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Primavera Árabe

A maioria dos egípcios vê uma luz no fim do túnel

Renata Tranches

01 Março 2014 | 22h 55

Pragmático, o economista Fakhry ElFiky, professor de Economia da Universidade do Cairo em Giza, diz acreditar que os bilhões de dólares em investimentos anunciados pelas ricas monarquias do Golfo Pérsico são essenciais para o Egito se recuperar economicamente. Para ele, a saída da Irmandade Muçulmana do poder encorajou esses países controlados por regimes sunitas e contrários à organização a investir no país. Ex-assessor do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, em Washington, ele trabalhou recentemente em um plano para aconselhar o futuro governo eleito do Egito a buscar ajuda econômica dessas instituições. "Sabemos como escolher um presidente de maneira livre e democrática, mas ele precisa de bilhões de dólares", disse ele ao Estado. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Como está hoje a economia do Egito?

A economia do Egito tem enfrentado grandes desafios nos últimos três anos, desde o início da primeira revolução, em 25 de janeiro de 2011. Ela tem sofrido com um crescimento muito lento, que permaneceu nesse período entre 1,8% e 2%. Essa é uma taxa muito baixa comparada à do crescimento da população, que é de 2%. Isso significa que não há espaço para avanços. Cerca de 26% dos egípcios vivem abaixo da linha da pobreza, ganham US$ 1 por dia. Se considerarmos os que vivem com menos de US$ 2 por dia, essa margem sobe para 40% da população. Não há uma distribuição social eficiente da renda.

Por que isso acontece no Egito?

Os mecanismos e políticas de distribuição de renda entre os diferentes setores da população não são eficientes. Durante o regime de Hosni Mubarak, os pobres ficaram mais pobres e os ricos, mais ricos. Por isso, a distância ficou tão grande. Voltando aos últimos três anos, o resultado é a estagnação do PIB. Além disso, os investimentos não foram suficientes nesse período.

De quanto foi a queda nos investimentos?

A média antes da revolução era de quase US$ 8 bilhões por ano, nos últimos cinco anos de Mubarak. Nos últimos três anos, essa média caiu para menos de US$ 1 bilhão por ano. Isso afetou a capacidade de produção do Egito, que hoje trabalha com cerca de 50% dela. Além disso, o desemprego no país, que costumava ser de 9%, nos últimos três anos foi para 14,2%. Isso contribuiu ainda mais para aumentar a pobreza no país. Grande parte desses desempregados são jovens, entre 16 e 25 anos. Isso explica porque há tanto desapontamento entre eles. O governo também está gastando mais.

Como assim?

O governo tem gastado mais e expandindo a política fiscal e monetária do Banco Central do Egito. No entanto, o PIB não está crescendo o suficiente para financiar essas políticas. Isso leva a outro problema, que é a alta inflação. Nos últimos três anos, ela girou em torno de 10% a 12%. Antes da revolução, era de 7% a 8%. Há um grande déficit orçamentário. Os diferentes governos dos últimos anos tentaram responder às demandas nas ruas gastando mais com salários e compensações. Além disso, o governo costumava financiar o déficit pegando emprestado internamente, o que fez a dívida doméstica aumentar em 60% nos últimos três anos. A dívida externa, por sua vez, aumentou de US$ 33,5 bilhões para US$ 47 bilhões, quase 45% no mesmo período. O total do déficit agora está em torno de 95% do PIB. Como você sabe, a margem internacional recomendável é de 60%. Estamos muito além disso. Então, temos uma economia que cresce lentamente, baixo nível de investimentos, grande desemprego, pobreza exacerbada, aumento da inflação e déficit do orçamento, num quadro que se desenhou nos últimos três anos.

O que houve com os investimentos estrangeiros?

Tínhamos investimentos de fontes oficiais da União Europeia, dos EUA e do Japão, que chegavam a cerca de US$ 2 bilhões, entre acordos e doações. Os investimentos diretos e indiretos em portfólio, em bolsa, quase secaram. Desde 2011, o Egito teve quatro governos. Tivemos os dois primeiros governos, sob o comando das Forças Armadas, que controlaram o Egito depois da revolução. Aqueles foram governos temporários, não interinos, apenas resolviam questões do dia a dia. A Irmandade Muçulmana chegou ao poder em seguida por meio da eleição do presidente Mohamed Morsi, uma pessoa-chave na organização e trabalhava sob sua influência.

Mas ele foi eleito.

Ele foi eleito pelos egípcios por 52% dos votos, mas o problema é que ele estava dando ordens ditatoriais sobre tudo. Explorando a religião, tentou convencer as pessoas a converter tudo segundo os preceitos do Islã. A economia seguiria as regras da sharia (lei islâmica). Ele estava atendendo apenas a seus seguidores, não a todos os egípcios. Quem era muçulmano, seria atendido. Mas, quem não era ligado à Irmandade, estava fora. As pessoas começaram a se assustar com esse jeito de governar. Os principais postos de responsabilidade foram entregues a integrantes da Irmandade. Eles nos deram a impressão de que quem não seguia a Irmandade seria prejudicado.

Por isso as pessoas apoiaram o golpe militar?

