REUTERS/Alexi Lubomirski
REUTERS/Alexi Lubomirski

A mensagem oculta no retrato real

Transparência da blusa de Meghan e o preço da roupa ampliam expectativas de reformas

Vanessa Friedman, The New York Times

26 Dezembro 2017 | 05h00

Meghan Markle, a futura mulher do homem que logo será o sexto na linha de sucessão ao trono britânico, desencadeou uma controvérsia, quando as fotografias oficiais do casal foram lançadas.

Havia dois retratos: um close-up dos dois se afagando romanticamente e o anel de noivado com diamantes cuidadosamente exposto; e um outro arranjo mais formal, com os dois sentados. O assunto foi a escolha de Meghan pela blusa usada no segundo retrato: uma camisa transparente preta bordada com folhas de ouro sobre uma longa saia com babados franzidos (Harry usa um terno azul).

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Dado que este retrato faz parte do registro para a posteridade, a blusa teve um impacto maior do que se poderia esperar. Praticamente de imediato tornou-se um símbolo de como Meghan, uma americana afrodescendente, ex-atriz e ativista, abordaria seu novo papel.

“Nunca se viu uma foto de noivado real como essa”, escreveu um comentarista. Na verdade, no contexto das fotos oficiais de noivados reais, a escolha se mostrou bastante radical. A blusa não só parecia transparente, exceto por aqueles estratégicos bordados (não era realmente transparente, provavelmente por ter sido forrado), como era um vestido formal de conto de fadas e, como roupa de alta costura, teria um preço de R$ 243 mil. Em comparação com a foto de noivado do príncipe William e Kate Middleton, que usava um belo e conservador vestido de dia branco feito por Reiss, uma etiqueta britânica – imagem que colocou Kate de imediato como uma novata na família real, acessível, com os pés no chão. 

A escolha de Meghan foi rotulada como “sensual” e “arriscada”. Na verdade, era uma proposta de diferenciação, mas nem todo mundo ficou tão emocionado. Alguns se ofenderam com a natureza transparente da blusa, que para eles não era digna o suficiente de alguém da realeza. Outros ficaram contrariados com o preço elitista do vestido. Meghan tornou-se, desde o noivado, uma promotora singular de algum produto – o casaco que usou quando ela e Harry anunciaram seus planos esgotou-se quase que imediatamente nas lojas, mas o vestido de gala está em uma categoria diferente.

Se você gosta do vestido ou não, ou se achou que era apropriado ou não, tudo isso se soma à comprovação de que Meghan tem bastante clareza quanto à natureza de sua presença. Ela não só representou respeitosamente o país que a receberá, usando todas as marcas britânicas (suéter de Victoria Beckham, vestido de Ralph & Russo) – ao contrário das marcas canadenses que preferia no passado.

Ela representa um tipo completamente diferente de integrante da realeza. Isso aumentou as expectativas por reformas e deixou os tradicionalistas nervosos. A foto de noivado não se afasta de nenhuma das reações, ressalta as duas. Também demonstra que Meghan está perfeitamente consciente de que tudo o que usa estará sob o foco das mídias sociais. 

Na verdade, não é apenas o que ela usa, mas o que qualquer pessoa à sua volta usa. Pouco antes da divulgação dos retratos, Meghan participou do almoço de Natal da rainha no Palácio de Buckingham. Outra convidada, a princesa Maria Cristina de Kent, casada com o primo da rainha, ficou sob o fogo da Reino Unido à Austrália, ao portar no casaco o que parecia com um broche Blackamoor (associada ao racismo).

A escolha do acessório foi vista como um tapa nada sutil em Meghan, que falou sobre suas experiências passadas com o racismo. Se a princesa Maria Cristina refletiu quanto ao uso de suas joias ou se era simplesmente uma escolha aleatória, a peça e a reação a ela são um sinal de que até mesmo os menores gestos terão mais importância agora que a família real se ajusta a uma identidade moderna.

Se sua futura cunhada modernizou a imagem real, de certa forma, ao derrubá-la suavemente do pedestal, Meghan tem a oportunidade e, aparentemente, a égide, para levar o caso adiante. O caminho para a informalidade da Casa de Windsor entra em uma nova etapa. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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