AP/Ivan Sekretarev
AP/Ivan Sekretarev

A morte do liberalismo

Em vários países, o autoritarismo e o nacionalismo estão em ascensão, fortalecidos pela tecnologia

* Roger Cohen, The New York Times, O Estado de S. Paulo

15 Abril 2016 | 05h00

O  liberalismo morreu. Ou pelo menos está encurralado. Triunfante há um quarto de século, quando a liberal democracia parecia ter derrotado as utopias totalitárias que cobraram tão grande tributo de sangue, agora sofre ameaças tanto internas quanto externas.

Nacionalismo e autoritarismo, fortalecidos pela tecnologia, fundiram-se para exercer novas formas de controle e manipulação dos seres humanos cuja vulnerabilidade à ganância, ao preconceito, à ignorância, à dominação, à subserviência e ao medo no fim não desapareceram com a queda do Muro de Berlim.

Com o colapso do comunismo, quando sociedades fechadas foram obrigadas a se abrir, e o surgimento de uma era de rápida globalização, enquanto os EUA passaram a ser chamados de “hiperpotência”, pareceu razoável acreditar, como Francis Fukuyama afirmou em 1989, que “o triunfo do Ocidente, da ideia de Ocidente, é palpável, em primeiro lugar, no total esgotamento das alternativas sistemáticas viáveis ao liberalismo ocidental”.

Portanto, segundo Fukuyama, a história chegou a seu ponto final com “a universalização da liberal-democracia como a forma última do governo humano”.

Era uma afirmação racional. Fazia sentido. Centenas de milhões de pessoas escravizadas no império soviético foram por fim libertadas. Elas sabiam – todo mundo sabia – qual era o sistema que melhor funcionava. O problema é que o domínio da razão nas questões humanas é sempre tênue.

Analisando a história humana, o experimento da liberal-democracia – com sua crença, derivada do Iluminismo, na capacidade dos indivíduos dotados de determinados direitos inalienáveis de forjar o próprio destino em liberdade mediante o exercício da própria vontade – não passa de um breve interlúdio.

Muito mais duradouras foram as eras da soberania infalível, do poder absoluto derivado de Deus, de dominação e servidão, e de sujeição ao que Isaiah Berlin chamou de “as forças da intolerância mística antirracional”.

Hoje, estas forças antirracionais estão em toda parte – nos EUA de Donald Trump, na França de Marine Le Pen, na Rússia de Vladimir Putin, em grande parte do Oriente Médio, na Coreia do Norte. O governo representativo sob o domínio da lei revelou-se um prato insípido para uma era que mercadeja com imagens inebriantes de poder e violência através da mídia social e dos jogos online.

Antes de Fukuyama, Berlin identificou uma debilidade potencial do liberalismo. Em seu livro A Madeira Torta da Humanidade, ele escreveu: “Uma pregação liberal que recomenda um mecanismo destinado a impedir que as pessoas se prejudiquem mutuamente, dando a cada grupo humano espaço suficiente para dar-se conta dos próprios fins idiossincráticos, únicos, particulares, sem a excessiva interferência dos fins alheios, não é um lema apaixonado destinado a inspirar os homens ao sacrifício e ao martírio e a feitos heroicos”.

Não, mas como os autores da Constituição americana sabiam, o mecanismo desta inspiração liberal é a maior esperança de que seja possível conceder aos cidadãos uma defesa duradoura contra a tirania. Mas a liberdade exige certas coisas. O liberalismo demanda a aceitação das nossas diferenças humanas e a capacidade de conciliá-las por meio de instituições democráticas. Ele exige a aceitação de múltiplas verdades, talvez incompatíveis.

Numa era de retórica e gritaria, de polarização e aviltamento, de política de varejo e da insidiosa mescla da política com o entretenimento, o surgimento de Trump é tão pouco surpreendente quanto ameaçador.

Não espanta que Putin o admire. O autoritarismo russo se resume nas armadilhas do poder e da bajulação cultivada por uma mídia servil de uma figura à imagem de um czar. Berlin notou que havia “alguma verdade” na visão do escritor conservador Joseph de Maistre, para quem “o desejo de autoimolar-se, de sofrer, de ajoelhar-se diante da autoridade, de buscar o poder pelo poder” é uma força “historicamente, ao menos, tão forte quanto o desejo de paz, prosperidade, liberdade, justiça, felicidade, igualdade”. E, portanto, a história não acaba. Ela vai e vem com seu fluxo e refluxo.

O enorme fracasso da Primavera Árabe – o maior movimento de libertação desde 1989, a tentativa dos povos árabes de se dotarem de autonomia – teve várias causas, mas uma das mais importantes foi a ausência de um eleitorado liberal nas sociedades do Egito até a Líbia.

Até um país com uma grande classe média como o Egito não se mostrou disposto a aceitar a mediação de múltiplas verdades por intermédio de instituições democráticas. Por isso, o poder voltou aos generais, e os islamistas, até mesmo os moderados, foram condenados à prisão ou pior.

Na Rússia, e agora em países da Hungria à Polônia, e na China, formas de autoritarismo estão em ascensão e o liberalismo (ou mesmo uma modesta liberalização) está recuando. No Oriente Médio, o Estado Islâmico estende sua longa sombra digitalizada.

Nas sociedades ocidentais ameaçadas por uma crescente desigualdade (a economia neoliberal também enfraqueceu as credenciais do liberalismo), o discurso político, o debate nas universidades e o palavrório da mídia social refletem uma nova impaciência com as múltiplas verdades, uma nova intolerância e a indisponibilidade às concessões que permitem o funcionamento da liberal democracia.

Quanto às sociedades ocidentais, a ameaça está dentro e fora delas. O liberalismo pode ser fraco enquanto grito de guerra, mas nada é mais importante do que ele para a dignidade e a decência humanas. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

* É COLUNISTA

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