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A raiva não será uma solução para Cuba

Cubanos no exílio têm motivos para odiar o regime dos Castros, mas deveriam colaborar com diplomacia de Obama

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ERIC ZURITA, THE WASHINGTON POST* ,
O Estado de S. Paulo

26 Março 2016 | 05h00

Numa das primeiras conversas que tive com papai por telefone depois que ele saiu de Cuba, pedi que me mandasse uma bicicleta com guarda-chuva acoplado ao selim, como eu tinha visto numa história em quadrinhos e achava que ele poderia comprar nos EUA porque então eu tinha 4 anos. O que seria impossível na terra das oportunidades?

Nunca recebi a bicicleta. E passei quatro anos da minha infância sem um pai que me ensinasse a andar nela. Meus pais eram engenheiros químicos em Cuba. Nasci em 14 de agosto de 1990, um dia depois de Fidel Castro fazer 64 anos. Minha mãe prolongou o trabalho de parto para que eu não nascesse no mesmo dia do líder revolucionário.

A União Soviética acabara de se desfazer e Fidel anunciou o início do chamado Período Especial, de racionamentos, fome e pobreza, do qual o país ainda está se recuperando. Até hoje, sempre que ouço alguém elogiar o progresso social de Cuba, seus avanços na medicina e na educação gratuitas, o que me vem à lembrança são os sanduíches de açúcar que muitas vezes comia no lanche quando criança, porque nossa família havia esgotado o que o governo garantira que nos bastaria. Lembro também de apagões de 16 horas de duração nos meses do verão abrasador, que nos impediam de ligar os ventiladores.

Em resposta, mais de 30 mil cubanos se foram, enfrentando corajosamente o Estreito da Flórida em botes infláveis. Muitos não sobreviveram. Meu pai optou pelo êxodo em 1994 e foi para Toronto para trabalhar supostamente no seu doutorado.

Meses mais tarde, pegou um carro e foi para uma cidade a oeste chamada Sarnia, onde trens de carga viajavam para os EUA por uma ferrovia subterrânea. Parou no acostamento perto dos trilhos, abriu a tampa do motor como se o carro tivesse enguiçado e começou a andar ao lado da linha sob o Rio St. Clair até chegar ao Michigan. Quando saiu do outro lado, uma picape o seguiu por algum tempo e os faróis iluminaram o caminho. “Pronto”, pensou, “agora vou ser preso. Vão me deportar”. Entretanto, conseguiu chegar ao hospital como lhe haviam informado, sentou num banco do lado de fora e esperou que a polícia o prendesse. De que adiantaria esconder-se?

Ninguém da polícia apareceu e uma enfermeira muito prestativa chamou um táxi para ele. O motorista quis ver o dinheiro antes de dirigir por mais de uma hora até a vizinha Detroit, mas meu pai estava preparado. Mostrou as notas novinhas que havia economizado para o momento, foi até o aeroporto e comprou uma passagem só de ida para Miami, onde nós tínhamos uma espécie de rede social. Ninguém pediu passaporte ou visto.

Emigrar de um país onde há um ditador tem poucas vantagens, mas uma delas é o direito de pedir asilo político, o que papai fez para obter os vistos para mim e minha mãe. No dia 24 de outubro de 1997, finalmente cheguei aos EUA e assim pudemos nos reunir.

Sei muito bem que tivemos sorte. Cresci nos EUA, pude ingressar na faculdade estadual que escolhi e me formei num curso de criação literária, onde escrevia sobre qualquer assunto que desejasse.

Mas fiquei furioso quando vi Tony Castro, o filho mais novo de Fidel, num terno muito caro, usando seu iPhone 6 no estádio, no jogo da seleção cubana contra o Tampa Bay Rays em Havana, na terça-feira. Nossa família sofreu muito. E ele, assim como o resto de sua família de oligarcas, provavelmente jamais conhecerá isso.

Sei que não sou a única pessoa que sofre. “Choro toda vez que escrevo sobre Cuba”, disse Dan Le Batard, da ESPN. “É uma dor que herdei dos meus avós e dos meus pais que a experimentaram diretamente.” O tio de Le Batard passou dez anos na prisão por suas convicções políticas. Sua mãe foi perseguida pelo mesmo motivo. Sua família se despedaçou.

Unidade. Outros cubano-americanos falam dessa dor, principalmente os que, como eu, conhecem o regime somente pelas lembranças da infância e pelo mal que infligiu aos pais. É uma raiva peculiar, um sentimento de impotência por saber que a família sofreu por nós. Mas a dor profunda, como o amor incondicional, pode cegar.

O presidente Obama deu grandes passos e ignorou a retórica que os Castros usam há anos. Qual seria a alternativa à sua diplomacia? Uma outra Baía dos Porcos? Novas sanções? Recusar envolver-se ou estender-nos a mão? Apesar das imagens mostradas durante a visita de Obama a edifícios coloniais pintados em cores vivas, entre multidões sorridentes, o povo de Havana vive no meio da destruição, em prédios decrépitos que se esboroam como castelos de areia à passagem dos furacões e do tempo. 

As pessoas não dispõem de remédios básicos. Os preços dos alimentos chegam às alturas. O leite está se tornando cada vez mais escasso. Há montanhas de lixo em Havana. Essas coisas não melhorarão se continuarmos apenas com nossa atitude virtuosa, indignados, se fecharmos os olhos ao sofrimento dos nossos compatriotas.

Em 2017, os EUA terão um novo presidente, assim como Cuba, no ano seguinte. Um presidente que não será um Castro governará o país pela primeira vez em quase 60 anos. Obama preparou o terreno para o progresso. Não será um caminho fácil. Mas os cubanos, algum dia, poderão comunicar-se livremente com o mundo e escolher seu chefe de Estado. Continuarei na firme esperança de que isso ocorra até que provem que estou errado e espero que o 45º presidente dos EUA não mude esse rumo.

Quero que o regime pare de prender jornalistas e dissidentes? Amarei ver pai regressar pela primeira vez à terra onde nasceu e visitar sua mãe de 95 anos em Vedado sem ter medo de ir para a cadeia? Sem dúvida. Mas nada disso será possível se as relações entre os EUA e Cuba continuarem como eram. Os que, como eu, tiveram sucesso aqui somos mais do que gratos aos EUA pela nossa liberdade, mas em vez de cultivar a dor que nossa ilha decadente nos causou, devemos pensar em primeiro lugar no sofrimento dos que nunca saíram dela e continuam suportando mentiras e opressão.

Meu pai me explicou isso quando telefonei para ele para falar do artigo de Le Batard. Fiquei emocionado com as palavras do escritor. Senti sua ira refletida nos meus complexos sentimentos em relação a Cuba.

Meu pai não entendeu assim. Ele disse que os exilados cubanos cujas famílias sofreram profundamente são os últimos que deveriam influenciar a política americana em relação a Cuba, porque a dor os cegou. Ou, como Obama disse em seus comentários na coletiva à imprensa, na segunda-feira: “O futuro de Cuba será decidido pelos cubanos e por ninguém mais”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

* É CUBANO, EMIGROU PARA OS EUA AOS 7 ANOS E ATUALMENTE É MESTRANDO EM LITERATURA NA UNIVERSIDADE JOHNS HOPKINS

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