REUTERS/Kacper Pempel
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A inquietante Polônia

Tudo mudou no país em novembro de 2015 com a chegada ao poder do partido Lei e Justiça, de Jaroslaw Kakzynski, que golpeia com crescente violência a democracia e o estado de direito

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

10 Fevereiro 2017 | 05h00

A chanceler Angela Merkel tornou-se a guardiã da União Europeia. Até agora, ela tinha um assistente, o presidente da França, mas a França se encontra em tal confusão pré-eleitoral que Merkel dispensou sua ajuda. Assim, ela se encontrou sozinha em Varsóvia, Polônia, para ver o que acontece nesse país cada vez mais inclinado a devaneios populistas (leia-se fascistas).

Após a queda do Muro de Berlim, a Polônia percorreu um caminho impecável rumo a uma economia próspera. Mas tudo mudou em novembro de 2015, com a chegada ao poder do partido Lei e Justiça (PIS), hostil à Alemanha e crítico da União Europeia. Desde então, o “homem forte” de Varsóvia não faz parte do governo: é o presidente do PIS, Jaroslaw Kakzynski, que golpeia com crescente violência a democracia e o estado de direito.

Sua proeza mais recente foi a tomada pelo partido, em dezembro, da mais alta instância jurídica polonesa, o Tribunal Constitucional. Daqui para a frente, o governo pode violar como quiser a separação dos poderes, censurar a imprensa, reformar a Justiça e mudar a seu alvitre o código eleitoral – o Tribunal Constitucional estará sempre pronto a atestar que todos esses ultrajes estão de acordo com a Constituição.

A Comissão Europeia arrancou os cabelos. Engrenou um “procedimento de salvaguarda do estado de direito” na reunião de Varsóvia. Bruxelas, que não brinca com os princípios sagrados da democracia, lançou seus raios sobre as capitais rebeldes.

Resultados pífios! Para pôr em prática sanções contra um país da UE é necessário um acordo unânime entre os membros.

Ocorre que na Europa muitos países veem com inveja os horizontes agitados com que sonham os poloneses. O primeiro-ministro húngaro, Viktor Orban, outro inimigo da União Europeia e da democracia, já fez saber que “vetará qualquer ação contra a Polônia”. Por trás dessa brutal aceleração dos confrontos entre europeus encontramos, sem surpresa, a enorme silhueta de Donald Trump.

O governo de Varsóvia vê na vitória de Trump quase uma dádiva do bom Deus e espera manter uma “relação especial” com Washington. De fato, sabe-se que o presidente polonês, Andrej Duda, fez um convite a Trump para a cúpula dos dirigentes da Europa Central, em julho, em Varsóvia. Como todos esses chefes centro-europeus compartilham dos sonhos de Varsóvia, sem dúvida será um triunfo para Trump.

Merkel voltou meio caída de sua missão mediadora em Varsóvia. Enquanto isso, outros perigos já despontam. Em 15 de março, a Holanda elegerá seus deputados. É possível que vença o populista Geert Wilders, anti-islâmico apaixonado. Dois meses depois, a França escolherá seu novo presidente.

No primeiro turno, Marine Le Pen, que não prima pela convicção democrática, estará na frente com uma previsão de 25% dos votos. Conseguirá ela manter a vantagem no segundo? Não se sabe, mas, de qualquer modo, continuará chefiando o maior partido francês, a Frente Nacional, que detesta Bruxelas, não gosta muito dos EUA e aprecia muito a Rússia.

Nesta primavera, a bombeira Merkel terá muito trabalho pela frente. Se pretender apagar todos os incêndios, terá de utilizar toda a água possível, sem parar e sem garantia de extinguir todos os focos. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

 

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