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Entrevista. Itzhak Galnoor, professor da Universidade Hebraica de Jerusalém

Para professor, morte de jovens expõe como Israel e Autoridade Palestina evitam atacar causas da violência

'A inação virou a estratégia de Netanyahu e Abbas'

Roberto Simon

05 Julho 2014 | 22h 00

Os assassinatos de três jovens israelenses perto de Hebron e de um garoto árabe de Jerusalém Oriental, aparentemente em retaliação, têm uma causa profunda: a inação tornou-se a estratégia dos responsáveis por negociar a paz. É essa a lição que tira da tragédia o cientista político Itzhak Galnoor, professor da Universidade Hebraica de Jerusalém e pesquisador do Instituto Van Leer.

Segundo ele, tanto o israelense Binyamin “Bibi” Netanyahu quanto o palestino Mahmoud Abbas não querem os riscos de um acordo definitivo – e só um compromisso desse tipo seria capaz de atacar as causas da violência. A seguir, trechos da entrevista ao Estado.

Qual impacto político sobre o governo Netanyahu desse ciclo de violência que vimos na semana passada?

Em períodos como o que estamos vivendo há uma enorme pressão sobre o governo para “fazer alguma coisa” – e isso significa agir militarmente. Estou certo de que o primeiro-ministro e seu governo entendem que uma ofensiva militar pode ser boa no plano da vingança. No entanto, não é uma solução. Como vimos no passado, essa fórmula não funciona. Israelenses e palestinos vivem a repetir que “o outro lado só entende a língua do poder e da força”. Minha visão é oposta: se há uma língua que nenhum dos lados entende, é a do poder e da força. Nossa história foi marcada por ciclos de retaliação, nos quais cada um diz que está “reagindo” ao outro, até chegar num momento em que nenhum lembra onde começou o problema.

Objetivamente, o que isso significa para Netanyahu?

Ele não fará nada no curto prazo, a não ser tentar conter a opinião pública. Pode querer agir contra a Faixa de Gaza, por exemplo. Mas isso não é exercer liderança política. É apenas fazer um jogo psicológico para a massa. Ao mesmo tempo, há considerável pressão sobre o premiê – embora não dos setores da direita de sua coalizão – para que ele tome alguma atitude diante do fato de que a estagnação do processo de paz não é do interesse nacional de Israel.

De quem vem essa pressão? Dos centristas de seu gabinete, como Tzipi Livni, e de Yair Lapid, o ministro das Finanças?

Sobretudo desses dois, além de alguns mais moderados dentro de seu próprio partido (o Likud). E essa pressão vem de antes do assassinato dos três jovens israelenses, quando já estava abalada a percepção de que o tempo trabalha em favor de Israel e é possível manter as coisas paradas. Vários nomes da direita perceberam nos últimos anos que a segurança da Israel depende de um acordo de paz: Livni, (o ex-premiê Ehud) Olmert e, o mais importante de todos, Ariel Sharon, que decidiu deixar Gaza e se preparava para firmar um acordo de paz. Netanyahu, às vezes, parece inclinado a tentar romper a estagnação, mas a questão é como ele vai fazer isso. Há setores do governo que o puxam no sentido oposto dos centristas – anexação da Cisjordânia, mais assentamentos, etc. Recentemente, quando esteve pressionado pelos dois lados, escolheu ficar no meio. É um lugar que lhe agrada. Portanto, à luz do passado, minha única previsão é que, infelizmente, o governo israelense optará por ficar parado.

Netanyahu não quer um acordo, é isso?

Ele não deseja assumir um compromisso dessa magnitude, pois acredita que seu papel histórico na política israelense é manter as conquistas já alcançadas. Ele entende que, neste momento, Israel não pode achar uma solução ao conflito, mas é capaz de administrá-lo. “Administrar”, atente para esse termo, como se fosse um empreendimento. A decisão final que fique para as próximas gerações. É assim que pensa Netanyahu. E ele é muito habilidoso no marketing desse jogo, a ponto de convencer o governo americano, Livni e uma pessoa extremamente experiente: o ex-presidente Shimon Peres, que saiu dizendo que o premiê estava disposto a negociar de verdade.

Isso explicaria por que a iniciativa de paz do governo de Barack Obama, com o envolvimento pessoal do secretário de Estado, John Kerry, fracassou de vez há dois meses?

Nenhum dos dois lados estava disposto a assumir um compromisso, sobretudo os israelenses. O primeiro-ministro entrou na negociação porque ele estava sob pressão. Mas ninguém em Israel imaginava que Netanyahu enviaria Livni para fechar um acordo e ele diria depois: “Ótimo trabalho, Tzipi!”.

Do lado palestino, o sequestro dos jovens ocorreu pouco após Hamas e Fatah anunciarem um aguardado pacto de união. Como fica a situação de Abbas?

Ele sofre de um mal similar ao de Netanyahu: quer manter a negociação, sem ter capacidade nem vontade política de chegar a uma solução definitiva. Pode discutir a libertação de prisioneiros ou coisas pontuais, mas não os temas basilares. Se Israel entrar na negociação de modo mais sério, os palestinos serão confrontados com um teste real. Mas não é isso que ocorre e Israel, como a parte mais forte, deve tomar a iniciativa. Netanyahu inventou a precondição de que os palestinos devem reconhecer a natureza judaica do Estado de Israel, que não tem significado real. Os israelenses não precisam de alguém reafirmando isso a eles. Se os palestinos disserem que aceitam esses termos, Netanyahu encontrará outra precondição. Essas exigências não são sérias. Um ponto realmente central, por exemplo, é a questão da presença de tropas israelenses no Vale do Jordão. É esse tipo de tema que deve dominar um diálogo de paz verdadeiro.

Como as transformações no entorno de Israel afetam o processo de paz?

Vejo países como Arábia Saudita e Egito tão preocupados com a Síria e, agora, o Iraque, que uma negociação real sobre o conflito palestino-israelense certamente seria abraçada por eles. Ambos têm enormes interesses em comum com Israel, do jihadismo sunita ao Irã nuclear. Por isso, no médio prazo, é possível ver uma aproximação entre israelenses e setores moderados do bloco árabe, incluindo os palestinos. Mas o atual governo de Israel não tem essa visão.

Esse otimismo do sr. sobre a chamada “Primavera Árabe” é raro entre os israelenses.

Todos aqui dizem que não é uma “Primavera Árabe”, mas uma “Primavera Islâmica”. Eu não vejo desta forma. Não há dúvidas de que o mundo árabe passa por uma transformação, que pode ir em diversas direções. Não aceito a ideia de que países árabes não podem ser democráticos. Estamos vendo revoluções em sociedades tradicionais. Mas, no longo prazo, essas mudanças poderão ser favoráveis, especialmente a Israel.