AP Photo/Cliff Owen
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Acusados de assédio sexual, republicano e democrata renunciam nos EUA

Deputado Trent Franks e senador Al Franken anunciaram na quinta-feira que deixarão seus cargos em razão das denúncias contra eles; na segunda-feira, John Conyers - mais antigo membro do Congresso - também renunciou ao mandato pelo mesmo motivo

O Estado de S.Paulo

08 Dezembro 2017 | 11h17

WASHINGTON - O deputado republicano Trent Franks, investigado pelo Comissão de Ética da Câmara dos Estados Unidos por sugerir que duas de suas funcionárias atuassem como barriga de aluguel para ele, anunciou na quinta-feira, 7, sua renúncia.

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"Assumo a responsabilidade total e pessoal pelas maneiras que abordei um tema que, sem que eu soubesse até recentemente gerou desconforto em algumas pessoas", disse Franks, um dos congressistas mais conservadores da Câmara, através de comunicado.

"Quero deixar uma coisa completamente clara. Absolutamente nunca intimidei fisicamente, coagi ou tentei fazer nenhum tipo de contato sexual com nenhuma funcionária no Congresso", acrescentou.

Trent Franks fez este esclarecimento "dada a natureza de numerosas acusações e informações (de assédio sexual) em todo os Estados Unidos nas últimas semanas".

Deputado pelo Arizona desde 2003, Franks confessou em seu comunicado que sua mulher e ele enfrentaram problemas de fertilidade e sofreram três abortos antes de recorrerem a uma barriga de aluguel para conceber seus dois filhos, que são gêmeos e nasceram em 2008.

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Depois disso, segundo Franks, o casal continuou com o desejo de ter pelo menos mais um filho. "Devido à minha familiaridade e experiência com o processo de sub-rogação, claramente me tornei insensível em como a conversa de um tema tão pessoal poderia afetar outros", afirmou.

Antes do anúncio de sua renúncia, que entrará em vigor no próximo dia 31 de janeiro, o Comissão de Ética da Câmara tinha anunciado a abertura de uma investigação contra ele por "participar de uma conduta que constitua assédio sexual".

Outros casos

Também na quinta-feira o senador democrata Al Franken anunciou sua renúncia, curvando-se à pressão dos colegas de partido após ser acusado de beijar e tocar pelo menos oito mulheres sem consentimento.

Franken, de 66 anos, um ex-comediante que foi visto como uma estrela em ascensão no Partido Democrata, disse no plenário do Senado que deixará o Congresso em algumas semanas.

“Eu sei no meu coração que nada que eu fiz como senador trouxe desonra para esta instituição”, disse Franken. “No entanto, hoje estou anunciando que nas próximas semanas vou renunciar como membro do Senado dos Estados Unidos.”

Franken é um dos vários americanos proeminentes na política, mídia e entretenimento a ser acusado nos últimos meses de assédio sexual e má conduta. “Algumas das alegações contra mim simplesmente não são verdadeiras. Outras me lembro muito diferentemente”, disse Franken.

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"Vou sair agora, quando um homem que se orgulha de agredir mulheres sexualmente ocupa o Salão Oval", acrescentou, referindo-se ao presidente republicano Donald Trump.

A saída do democrata de Minnesota apresenta uma chance para os republicanos recuperarem uma cadeira que perderam quando Franken venceu as eleições em 2008, e para fortalecer a sua pequena maioria do Senado de 52 a 48.

A eleição para sucedê-lo, no entanto, não será realizada até novembro de 2018. Antes disso, o governador democrata de Minnesota, Mark Dayton, nomeará alguém para ocupar seu lugar, assegurando que os democratas mantenham a cadeira por enquanto.

“Ainda não decidi minha nomeação para preencher esta vaga. Espero tomar, e anunciar, minha decisão nos próximos dias”, disse Dayton em um comunicado.

No início da semana, outro congressista democrata, John Conyers, anunciou que não tentará a reeleição nas eleições de 2018, após mais de 50 anos no Legislativo por uma série de acusações de abuso sexual.

"Estou me aposentando", disse Conyers, de 88 anos, à estação de rádio local de Detroit, distrito do estado de Michigan que representa desde 1965 na Câmara, negando-se a usar o termo "demissão".

Falando de um hospital onde estaria se tratando de complicações relacionadas ao estresse, o mais antigo membro do Congresso garantiu que as denúncias "não são verdadeiras" e não podia explicar sua origem.

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A congressista Sheila Jackson Lee leu uma carta de Conyers a seus colegas, na qual explica que ele notificou o presidente da Câmara, Paul Ryan, e a líder democrata, Nancy Pelosi, que deixava seu assento vago.

"Fui ensinado por uma grande mulher, minha mãe, a honrar as mulheres", escreveu Conyers. "Dadas as circunstâncias de que não posso ter garantido o meu direito a um processo justo e junto com minhas atuais condições de saúde, assim como para preservar meu legado e bom nome, estou me aposentando", continuou.

Foi uma rápida e impressionante queda para um dos pioneiros dos direitos civis no país, que trabalhou com Martin Luther King Jr. e contratou em sua equipe legislativa um ícone dos direitos civis, Rosa Parks.

Mudanças

Muitos legisladores, homens e mulheres, consideram que o Congresso dos Estados Unidos se encontra em um momento de transição, no qual cada um deve adotar, sem a mínima margem de ambiguidade, uma política de tolerância zero com qualquer comportamento inadequado - ainda mais nos casos de assédio, ou de agressão sexual.

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Por isso, na quarta-feira, em menos de 24 horas, 32 dos 48 senadores democratas pediram a saída de Al Franken. O movimento foi lançado por um grupo de senadoras, depois da revelação de um novo testemunho contra ele. 

"Vivemos uma enorme mudança cultural", disse a senadora democrata pela Califórnia Dianne Feinstein, de 84 anos. "Essas coisas que aconteciam, há anos, e pelas quais as mulheres tinham medo de agir, já não dão medo. As mulheres vão falar."

O Congresso ainda é, porém, uma instituição machista. As mulheres são, hoje, apenas 20% dos membros do Legislativo. Há 20 anos, eram apenas 12% e, há 30, 5%.

Nesse sentido, a senadora Kirsten Gillibrand foi clara: "Chega", afirmou. "O país precisa dessa conversa. É um erro estabelecer alguma diferença entre agressão sexual, assédio sexual, ou gesto fora de lugar. É preciso estabelecer uma linha vermelha e dizer que nenhum desses comportamentos é aceitável", completou. / REUTERS, EFE e AFP

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