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AP Photo/Gerald Herbert

A relação com Cuba após Obama

Políticas do presidente impõem escolha sobre América Latina a sucessor eleito em novembro

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The Economist,
O Estado de S. Paulo

20 Março 2016 | 05h00

A cautela é, evidentemente, uma das diretrizes da política externa de Barack Obama. Mas há um lugar no mundo em que o presidente dos Estados Unidos age com particular intrepidez. 

A visita que ele faz entre hoje e amanhã à Cuba de Raúl e Fidel Castro seria impensável para todos os seus nove antecessores. É o desfecho de um lance ousado que viabilizou o restabelecimento das relações diplomáticas entre os dois países, congeladas havia 54 anos, e começou a levantar o embargo econômico imposto à ilha. 

A aposta de Obama é de que a reaproximação com a ilha terá efeitos muito mais eficazes que o isolamento, contribuindo de maneira mais efetiva para o fim do regime comunista. Mas não é só isso. 

A restauração dos laços com Cuba servirá também para puncionar um abscesso que envenena as relações dos Estados Unidos com o conjunto da América Latina. Depois de um período em que os chineses pareciam estar roubando o lugar dos americanos naquilo que no passado alguns chamavam de “quintal dos americanos”, é possível tornar esses laços mais estreitos e mutuamente proveitosos - desde que o próximo ocupante da Casa Branca se empenhe em aproveitar a oportunidade. Tendo em vista o clima rancoroso que vigora na campanha eleitoral americana, é grande o risco de que ele, ou ela, deixe esse bonde passar.

Como mudar Cuba. A aposta de Obama está correta. O embargo americano a Cuba é de uma inutilidade gritante. Trata-se de um anacronismo oriundo da Guerra Fria que acarreta mais prejuízos para os cubanos - e americanos - do que para os irmãos Castro, que o utilizam para justificar seu Estado policial e a situação de penúria que o comunismo impõe à ilha.

A reaproximação ocorre num momento em que Cuba passa por mudanças, ainda que em velocidade semelhante à dos “almendrones”, os nostálgicos - e remendados -, carrões americanos da década de 1950 que, para encanto dos turistas, ainda hoje circulam pelas ruas de Havana e outras cidades da ilha. 

Graças a reformas que Raúl Castro começou a implementar em 2008, quando substituiu o irmão na presidência, cerca de 1 milhão de cubanos (20% da força de trabalho) hoje fazem parte de um incipiente setor privado. As receitas obtidas com o turismo, em parte absorvidas por pequenas empresas, e os recursos enviados por cubanos no exílio vêm crescendo, coincidindo com a redução da ajuda oferecida pela Venezuela.

Oficialmente, as reformas de Raúl correspondem a uma “atualização do socialismo”, não devendo ser confundidas com uma aceitação do capitalismo e muito menos da democracia. A conclusão que os críticos de Obama tiram disso é a de que o presidente deu passe livre aos Castros. Mas seria muita ingenuidade esperar que Cuba virasse uma democracia da noite para o dia. Como o regime não dá mostras de estar prestes a ruir, a tendência é que eventuais mudanças políticas ocorram gradualmente e sejam promovidas a partir de dentro. 

Raúl pretende deixar a presidência em 2018. Seu sucessor mais provável, Miguel Díaz-Canel, nasceu depois da revolução de 1959 e terá de melhorar a qualidade de vida dos cubanos se quiser contar com seu apoio - coisa que exigirá mais reformas econômicas. A esperança é que, com mais prosperidade e menos isolamento, sobrevenha a abertura política.

A reaproximação com os EUA pode acelerar esse processo. Para muitos cubanos, Obama simboliza as oportunidades que a liberdade oferece. O contato entre dois países próximos, por meio do comércio, do turismo, do reencontro de familiares, só pode intensificar o desejo de mudança.

