A jovem democracia da Tunísia busca respostas

Para se desenvolver, país necessita de segurança que respeite as leis e os direitos humanos

JOHN, THORNE, CHRISTIAN SCIENCE MONITOR, O Estado de S.Paulo

21 Março 2015 | 02h04

Das questões levantadas pelo ataque terrorista que matou 23 pessoas em Túnis, a maior parte turistas estrangeiros, talvez a mais importante seja se o massacre dividirá ou unirá essa incipiente democracia.

A Tunísia é considerada a única história de sucesso da chamada Primavera Árabe, graças à moderação e o comprometimento de seus líderes políticos e eleitores. Isso evitou o banho de sangue e a deterioração que atormentaram outros Estados norte-africanos como Líbia e Egito.

No entanto, o atentado desta semana oferece um novo desafio. Foi o primeiro ataque terrorista com estrangeiros mortos desde 2002 e o primeiro a ocorrer em Túnis. E ele também atinge diretamente o setor de turismo, vital para o país. O governo, que deve agora responder ao desafio, é uma coalizão frágil, até agora não colocada à prova, no poder há apenas seis semanas.

A Tunísia já vinha lutando para atrair turistas e investidores estrangeiros, que se distanciaram desde 2011. No entanto, muitos tunisianos querem que as autoridades coloquem em equilíbrio a necessidade de uma segurança forte e medidas que protejam suas novas liberdades, obtidas duramente. O "combate ao terrorismo" sempre foi a razão oferecida para justificar ataques contra as liberdades civis durante a presidência de Zine al-Abidine Ben Ali, deposto em 2011.

O atentado desta semana atingiu o Museu do Bardo, antigo palácio dos governantes da era otomana, adjacente ao edifício do Parlamento. O museu abriga uma coleção importantíssima de mosaicos romanos e outras obras antigas e foi reformado recentemente. É o tipo de atração que a Tunísia vem promovendo para diversificar o turismo, ampliando-o a outras áreas que não as viagens de pacotes para hotéis de resort. Para muitos, o museu é símbolo de orgulho de uma herança de 3 mil anos.

"Sinto como se o Vaticano ou Meca tivessem sido atacados", disse Taher Ghalia, que supervisionou a reforma do museu e agora é diretor do Instituto do Patrimônio Histórico da Tunísia. Para ele, o Bardo "é um santuário de cultura". "As autoridades planejam reforçar a segurança nos museus e locais históricos para impedir que um ataque se repita", disse ele.

Em torno do meio-dia de quarta-feira, homens armados abriram fogo contra turistas que desciam de um ônibus, lembrando o massacre em Luxor, no Egito, em 1997. Alguns turistas correram para o museu, procurando se proteger, onde os terroristas os mantiveram como reféns. Dois atiradores foram mortos pelas forças de segurança, mas dois ou três suspeitos conseguiram escapar.

Líderes de todo o espectro político condenaram a violência e pediram unidade nacional, ao passo que os tunisianos se reuniram na principal avenida de Túnis para se manifestar contra o terrorismo. "Combateremos o terrorismo até o fim e não tememos", disse Anouar Turki, professor de física que veio com sua mulher, Hajer Deli Turki, juntar-se à multidão.

Na noite de quarta-feira, o primeiro-ministro, Habib Essid, pediu aos tunisianos que cooperem com as forças de segurança no combate ao terrorismo. Os principais partidos políticos do país - Nidaa Tounes, no governo, e o partido islamista moderado Ennahda - pediram que a nova lei sobre terrorismo seja adotada com urgência.

No entanto, a tensão persiste na área política. Os partidos Nidaa Tounes e Ennahda lutaram vigorosamente um contra o outro nas eleições passadas.

O Nidaa Tounes, que ficou em primeiro lugar, mas não conseguiu uma maioria, convidou o Ennahda para participar da coalizão de governo, apesar dos protestos de alguns de seus seguidores. Anteriormente, o Nidaa Tounes havia acusado o Ennahda de ter sido muito brando com extremistas durante o período do governo de transição, que perdurou de 2011 até o início do ano passado - erro que o Ennahda admitiu ter cometido.

Os esforços para aumentar a segurança poderão levar a um escrutínio. Poucos tunisianos esqueceram que o ex-presidente Ben Ali usava a ameaça do terrorismo para justificar a criação de um Estado policial durante seu reinado de quase 25 anos. De acordo com um relatório divulgado em julho pela ONG Human Rights Watch, o novo projeto de lei antiterrorismo é um aprimoramento da legislação sancionada por Ben Ali para o mesmo fim, mas a linguagem imprecisa poderá dar margem a abusos.

Segundo pesquisa publicada em outubro pelo Pen Research Center, muitos tunisianos consideram a estabilidade política e uma economia sólida fatores mais importantes do que a democracia. No entanto, uma maioria também afirma que os elementos básicos de uma sociedade livre - tribunais imparciais, eleições livres e o direito de protestar pacificamente - são muito importantes para o futuro da Tunísia.

Para Mohamed Bridaa, que dirige a filial da Microsoft na Tunísia e é membro do conselho de administração da Câmara Americana de Comércio em Túnis, há uma certa sintonia com as preocupações mais urgentes da Tunísia. "A transição democrática e o crescimento econômico exigem uma segurança forte e disciplinada" , disse ele. "Uma segurança modernizada que respeite a lei e os direitos humanos." / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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