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A odisseia de Assange

Mac Margolis

Há poucos dias, Julian Assange disse chega. Em uma entrevista, o foragido fundador do site Wikileaks anunciou que planejava deixar a embaixada do Equador em Londres, onde está confinado há mais de 2 anos. Não se sabe quem enjoou de quem, mas ninguém imaginou que a pequena representação diplomática, num canto discreto de Hyde Park, comportasse uma figura do vulto do criador do WikiLeaks.

Assange não disse quando nem como sairia da embaixada, onde a polícia britânica mantém vigilância dia e noite, ao custo para o contribuinte de - até agora - US$ 10 milhões. Diz-se que Assange está doente, com problemas cardíacos e hipertensão. Há 2 anos, sua vida se restringe aos poucos metros quadrados da embaixada, longe do sol e dos holofotes.

São as consequências do autoencarceramento. Acusado de agressão sexual na Suécia, Assange fugiu para Londres e apelou à Justiça inglesa. Quando o tribunal britânico se recusou a derrubar o pedido de extradição sueco, ele correu para a embaixada equatoriana, alegando perseguição política.

Para Assange, o processo sueco seria um biombo montado por Washington, que o queria preso em solo americano, para responder por crimes de espionagem e roubo de documentos sigilosos.

A tese é discutível. Sem dúvida, a procuradoria americana adoraria ter o hacker-ativista australiano em seu foro. Já convencer a Justiça sueca a abrir mão de seu réu e ainda se fazer de inocente útil no jogo da Casa Branca é uma fantasia. Assange correu muito mais risco de deportação quando correu para os tribunais da Grã-Bretanha, aliada carnal dos EUA, com tratado de extradição muito mais ameno para os americanos.

Pior para Assange. Nos dois anos em que ficou fora da pauta, o inventor do WikiLeaks se viu ultrapassado pelas manchetes. Seu informante, o soldado Bradley Manning (agora Chelsea), está preso. Surgiram outros ativistas de gabarito, como o ex-analista de segurança Edward Snowden, que em dobradinha com o jornalista Glenn Greenwald escancarou os podres da espionagem americana e sacudiu o mundo.

Assange sabe que tem poucas opções. Em seus dois anos de clausura londrina, viu o fluxo intenso de visitas célebres, como Pamela Anderson, Yoko Ono e Lady Gaga, desaguar no tédio do cárcere nobre.

A rota de fuga para Quito também deve ter perdido seu charme. Nesses 26 meses de hospedagem à equatoriana, Assange teve tempo de apreciar como sua profissão é tratada neste recanto dos Andes. O país presidido por Rafael Correa, que chamou Assange de "herói da liberdade de expressão", está no sofrível 95.º lugar entre 180 países no último Índice de Liberdade da Imprensa do grupo Repórteres Sem Fronteiras. Não é difícil imaginar como será acolhida a subsidiária latina do WikiLeaks. A Suécia ostenta a 10.ª imprensa mais livre do mundo.

Interesses. Há quem afirme que sua estadia em Londres foi apenas uma malandragem equatoriana. Afinal, Correa oferecera não uma nova pátria senão o direito de pleitear asilo - uma vez que chegasse a solo equatoriano.

No entanto, Assange sabia que dificilmente sairia de Hyde Park sem empunhar algemas. Assim, o líder andino, com seu brado antiamericano, fez uma promessa que jamais pretendia cumprir. Ainda usou Assange para irritar os gringos, sem ter de acolher seu maior inimigo da época.

Talvez a melhor solução para Assange seja mesmo se entregar às autoridades suecas. Sim, lá ele terá de se defender de acusações sérias, mas num tribunal de verdade. Uma vez lá, ele poderá retomar seu ativismo contra os Estados Unidos, para agrado do público sueco. Se alguém ainda vai se lembrar dele é outra história.

É COLUNISTA DO 'ESTADO' E

CHEFE DA SUCURSAL

BRASILEIRA DO PORTAL DE

NOTÍCIAS 'VOCATIVI'