Acordo aumenta diferenças de Turquia e Brasil com os EUA

Atritos com Washington põem em risco aceitação do País como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU

Gustavo Chacra, CORRESPONDENTE / NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

19 Maio 2010 | 00h00

A Turquia busca se impor como um líder no Oriente Médio, depois de anos desperdiçados na sua fracassada tentativa de integrar a União Europeia. Já o Brasil, no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, quer se posicionar como um líder global, e não apenas regional.

As ambições paralelas de Lula e do premiê turco, Recep Tayyip Erdogan, que são classificados como "almas gêmeas" por alguns analistas internacionais, tiveram apoio de Washington em algumas questões, como o envolvimento do Brasil no Haiti e nas tentativas da Turquia de negociar um acordo de paz entre sírios e israelenses, em 2008.

Em outras, houve divergências, como nas duras críticas da Turquia a Israel, um dos principais aliados americanos no mundo, durante a guerra em Gaza, e na recusa do Brasil em reconhecer o atual governo hondurenho de Porfírio "Pepe" Lobo, aceito pela Casa Branca.

O envolvimento de Brasília e Ancara na questão iraniana intensificou as diferenças entre os dois países e os EUA. Os americanos passaram todo o primeiro semestre tentando conseguir apoio para uma nova resolução com sanções ao regime iraniano. Simultaneamente, os governos de Lula e Erdogan tentavam encontrar uma saída diplomática.Nesta semana, tanto os EUA como o Brasil e a Turquia, atingiram seus objetivos, um dia depois do outro.

Na segunda-feira, o governo americano se irritou com o acordo acertado por brasileiros e turcos com Teerã. Ontem, foi a vez de o chanceler brasileiro, Celso Amorim, dar uma entrevista irritado para a rede de TV CNN. Na conversa, ele criticou as iniciativas americanas de levar adiante a proposta de resolução, afirmando que, com o acordo na mesa, o Brasil não deve apoiar novas sanções.

Pontos em comum. "O envolvimento do Brasil e da Turquia é um interessante e significante acontecimento. Os brasileiros são líderes do sul, enquanto a Turquia integra a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e é o país muçulmano que serve de ponte entre o Ocidente e o mundo islâmico, entre a Europa e o Oriente Médio. Os dois acreditam que podem conseguir um compromisso do Irã. No G-20, esses países provaram que podem ter peso em questões econômicas. Agora, querem a mesma influência na área da não-proliferação", afirmou James Acton, do Carnegie Endowment for International Peace.

"Brasileiros e turcos tentam se encaixar como protagonistas nesse novo mundo", afirmou ao Estado o analista Trita Parsi, diretor do Conselho Nacional Iraniano-Americano. "Com a vantagem, no caso do Brasil, de ter uma boa imagem externa, especialmente em países subdesenvolvidos e emergentes." Segundo Parsi, os turcos ainda são vistos com ressalvas no Oriente Médio pelo seu passado otomano e pela rivalidade com a Pérsia, atual Irã.

O risco, para o Brasil, é de deteriorar seu papel no Ocidente e nunca ter sua cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU. A Turquia, por sua vez, já está na Otan e parece ter abandonado seus sonhos europeus. Além disso, os turcos estão em posição estratégica: têm fronteira com o Irã e com o Iraque, onde há milhares de militares americanos.

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