A revolução descontrolada

Desde o dia 10 de dezembro, quando o adoentado Hugo Chávez embarcou para Havana para nunca mais ser visto em público, as dúvidas sobre a saúde do venezuelano só aumentam. Enquanto os devotos do líder bolivariano confiam na sua plena recuperação do câncer que o levou quatro vezes à mesa de cirurgia, os céticos já redigem seu obituário.

MAC MARGOLIS,

03 Março 2013 | 02h05

Entre o jubileu e o jazigo, corre um Orinoco de possibilidades. Já a saúde da economia venezuelana não deixa mistério nenhum. Depois de mais de uma década de bonança, a maior petropotência sul-americana está raspando o barril.

Seguem alguns sintomas preocupantes: a dívida externa venezuelana chegou a US$ 108 bilhões (192% acima do passivo de 2008); os gastos públicos subiram 26% acima da inflação, em 2012, ano da reeleição chavista; a inflação ruma para 33%, a maior da região; o dólar não para de subir; a fuga de capital saltou de US$ 61 bilhões, em 2008, para US$ 156 bilhões.

A Venezuela derrapa ao mesmo tempo em que a vizinhança decola, aproveitando o sopro da economia global revigorada. Destaque para a economia peruana que, na mão do repaginado Ollanta Humala, desviou do acidentado percurso bolivariano, abraçou a sobriedade fiscal e saudou o capital privado. O Peru deve crescer 6,2% em 2013. Na mesma toada seguem Colômbia e Chile, que devem crescer 5% neste ano, seguidos por México (3,5%) e Brasil (3%).

O Equador, é verdade, segue crescendo (5%, em 2012), impulsionado pelo petróleo e mineração. Só que a opção do presidente Rafael Correa pelo modelo chavista deixa cicatrizes. O investimento externo, que poderia oxigenar a prospecção de petróleo, patina em US$ 1 bilhão ao ano. O Peru atraiu sete vezes mais dólares, em 2012, e a Colômbia, 13 vezes mais.

A diferença? Mais do que recursos nacionais ou carisma populista, são leis transparentes, regras estáveis e tribunais isentos. Há quem teça loas ao nacionalismo do chavismo e aponte os bons índices sociais nas latitudes bolivarianas. Só que essa é uma tendência continental, desde o Chile, conservador, ao Brasil, que tempera seu capitalismo de mercado com a mão visível do Estado empreendedor.

Hoje, a Venezuela arrisca desperdiçar seus ganhos sociais no altar do chavismo sem Chávez. Usada como caixa eletrônica para bancar a agenda bolivariana, a petroleira PDVSA perdeu-se na administração politizada. Além de prospectar, hoje constrói casas, importa comida e planta juta. Desde 1998, faturou US$ 700 bilhões em petróleo, mas hoje, pasmem, produz 1 bilhão de barris a menos.

E lá se vai a herança social. A população carente vê os salários comidos pela inflação e passa horas em filas à caça de produtos básicos. Falta pão e só a bandidagem prospera. Com 118 assassinatos para cada 100 mil habitantes, Caracas é a capital mais violenta do continente. Hoje, com o presidente sumido, a revolução venezuelana segue desgovernada e o país pode amargar uma recessão.    

* Mac Margolis é colunista do 'Estado', correspondente da 'Newsweek' e edita o site www.brazilinfocus.com

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