REUTERS/Eric Thayer
REUTERS/Eric Thayer

A realidade sobre a imigração ilegal nos EUA

Apesar das informações divulgadas por Trump, estatísticas mostram números muito diferentes sobre a travessia na fronteira com o México

Vivian Yee, Kenan Davis e Jugal K. Patel / The New York Times, O Estado de S.Paulo

07 Março 2017 | 15h07

Estimativas apontam que há quase 11 milhões deles, seja trabalhando em campos americanos, na construção de arranha-céus ou em restaurantes, seja nos centros de detenção e nos tribunais de imigração.

Na visão da população, os imigrantes ilegais são hispânicos, em sua maioria mexicanos, e cruzaram a fronteira sul do país em segredo. Para os defensores e advogados, são famílias e trabalhadores que aceitam ocupações que nenhum americano quer, ficam longe de problemas, e tentam viver suas vidas nos EUA buscando apenas uma condição de vida melhor e mais segura para eles e seus filhos.

Para a Casa Branca, eles são nada menos do que criminosos que ameaçam os bairros americanos, roubam trabalho, acabam com os recursos e exploram a generosidade dos americanos. Em resumo, são pessoas que deveriam, e de fato serão, expulsas do país.

Talvez não haja símbolo mais poderoso de como os americanos associam facilmente a imigração ilegal ao México do que o muro que o presidente dos EUA, Donald Trump, propôs construir ao longo da fronteira sul do país. Contudo, muitos dos imigrantes ilegais presentes no território americano não são mexicanos; cerca de um quarto deles nem sequer é hispânico.

 

 

Depois de México, Guatemala, El Salvador e Honduras, a maior parte dos imigrantes ilegais são chineses (aproximadamente 268 mil), onde há uma barreira menos literal: a China é um dos 23 países que não cooperam com as deportações.

De acordo com muitos advogados de imigrantes e liberais, a maioria dos ilegais são produtivos, cumprem as leis, trabalham muito, vivem silenciosamente, pagam impostos e sustentam famílias.

Estatísticas mostram que muitos ilegais se encaixam nesse perfil. Cerca de 60% dos imigrantes sem documentos têm vivido no país por ao menos uma década, segundo o Instituto de Políticas Migratórias. Apenas uma pequena parte foi condenada por delitos graves ou leves. Entretanto, na visão da administração Trump, o simples fato de estar no país sem autorização é uma violação da lei.

Histórico criminal

Trump já disse em ocasiões anteriores que os mexicanos que entram ilegalmente nos EUA são “estupradores” e “assassinos”. Essas pessoas existem, mas não são maioria. O Instituto de Políticas Migratórias estimou em cerca de 820 mil - de um total de 11 milhões de pessoas - o número de indivíduos condenados por algum crime. Além disso, 300 mil - menos de 3% dos 11 milhões - cometeram algum tipo de violação.

 

 

Ainda assim, a gestão Trump afirmou que continuará priorizando as deportações daqueles com históricos criminais sérios, contrariando a política instaurada pela gestão do ex-presidente Barack Obama. As novas diretrizes também miram nos imigrantes cujos delitos resumem-se ao fato de estarem nos EUA sem permissão ou cometerem crimes menores que ainda os habilitam a trabalhar, dirigir sem licença ou usar um número falso de Seguro Social.

Exceder o tempo do visto

Alguns optam por longas jornadas a pé, trem, barco ou ajuda de traficantes de pessoas para cruzar a fronteira dos EUA. Mas a maioria dos imigrantes chega durante a noite e sem dar um passo sequer.

De 2007 a 2014, mais pessoas entraram para o grupo de imigrantes ilegais ao permanecerem nos EUA após seus vistos temporários de visitante expirarem do que por cruzar a fronteira de fato, de acordo com um relatório do Centro para Estudos de Imigração.

Uma estimativa parcial do governo divulgada em 2016 apontava que 416.500 indivíduos, cujos vistos de negócios ou turismo havia expirado no ano anterior, ainda estavam no país. Isso sem contar as pessoas que chegaram aos EUA com vistos de estudantes ou permissões de trabalho temporárias.

Esses números convencem alguns conservadores de que o governo federal precisa se preocupar mais com a quantidade de pessoas que abusam de seu status legal temporário do que com a segurança na fronteira.

Travessias repetidas

Uma razão pela qual Trump e muitos defensores das restrições migratórias veem a fronteira com o México como perigosamente porosa é que centenas de imigrantes são condenados todos os anos por tentar entrar ilegalmente nos EUA mais de uma vez após terem sido deportados. Somente no ano de 2015, cerca de 15,7 mil foram condenados, segundo a Comissão de Condenação dos EUA.

Quase um quarto dos indivíduos que foram pegos na fronteira sul do país naquele ano já havia se arriscado da mesma forma ao menos uma vez, de acordo com um relatório do Departamento de Prestação de Contas do Governo. O número de pessoas acusadas de tentar entrar no país mais de uma vez caiu mais de um quarto nos últimos cinco anos.

Requerentes de asilo

Desde 2009, requerentes de asilo oriundos do México e da região norte da América Central, como Honduras, El Salvador e Guatemala, atravessaram a fronteira em um ritmo inédito, fugindo da violência e da pobreza. Muitos deles são menores que viajam sozinhos ou mulheres com crianças.

Aproximadamente 409 mil imigrantes foram pegos tentando cruzar ilegalmente a fronteira sul dos EUA durante o ano fiscal de 2016, o que representa um aumento de 23% com relação ao ano anterior, segundo estatísticas do governo.

Muitos solicitam asilo, mas em muitos casos, os pedidos são negados. Enquanto aguardam o andamento do processo - que pode levar anos - eles normalmente ficam autorizados a se movimentar de forma livre pelo país.

Isso significa que eles podem desaparecer do alcance dos oficiais de imigração. O sistema tem enfurecido aqueles que apoiam medidas migratórias mais duras, promovendo a proposta de Trump de deter os requerentes de asilo ainda na fronteira ou forçá-los a aguardar no México.

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