A morte em debate

As grandes campanhas eleitorais têm a vantagem de ressaltar problemas fundamentais jamais resolvidos. É o caso das eleições presidenciais deste ano na França. A ignomínia dos atentados de Toulouse permitiu à França interrogar-se sobre assuntos capitais e jamais examinados a fundo, ou seja, a eficácia da polícia antiterrorismo, a ausência de integração dos imigrantes nos subúrbios das grandes cidades, os odores do antissemitismo, a xenofobia etc.

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

27 Março 2012 | 07h42

Uma outra questão veio à tona. Há alguns dias, multiplicam-se os cartazes nas paredes de Paris representando alguns candidatos (entre eles Nicolas Sarkozy e Marine Le Pen) num leito de hospital, entubados, claramente em coma. Com os dizeres: vamos reformar a legislação para permitir abreviar o terrível sofrimento das pessoas que agonizam, quando toda esperança de vida se esgotou?

Há 30 anos esta questão vem sendo colocada. A França jamais conseguiu dar uma resposta. Em 2005, uma lei (Léonetti) autorizou a "eutanásia passiva". A lei prevê que, no fim da vida, um gesto pode ser feito (ou ao contrário, nenhum gesto), cujo efeito será apressar a morte sem o desejo de matar.

O texto da lei foi criticado por sua "hipocrisia". É vago, impreciso e dá margem a todo tipo de interpretação. Por isso a Associação pelo Direito de Morrer com Dignidade pleiteia que a eutanásia passiva dê lugar à eutanásia ativa, ou seja o direito de abreviar voluntariamente a vida humana em determinados casos estritamente contemplados pela lei.

Todos os candidatos nas próximas eleições presidenciais foram chamados a se definir sobre o assunto. Sarkozy e Marine Le Pen, e o candidato cristão François Bayrou, declararam-se contrários à "eutanásia ativa".

A esquerda socialista, a Frente de Esquerda e os ecologistas, pelo contrário, são favoráveis a uma mudança da lei.

Entre os adversários da eutanásia ativa estão inúmeros católicos (mas não todos, há mesmo padres que defendem a eutanásia) e também redes de cuidados paliativos, como a sociedade francesa de acompanhamento e cuidados paliativos, que reúne pessoas da área médica e voluntários, para quem este debate não deve existir. Há também uma sociedade laica que prefere os sons paliativos em lugar da eutanásia. Esta sociedade chama-se "Até a morte, acompanhar a vida". / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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