EFE/Cristian Hernández
EFE/Cristian Hernández

A Venezuela agoniza

As façanhas do chavismo são a mais alta inflação do mundo e um PIB que, segundo o Fundo Monetário Internacional, cairá 7,4%

Mario Vargas Llosa*, O Estado de S.Paulo

27 Agosto 2017 | 03h00

O porta-voz do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) e prefeito de Valladolid, Óscar Puente, declarou que há na Espanha um “superdimensionamento” do que ocorre na Venezuela, porque quando um país vive o drama que a nação bolivariana atravessa a culpa não é apenas de um governo, mas uma “responsabilidade coletiva dos venezuelanos”. 

Tal afirmação revela ou uma total ignorância da tragédia da Venezuela ou um fanatismo ideológico quadrado. É claro que é preciso mais que um indivíduo para desonrar um partido, sobretudo quando há socialistas que, com Felipe González à frente, têm mostrado uma solidariedade atuante com os valentes democratas venezuelanos, os quais, apesar dos assassinatos, da tortura e da repressão enlouquecida desatada por Maduro e sua quadrilha governante, impediram até agora que o regime converta o país numa segunda Cuba. O fato, no entanto, de entre atuais dirigentes do PSOE existirem socialistas capazes de deformar de maneira tão extrema a realidade venezuelana sem que sejam corrigidos ou desautorizados pela direção partidária é algo que denuncia a inquietante deriva de um partido que contribuiu de modo tão decisivo para a democratização da Espanha após a transição. 

A verdade é que a Venezuela foi, por 40 anos, uma democracia exemplar e um país muito próspero ao qual imigrantes do mundo todo iam em busca de trabalho, e tanto os governos “adecos” (da Ação Democrática) quanto os “copeianos” (do Copei – Comitê de Organização Política e Eleitoral Independente) combateram sem trégua as ditaduras que ainda prosperavam no restante da América Latina. 

O presidente Rómulo Betancourt tentou convencer os governos democráticos do continente a romper relações diplomáticas e comerciais e submeter a boicote sistemático todas as tiranias militares ou populistas a fim de acelerar sua queda. Não foi respaldado na ocasião, mas, várias décadas depois, sua generosa iniciativa acaba de ser reivindicada pela Declaração de Lima, na qual, convidados pelo Peru, todos os grandes países da América Latina – entre eles Brasil, Argentina, México, Colômbia, Chile, Uruguai e cinco outros da região –, além de Estados Unidos, Canadá, Itália e Alemanha, decidiram isolar a ditadura de Maduro e não reconhecer as decisões da espúria Assembleia Constituinte com a qual o regime tratou de substituir o Parlamento legítimo em que a oposição detinha a maioria das cadeiras. 

O porta-voz socialista também parece não ter tomado conhecimento de que as Nações Unidas denunciaram, por meio de seu Alto-Comissariado para os Direitos Humanos, as torturas a que a ditadura venezuelana vem submetendo os opositores há vários meses, que incluem choques elétricos, espancamentos sistemáticos, pendurar prisioneiros pelos punhos durante horas, asfixia com gases, estupros, além de prisões arbitrárias e invasão e destruição de residências de suspeitos de colaborar com a oposição. 

Mais de 5 mil pessoas já foram presas sem passar por tribunais. As forças de segurança assassinaram meia centena nas últimas manifestações e os bandos de malfeitores do regime, os chamados “coletivos”, outras 27. 

O assédio sistemático aos adversários da ditadura estende-se, claro, a suas famílias, que perdem empregos, são discriminadas nos racionamentos de comida e vítimas de nacionalizações e expropriações. E a corrupção no governo alcança extremos vertiginosos, como acaba de denunciar a ex-procuradora Luisa Ortega Díaz no Brasil, revelando, entre outros horrores, que o segundo homem do chavismo, Diosdado Cabello, recebeu US$ 100 milhões de suborno da Odebrecht por meio de uma empresa espanhola.