Reencontro. A estratégia de Obama em relação a Cuba tem ainda outra motivação. O embargo tem servido como fonte simbólica de atrito nas relações dos Estados Unidos com seus vizinhos. Ao longo dos últimos 20 anos, políticos latino-americanos de todas as colorações ideológicas vêm manifestando sua oposição à medida. 

Todos os países da região têm laços diplomáticos e comerciais com Cuba. O embargo é visto como símbolo do imperialismo americano. Até os latino-americanos conservadores o veem com maus olhos.

Em tempos mais recentes, houve um distanciamento entre os Estados Unidos e a América Latina. Washington tem outras preocupações, do Oriente Médio à Ásia. Por sua vez, diversas economias latino-americanas se beneficiaram do apetite da China por recursos minerais, combustíveis e alimentos. O ciclo político levou ao poder uma safra de líderes de esquerda, com forte sentimento antiamericano, que viram na China uma alternativa atraente aos rigores do Fundo Monetário Internacional e às lições que Washington tenta dar - às vezes hipocritamente - sobre drogas e direitos humanos.

Isso não é bom para os americanos. Se, aos olhos da política externa dos Estados Unidos, a América Latina é a região mais desimportante do planeta, para o dia a dia dos americanos propriamente ditos não há região mais importante que ela. 

As duas metades em que se dividem as Américas são interligadas por relações comerciais, investimentos, turismo e vínculos familiares. A América Latina é destino de 25% das exportações dos Estados Unidos, porcentual similar ao absorvido pela Ásia. México, Chile e Peru participam da Parceria Trans-Pacífico, a tentativa que Obama fez de estipular as regras para o comércio e os investimentos no século 21.

A flexibilização das relações com Cuba pode ajudar a cicatrizar a ferida. Ela ocorre num momento em que a esquerda latino-americana está perdendo terreno, tanto em razão do fim do boom das commodities quanto pelos erros cometidos por suas lideranças. Mauricio Macri, o novo presidente argentino, a quem Obama visitará depois de Havana, representa uma centro-direita pragmática, com mais afinidade com os Estados Unidos.

Em seu segundo mandato, Obama se animou com os ganhos que aparentemente poderiam ser trazidos por um estreitamento dos laços com a América Latina. Os Estados Unidos lançaram uma iniciativa destinada a reduzir a violência associada ao tráfico de drogas na América Central. Ajudaram o governo da Colômbia nas negociações de paz com as Farc, que acontecem em Havana. O acordo definitivo não será fechado antes de 23 de março, data limite estabelecida pelos dois lados. Mesmo assim, é possível que a presença de Obama na ilha enseje um aperto de mão simbólico. 

Além da reaproximação com Cuba, a reforma das leis de imigração, ainda que frustrada, e a retirada da malfadada guerra às drogas da pauta de prioridades dos Estados Unidos para a região ajudam a aplacar antigos ressentimentos entre os latino-americanos.

Pensando no amanhã. Não está afastado o risco de que o sucessor de Obama imprima uma mudança nessa trajetória. A ameaça mais óbvia vem do favorito a encabeçar a chapa republicana, Donald Trump, cuja ideia de construir um muro ao longo da fronteira com o México e exigir que os mexicanos paguem pela obra é uma afronta a um dos mais importantes parceiros comerciais e políticos dos Estados Unidos. 

A xenofobia bombástica do magnata levou outros pré-candidatos republicanos nas prévias do partido a endurecer propostas já bem pouco tolerantes para a questão da imigração. Os democratas são menos xenófobos que Trump, mas nem por isso deixam de ser tentados por seu protecionismo.

A diplomacia de Obama impõe uma escolha para o próximo presidente americano: dar as costas para a América Latina e alimentar seus ressentimentos e deficiências, ou ajudar a transformá-la na sala de visitas do continente, uma região formada por democracias cada vez mais prósperas, ligadas por laços econômicos e políticos. A viagem do presidente a Havana é um passo bem-vindo nessa direção. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

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