REUTERS/Cristobal Saavedra Vogel
REUTERS/Cristobal Saavedra Vogel

A traição de Kuczynski

O fujimorismo tem agora o controle do Parlamento e também do Executivo

Mario Vargas Llosa *, O Estado de S.Paulo

01 Janeiro 2018 | 03h00

O presidente do Peru, Pedro Pablo Kuczynski, escapou por milagre, em 21 de dezembro, de ser destituído por "permanente incapacidade moral" por um Congresso no qual uma maioria fujimorista havia derrubado cinco de seus ministros e mantinha seu governo paralisado.

A acusação contra ele tinha como base confissões da construtora brasileira Odebrecht de que, nos anos em que Kuczynski foi ministro da Economia e primeiro-ministro, a empresa havia pago a uma de suas consultorias a quantia de US$ 782.207,28. Na hora da votação, dividiram-se os parlamentares da Ação Popular (Apra), da esquerda, e – ó surpresa! – os próprios fujimoristas, dez dos quais, encabeçados por Kenji, filho de Fujimori, se abstiveram. Os que apoiaram a moção ficaram oito votos abaixo dos 87 necessários para destituir o presidente. 

Essa sessão foi precedida por um debate nacional no qual todas as forças democráticas do país rechaçaram a tentativa fujimorista de depor um chefe de Estado que, embora tendo pecado por negligência e conflito de interesses ao não documentar legalmente sua separação da empresa que prestou serviços à Odebrecht quando era ministro, tinha direito a uma investigação judicial imparcial na qual pudesse apresentar sua defesa ao que parecia ser mais uma tentativa do fujimorismo de voltar ao poder.

Vale recordar que Kuczynski venceu as eleições presidenciais "raspando" e graças ao fato de todas as forças democráticas terem votado nele, incluindo a esquerda, acreditando em sua firme e repetida promessa de que, se chegasse ao poder, não haveria indulto para o ex-ditador condenado a 25 anos de prisão por seus crimes e violações dos direitos humanos. 

Houve manifestações a favor da democracia e muitos jornalistas e políticos independentes se mobilizaram contra o que consideravam (e era) uma tentativa de golpe de Estado. Num discurso emocionado (pelo qual o felicitei), o presidente pediu desculpas por aquela "negligência" e assegurou que, no futuro, deixaria sua passividade e seria mais enérgico na atuação política. 

O que poucos sabiam é que, ao mesmo tempo em que se fazia de vítima do fujimorismo, Kuczynski negociava às escondidas com o filho do ditador e com o próprio ditador um sujo acordo: conceder indulto presidencial ao réu por "razões humanitárias" em troca dos votos que evitaram sua defenestração. Isso explica a misteriosa ausência dos dez fujimoristas que salvaram o presidente.

Vilanias fazem parte das mazelas da vida política de quase todas as nações, mas não creio que haja muitos casos em que um candidato as perpetre de uma só vez em tão pouco tempo. Os testemunhos são arrasadores: jornalistas valorosos, como Rosa María Palacios e Gustavo Gorriti, que se desdobraram para defender Kuczynski contra a moção de vacância do poder, e o ex-primeiro-ministro Pedro Cateriano, que também batalhou nos meios de comunicação para impedir a deposição, receberam garantias do próprio Kuczynski, dias ou horas antes de ser anunciado o indulto, de que isso não ocorreria, que os rumores contrários eram meras ações psicossociais dos adversários. 

Desse modo, aqueles que votaram nas últimas eleições presidenciais em Kuczynski acreditando que em seu mandato não haveria indulto para o ditador que assolou o Peru, cometendo crimes terríveis contra os direitos humanos e roubando descaradamente, contribuíram, sem saber ou querer, para levar de novo ao poder Fujimori e suas hostes. 

Pois, não nos enganemos: o fujimorismo tem agora, graças a Kuczynski, não apenas o controle do Parlamento, com os 40% de eleitores que nas eleições respaldaram Keiko Fujimori, mas controla também o Executivo, pois Kuczynski, com seu pacto secreto, não somente se utilizou do ex-ditador, mas se tornou seu cúmplice e refém. Daqui para a frente, deverá servi-lo, ou continuarão caindo ministros ou então o defenestrarão. E, dessa vez, não haverá democratas que se mobilizarão para defendê-lo. 

A traição de Kuczynski permitirá que o fujimorismo se torne o verdadeiro governo do país e volte a aprontar, a menos que a divisão dos irmãos, com partidários de Keiko e de Kenji (este, o favorito do pai), se mantenha e se agrave. Mas, serão eles tolos a ponto de manter a rivalidade agora que têm condições de recuperar o poder? Pode ser, mas o mais provável é que, estando Fujimori solto para exercer sua liderança (tão logo foi anunciado o indulto, sua saúde melhorou), os irmão se unam. Se persistirem em suas querelas, o poder poderá lhes escapar das mãos.

Por enquanto, o projeto fujimorista de afastar os promotores e juízes que poderiam se aprofundar na investigação, já insinuada pela Odebrecht, de que Keiko Fujimori também recebeu dinheiro do celebérrimo grupo empresarial para suas campanhas eleitorais, pode ter êxito. É bom lembrar que o avassalamento do Poder Judiciário foi uma das primeiras medidas de Fujimori quando deu o golpe de Estado em 1992. 

O fujimorismo já controla direta ou indiretamente um bom número de veículos de comunicação do Peru, mas alguns, como o jornal El Comercio, lhe escaparam das mãos. Até quando conseguirá esse diário manter a imparcialidade democrática imposta pelo novo diretor desde que assumiu o cargo? Não é preciso ser adivinho para saber que o fujimorismo, mais valente com a recuperação de seu caudilho, não descansará enquanto não conseguir substituir esse diretor por alguém menos independente e objetivo. 

Após o atual descalabro democrático, em que condições chegará o Peru às eleições presidenciais de 2021? O fujimorismo as espera com impaciência, já que é mais seguro governar diretamente que por meio de aliados de lealdade duvidosa. Kuczynski não poderia traí-los também? As próximas eleições são fundamentais para que o fujimorismo consolide seu poder, como naqueles dez anos em que gozou de absoluta impunidade por suas ações. 

No discurso em que pediu desculpas, Kuczynski chamou de "erros e excessos" os assassinatos coletivos, torturas, sequestros e desaparecimentos de pessoas cometidos por Fujimori. E esse lhe deu imediatamente razão ao pedir perdão aos peruanos que, sem querer, "havia decepcionado". Só faltou se abraçarem. 

Felizmente, a realidade costuma ser mais complicada que os esquemas e projeções que resultam das intrigas políticas. Será que passou pela cabeça de Kuczynski que o indulto iria incendiar o Peru, onde, no momento em que escrevo, as manifestações de protesto se multiplicam, apesar da repressão policial? 

Nunca imaginei que, por trás do jeito bonachão de tecnocrata benigno de Kuczynski se ocultasse um pequeno Maquiavel hábil em intrigas, duplicidades e mentiras. A última vez que nos vimos, em Madri, eu lhe disse: "Tomara que você não passe para a história como o presidente que anistiou um assassino e ladrão".

Kuczynski não assassinou ninguém e não o julgo capaz de roubar, mas estou certo de que, se chegar a entrar para a história, será pela infame credencial de haver traído os milhões de compatriotas que o levaram à presidência. / Tradução de Roberto Muniz

* É PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA

© 2017 EDICIONES EL PAÍS, SL. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.