o apoio de um setor considerável da Catalunha.

Pontes. Antes é preciso estender pontes, reconstruir as que foram partidas. E esse é um trabalho essencialmente cultural. Convencer os menos fanatizados e obstinados de que o nacionalismo – todo nacionalismo – sempre foi uma epidemia catastrófica para os povos.

Ele só produziu violência, falta de comunicação, exclusão e racismo e, sobretudo nessa época de globalização universal que está pouco a pouco desfazendo as fronteiras, é suicídio querer resistir a esse processo enormemente benéfico para a humanidade. É preciso explicar que a Espanha precisa da Catalunha tanto quanto a Catalunha precisa da Espanha para integrar-se melhor na grande aventura da Europa e perseverar – aperfeiçoando-a sem trégua – nesta democracia que trouxe para este país condições de vida que são as mais livres e prósperas de sua história.

A independência da Catalunha seria trágica para a Espanha e sobretudo para a Catalunha, que cairia nas mãos de uma ideologia retrógrada e bárbara e dos demagogos que a conduziriam à sua ruína. Tudo o que há de justo nas exigências de soberania pode-se alcançar dentro da unidade, mediante negociações, sem romper a legalidade que nesta última metade de século foi fazendo da Espanha um país livre e democrático. 

Não nos esqueçamos de que, durante a transição, o mundo inteiro olhava a Espanha como um exemplo a ser seguido, por ter transitado tão rapidamente e de forma tão prudente e pacífica em direção à democracia, com a atitude tolerante e solidária de todos os partidos políticos e o beneplácito da imensa maioria do país.

Não é tarde para retomar aquele ponto de partida solidário pelo qual foram criados tantos bens para o conjunto dos espanhóis, começando pelo mais importante, que é a liberdade. Por todos os meios racionais possíveis, é preciso persuadir os catalães de que o nacionalismo é um dos piores inimigos da liberdade e este período nefasto deve ficar para trás, como um pesadelo que se desvanece ao despertar. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

 

* É PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA

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