As pessoas começaram a mostrar relutância quanto ao governo da Irmandade, medo de serem segregadas e não respeitadas como cidadãos. A população começou a mostrar resistência implícita e explícita e a buscar apoio das forças militares. O Exército ficou em uma situação crítica, porque não queria se envolver na política. A situação, porém, era grave. Na economia, estávamos à beira da falência, apesar de a Irmandade ter buscado alguma ajuda do Catar e da Turquia.

Mesmo assim houve o golpe.

Os egípcios conseguem distinguir os verdadeiros governantes dos falsos, aqueles que tentam tirar vantagem do Islã. O Exército se comunicou com o povo. Por isso, em junho, milhões foram às ruas. O Exército interferiu e tirou o presidente do poder. Agora, temos um governo interino e, em breve, teremos um eleito. Esse é um ponto crucial para os egípcios, para voltar à normalidade e reconstruir seu próprio Estado, sob uma Constituição. Temos de eleger um presidente que pertença aos egípcios, não somente a um setor, como a Irmandade Muçulmana. Elegeremos também novos membros do Parlamento. Tudo isso até junho. Uma vez que tivermos reconstruído nosso Estado, haverá esperança para todos nós. Já temos uma Constituição aprovada pelos egípcios.

O Egito está hoje mais estável?

As precondições para a economia de um país crescer são a estabilidade política e a segurança. Digamos que hoje nossa segurança está 70% estável, o que é muito bom. Quanto à estabilidade política, estamos no caminho. Acho que alcançamos 50%. Até junho (após as eleições) teremos alcançado o resto. Mas é claro que a economia ainda enfrenta muitos desafios.

E como o atual governo interino está lidando com eles?

O governo interino, desde que chegou ao poder, elaborou um plano para tentar elevar o crescimento de cerca de 2% para até 3,5% até o fim de junho. Na minha visão, ele só alcançará 3%, o que já é melhor que a taxa atual. Ele espera combater o desemprego e derrubar a taxa para 12,8%, o que é bom, diante das circunstâncias. Ele espera ainda reavivar os investimentos para o Egito, encorajando os países árabes. Após a saída do poder da Irmandade Muçulmana, alguns países, contrários à organização, como Arábia Saudita, Kuwait e Emirados Árabes, se sentiram encorajados a investir no Egito.

Por que?

A Irmandade Muçulmana ameaçava esses países. Uma vez que ela não está mais no poder, esses três países assinaram um pacote financeiro de ajuda à nossa economia de US$ 12 bilhões em um ano. Sem essa ajuda, estaríamos em sérios problemas, poderíamos cair de novo em distúrbios e não conseguiríamos pagar nossa dívida externa. Graças a Deus, esses países estão nos ajudando. Se você comparar, a quantia representa 4% do nosso PIB. Por isso, o Egito espera crescer os 3%.

Então há uma perspectiva positiva agora?

Essa ajuda deu esperança ao povo. O Egito ajudou esses países no passado, nos anos 50, 60, 70. Eles estão pagando de volta. O governo também está melhorando o ambiente para os investimentos, eliminando barreiras, simplificando regras e taxas, fazendo o possível para convidar esses investidores. Claro que os estrangeiros não árabes não virão agora, porque ainda não temos um governo constitucional eleito, nem Parlamento. No entanto, os países árabes tentam ajudar o mais rápido possível. Tivemos uma reunião com cerca de 500 investidores árabes .Eles assinaram alguns acordos e se comprometeram a trazer cerca de US$ 10 bilhões de dólares em investimentos no próximo ano para o Egito. Uma vez que tivermos um presidente e um Parlamento, os demais investidores virão também.

O senhor diria que esse é momento de esperança?

O governo interino está fazendo o melhor para estimular o crescimento. A maioria dos egípcios vê uma luz no fim do túnel. Os problemas são grandes, mas o próximo presidente precisa ser forte, apoiado pela Constituição, respeitar a lei e não deve dialogar apenas com um segmento da sociedade. Essa é a minha visão de democracia. Os egípcios estão esperando um super-homem como presidente. Seu trabalho será muito grande. Por isso, ele precisa dos bilhões de dólares de investimentos dos países árabes.

O senhor defende que o Egito pegue empréstimo com o FMI. As condições não serão muito duras para o país?

Enviei ao Ministério das Finanças e Investimentos um plano de ajustes econômicos e reformas a ser seguido pelo futuro governo pelo qual o Egito poderia obter bilhões de dólares em investimentos junto às instituições financeiras internacionais. Temos direito a esses empréstimos. Eu e outros assessores entregamos esses conselhos ao governo. Entendo que o FMI e o Banco Mundial não são instituições de salvação. Eu trabalhei para elas e, sim, elas são dominadas por superpotências. Mas porque o Brasil se tornou um país do G-20, assim como a China, entre outros? Não somos menos que esses países. Claro que temos de trabalhar duro, mas não somos menos. Se você for forte, será respeitado. Mas, se for fraco, não terá respeito algum. Temos de obter vantagem e recorrer à ajuda dessas instituições. Primeiro, porque somos membros originais do FMI. Segundo, porque temos crédito, não devemos nada a eles. O novo presidente precisará de muita ajuda financeira. Sabemos como escolher um presidente de maneira livre e democrática, mas ele precisa de bilhões de dólares.

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