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Abre-alas à reflexão

Um casal de amigos que vive na Malásia e está em férias na América do Sul se encantou com os blocos de rua, a multidão alegre e pacífica, a diversidade, o coro sincronizado ao qual se uniram no refrão: “Corta o cabelo dele! Corta o cabelo dele!” A Malásia é um país de maioria muçulmana. No idioma local, o malaio, Alá significa Deus, mesmo para cristãos, budistas e hindus que compõem a minoria religiosa do país. Como no cristianismo, não deve ser pronunciado em vão. 

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Adriana Carranca

06 Fevereiro 2016 | 09h10

No Brasil do Carnaval, Alá é cantado há décadas em marchinhas profanas como “Allah-lá-ô”, de 1939, e o profeta Maomé, confundido com o tal Zezé da cabeleira que parece transviado: “Mas isso eu não sei se ele é. Corta o cabelo dele! Corta o cabelo dele!”

A representação de Maomé em uma charge motivou o atentado à redação do semanário satírico francês Charlie Hebdo, que deixou 12 mortos em Paris, reacendendo o debate sobre liberdade de expressão. Em que momento o humor se torna ofensivo? Quando a piada acoberta o preconceito e quando revela a ausência dele a ponto de ser possível brincar? Qual o limite da sátira?

Escrita em 1960 por João Roberto Kelly, “Cabeleira do Zezé” foi alvo de processo movido por um brasileiro muçulmano no ano passado e indeferido pela Justiça fluminense. Mais antiga, “Allah-lá-ô“, de Haroldo Lobo e Antônio Nássara, teve a contribuição de David Nasser, filho de imigrantes libaneses. A letra original evocava não só Alá, mas Maomé: “Chegou a nossa caravana / À frente vem Maomé” 

Nasser é coautor de “Nega do Cabelo Duro”. Kelly escreveu também “Maria Sapatão”. Repetimos seus refrões com naturalidade porque o preconceito está internalizado ou porque não enxergamos nada de errado na negritude e no homossexualismo? O que fomenta a islamofobia, o Alá cantado nas marchinhas ou o evocado em atentados como o de Paris? 

Nos EUA, aprendi que “negro” era xingamento e “preto”, um termo agressivo – o correto seria afro-americano. Estou do lado da luta contra qualquer forma de discriminação, mas ter crescido num país de negros e imigrantes não me permitiu engolir tão facilmente a questão. Eu me perguntava por que o negro que nasceu nos EUA é afro-americano e o branco, apenas americano. Seriam os negros menos americanos do que os brancos? Ou os brancos se consideram assim, esquecendo-se de que, exceto pelos poucos descendentes das tribos quase dizimadas de nativos, todo americano é meio alguma outra coisa? 

O que nos revela uma sociedade que enxerga na designação de alguém como “negro” algo ofensivo, e não como “branco”? O preconceito está na palavra ou no que ela significa para quem as pronuncia? Por que é tão diferente descrever alguém como “aquela jovem loira e magra” e outra como “aquela velha negra e gorda”? A resposta é simples: porque ainda acreditamos que há algo de errado e feio em ser velho, negro ou gordo.

No berço do politicamente correto pré-Obama, durante seis meses em Houston, não vi nem sequer uma vez brancos e negros na mesma mesa. Havia os bairros, empregos e restaurantes “de negros” e “de brancos”.

Mas não se iluda. A gente por aqui acha tudo lindo e até se mistura, frequenta roda de samba, visita o barracão da escola, sobe o morro, divide a avenida, tira selfies juntos, que beleza, canta e pula o carnaval. Mas, quando o negro pobre resolve dar um rolezinho no shopping e viaja de avião, aí são outros quinhentos.

Onde está o preconceito? No Brasil que samba e é feliz, e depois se esquece disso até o próximo carnaval? Nos EUA politicamente corretos? Na Europa xenófoba do humorismo que choca? Ou em cada um de nós? Não tenho resposta exata. Apenas suspeitas, que procurei colocar aqui, como um abre-alas para a reflexão. Bom Carnaval e até a volta!

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