Mas, provavelmente, com toda a crueldade caracterizada por essas violações dos direitos humanos que são o pão de cada dia de centenas de milhares de infelizes venezuelanos, nada é tão terrível quanto o empobrecimento vertiginoso que a política econômica insensata de Chávez e seu herdeiro acarretou para o povo venezuelano em seu conjunto. Um dos países mais ricos do mundo, que deveria ter níveis de vida como os da Suécia ou da Suíça, padece hoje de índices de sobrevivência das mais empobrecidas nações africanas: a pobreza na Venezuela atinge 83% da população. 

As façanhas do chavismo são a mais alta inflação do mundo – prevê-se que atingirá 720% neste ano – e um PIB que, segundo o Fundo Monetário Internacional, cairá 7,4%. Isso significa uma sociedade na qual só escapa da fome e da falta de praticamente tudo – começando com remédios e divisas e terminando com papel higiênico – o punhado de privilegiados da nomenclatura, com um bom número de generais entre eles. A Venezuela tem mais generais que os EUA e muitos foram comprados, sendo a eles confiado o manejo das grandes operações do narcotráfico. Essa elite pode adquirir alimentos, medicamentos, roupas, etc., a peso de ouro no mercado negro. A gente comum, no entanto, vê cair dia a dia seu nível de vida. 

Quantas centenas de milhares de venezuelanos foram obrigados a emigrar em consequência dos desmandos econômicos e sociais do regime? É difícil saber com exatidão, mas os cálculos são de que pelo menos 2 milhões que, agoniados com a insegurança, a pobreza, o terror, a fome, a sinistra perspectiva do agravamento da crise, se espalharam pelo mundo em busca de melhores condições de vida ou, pelo menos, de um pouco mais de liberdade. Não há precedentes na história da América Latina de um país a que a demagogia estatista e coletivista de um governo tenha destruído econômica e socialmente como ocorreu na Venezuela. 

O mais extraordinário é que a política de destruir as empresas privadas, agigantando o setor público de maneira elefantina e pondo cada vez mais travas ao investimento estrangeiro, fosse levada a cabo quando todo o mundo socialista, da desaparecida URSS à China, do Vietnã a Cuba, começava a dar marcha à ré após o catastrófico fracasso econômico da socialização forçada da economia. Que ideia passou pela cabeça de tais ignorantes? Da ideia utopia do paraíso socialista, uma fabulação que, pelo visto, apesar de todos os desmentidos que a realidade lhe inflige, sempre volta a levantar a cabeça e a seduzir as massas ingênuas – sempre as primeiras vítimas desse terror. 

É verdade que a Venezuela da democracia, contra a qual se rebelou o comandante Chávez, havia sido vítima da corrupção e, com a abundância de recursos daqueles anos – os anos da Venezuela “saudita” – surgiram fortunas ilícitas à sombra do poder. Mas aquele poder tinha compostura dentro da legalidade democrática e, em todo caso, os eleitores podiam castigar os governantes corruptos nas eleições, que então eram livres. Agora, não são mais, e sim manipuladas por um regime que, nas últimas eleições, por exemplo, inventou 1 milhão de votos a mais do que os que teve, segundo a própria empresa contratada para fiscalizar o pleito. 

Apesar disso, a oposição inscreveu candidatos nas eleições regionais de governadores convocadas por Maduro. Há alguma possibilidade de que sejam eleições de verdade, em que vençam os mais votados? Não creio, e nada me agradaria mais do que estar equivocado. Mas, depois da grotesca patranha da “eleição” da Assembleia Constituinte e da defenestração manu militari da procuradora-geral Ortega, alguém acredita que Maduro se deixe derrotar nas urnas? Ele já cuidou das últimas imposturas eleitorais, tirando a máscara e mostrando a verdadeira condição autoritária do regime, precisamente porque sabe que tem contra si a maioria do país. Na triste situação a que chegou a Venezuela, é pouco menos que impossível, a menos que ocorra uma fratura traumática no próprio regime, que o país recupere a democracia de maneira pacífica, por meio de eleições limpas.

TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

* É PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA

© 2016 EDICIONES EL PAÍS, SL. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.