REUTERS/Ammar Abdullah
REUTERS/Ammar Abdullah

A sinistra lógica por trás do ataque químico na Síria

Ação seria parte de estratégia para aumentar ataques contra civis

Anne Barnard, The New York Times

07 Abril 2017 | 05h00

WASHINGTON - A situação estava boa para o presidente da Síria, Bashar Assad. Com a ajuda da Rússia, ele consolidou seu poder, passou a ter mais controle sobre os rebeldes e os EUA tinham acabado de declarar que sua saída do poder não era prioridade. Então, por que Assad arriscaria tudo revoltando o mundo ao atacar civis com gás sarin, matando dezenas de pessoas - entre elas, muitas crianças? Por que ele causaria o mais letal ataque químico desde 2013 - quando quase houve retaliação dos EUA, evitada por um acordo de último minuto?

Um dos principais argumentos dos aliados de Assad é que um ataque como esse seria uma "loucura", como afirmou o analista iraniano Mosib Naimi ao site estatal russo Sputnik. Especialistas dizem que não foi apenas um ato inexplicável, mas sim parte de uma estratégia de aumentar ataques contra civis.

Recentemente, como a batalha pendeu para seu lado, o governo sírio adotou uma política de buscar a vitória total, tornando a vida o mais miserável o possível para quem vivesse em áreas fora de seu controle. Forças do governo têm arrebanhado rivais derrotados de todo o país para a Província de Idlib, onde o ataque químico ocorreu. Ainda estão presentes na região grupos ligados à Al-Qaeda, o que serve como desculpa para o governo bombardear sem se preocupar com a segurança dos civis.

O diretor do departamento de saúde de Idlib, dr. Monzer Khalil, defende que essa tática é para demonstrar a impunidade do governo e desmoralizar oponentes. "Nos faz sentir como derrotados", disse Khalil, cujas gengivas começaram a sangrar depois de ter sido exposto às vítimas do ataque na terça-feira. "A comunidade internacional vai ficar observando o que está ocorrendo sem fazer nada", afirmou.

Críticos do ex-presidente Barack Obama afirmam que a sua decisão de não "traçar um limite" após os ataques químicos em 2013 convenceu o Assad que seu governo poderia se safar com qualquer coisa. "Desde o 'sinal verde', Assad sabe que um ataque em larga escala a civis é ruim para relações públicas no curto prazo, mas um ótimo ativo político no longo prazo", opina Jihad Yazigi, um economista da oposição.

Esse sentimento parecia ter aumentado depois que Trump assumiu o cargo de presidente. Ele chegou a declarar a intenção de trabalhar ao lado da Rússia - e talvez mesmo ao lado de Assad - contra o EI. Aumentaram as expectativas de que a comunidade internacional aceitaria "relegimar" Assad. Isso mudou ontem.

A queda de Idlib causou outra reviravolta: a entrada total da Rússia no conflito, reforçando o poder de fogo do governo sírio. A Rússia disse que entrou para combater o Estado Islâmico, mas direcionou a maioria de seus ataques ao oeste, onde está Idlib e onde insurgentes rivais ameaçam mais urgentemente o governo de Bashar Assad.

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