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ANDREI NETTO / ESTADÃO

A vitrine da extrema direita francesa

Marine Le Pen faz propaganda de Hénin Beaumont, cidade no norte do país governada pela Frente Nacional

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Andrei Netto, Enviado Especial / Hénin Beaumont, França ,
O Estado de S.Paulo

17 Abril 2017 | 05h00

HÉNIN BEAUMONT, FRANÇA - Enquanto líderes dos maiores partidos da França aguardarão o resultado das eleições presidenciais de domingo em Paris, a Frente Nacional (FN), de extrema direita, liderada por Marine Le Pen, reunirá seus militantes na primeira cidade governada pela legenda nesta década. Hénin Beaumont, a 30 quilômetros de Lille, na fronteira com a Bélgica, é a vitrine da candidata nacionalista na disputa pelo Palácio do Eliseu. 

O Estado, que na última semana cruzou a França, esteve em Hénin Beaumont para ouvir a opinião de seus habitantes sobre a administração da FN. Falar sobre a guinada à extrema direita nem sempre é assunto bem recebido pelos moradores. Vários revelam rancor por se sentirem estigmatizados por terem eleito o prefeito Steeve Briois.

Em 2014, Hénin Beaumont se transformou em símbolo. Foi a primeira cidade francesa conquistada pela FN após a surpreendente vitória do partido em Toulon, em 1995. Hoje, a cidade de 30 mil habitantes, que vivia da exploração de minério, atividade já extinta, é o porta-estandarte de Le Pen.

No município, a estratégia de marketing para melhorar a imagem da FN funcionou como em nenhum outro lugar do país. Além do sucesso do prefeito Briois, Le Pen já usou da popularidade do partido na cidade para se candidatar à Assembleia Nacional, em 2012. Em 2015, transformou mais uma vez o município em QG durante sua candidatura ao comando da região de Nord-Pas-de-Calais e da Picardie.

A escolha de Hénin Beaumont serve à estratégia da FN. O slogan de Marine na corrida ao Palácio do Eliseu é “Em nome do povo”. A mensagem tenta contrapor as classes populares às elites políticas de Paris. 

Florão da bacia mineira de Pas-de-Calais, Hénin Beaumont perdeu sua maior fonte de riqueza nos anos 70, empobreceu, endividou-se e enfrentou escândalos de corrupção. Hoje, sob a administração de Briois, está pagando suas contas e estabilizando as finanças, em uma gestão bastante popular.

“O prefeito trouxe muitas coisas boas. Havia denúncias de corrupção. Agora, as contas foram equilibradas, novos serviços foram criados e baixaram os impostos. Se são medidas eleitoreiras, eu não sei”, conta uma agente de turismo que não vota na FN e ainda hesita entre o centrista Emmanuel Macron e o radical de esquerda Jean-Luc Mélenchon. “Tem muita gente a favor de Le Pen aqui, mas a maioria não comenta.”

Vários moradores que votarão em Le Pen de fato pediram ao Estado que não publicasse seus nomes, nem autorizaram fotografias. “Não podemos dar o nome ou tirar fotos porque senão nos apontam na rua”, disse uma funcionária pública. 

Seu marido, aposentado, admite que vai votar na extrema direita. “A FN é um terror na França, mas acho que muita gente tem medo da mudança”, disse ele, que afirma querer acabar com a alternância entre republicanos, de direita, e socialistas, de esquerda, iniciada em 1981. “Estou certo que Marine Le Pen vai chegar ao segundo turno, mas depois vão se reunir para votar por Macron e evitar que ela seja eleita presidente.”

Aposentado por invalidez, Géralde Buchatau não só não tem vergonha de aparecer como é militante ativo da FN. Todos os dias, sai pela região para colar cartazes de Marine Le Pen. “Tem gente que tira sarro, tem gente que xinga. Mas eu não estou nem aí”, garante. “É a imigração que me incomoda. Há imigrantes demais. Eles estão por todo lado e pensam que estão em casa. Não é normal. Por isso eu acho que vamos ganhar. Se não ganharmos, vai ser bem perto.”

Consciente do apoio que tem na região, Marine Le Pen decidiu passar o dia da eleição na cidade, onde votará e esperará o resultado. À rádio Europe 1, de Paris, que revelou a decisão da candidata, um dirigente da FN explicou o porquê da iniciativa com o usual tom populista do partido. “Todo o sistema estará em Paris. Marine estará mais uma vez ao lado dos esquecidos.”

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