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Advogado mexicano sem documentos ajuda imigrantes nos EUA

César Vargas consegue trabalhar no país em razão de um decreto assinado por Obama e vê futuro incerto sob a presidência de Trump

O Estado de S. Paulo

13 Fevereiro 2017 | 16h45

NOVA YORK - César Vargas chegou a Nova York aos cinco anos, depois de cruzar a fronteira com o México por baixo de uma cerca. Hoje, aos 33 anos, é advogado e defende os imigrantes que não têm documentos, como ele, na turbulenta era Trump.

"Eu sei que algum dia prestarei juramento como cidadão americano. Mas não preciso de um papel que me diga que sou americano. Eu sou, eu vou lugar pelo direito de todos de conseguir seu sonho americano", afirmou o advogado à agência AFP.

Depois de graduar-se em Direito,  Vargas entrou em uma batalha legal de quatro anos para poder exercer sua profissão. Há um ano conseguiu e se tornou o primeiro advogado abertamente ilegal de Nova York. "Foi uma grande vitória. O Estado de Nova York enfrentou o governo federal e disse que não importava meu status migratório, que eu podia ser advogado", conta.

Vargas cresceu em uma família humilde da periferia de Puebla, no centro do México. Lembra que muitas vezes só tinham café e pão doce para comer. Com ele, eram oito filhos.

Alguns anos depois de enviuvar, sua mãe, Teresa, ficou sabendo que quatro de seus filhos, que já estavam nos Estados Unidos, estavam dormindo na praia, sem teto, e decidiu imigrar com os menores para ajudá-los.

"Ainda me lembro de nosso último dia no México. Minha mãe foi me buscar na escola e nos levou à catedral de Puebla para rezar, e disse: 'Deus, cuide de nós'. Tenho uma foto diante da catedral. Minha mãe guardava numa bolsa de plástico, na qual cabia nossa vida".

O começo não foi fácil. No Brooklyn, Teresa, que é analfabeta, cozinhava, vendia comida, cuidava de crianças e catava latas que depois vendia por cinco centavos para reciclar.

Vargas cresceu e viu como muitos advogados enganavam os imigrantes com falsas promessas de documentos e honorários extorsivos. "Foi quando decidi defender a mim mesmo, não ficar dependente. Preisava contar minha história", comentou.

Em 2010, ele decidiu revelar que não tinha documentos, justo em um evento para defender a reforma migratória no Congresso americano. "Isso me fez entender o poder de minha história. Deixei de me sentir envergonhado por não ter documentos. Eu me senti liberado. Este sou eu. Não tenho que me esconder. Senti que devia ser ativista e ajudar a outros como eu", explica.

Mas seu caso mais importante, que é a razão de sua vida, é conseguir documentos para sua mãe, que já tem mais de 70 anos.

Eleição. Na campanha eleitoral, Vargas foi assessor do ex-pré-candidato democrata Bernie Sanders. Agora, ele não sabe o que Trump fará exatamente - o magnata prometeu deportar milhões de imigrantes ilegais e ordenou construir um muro com o México. Com as regras mudando rapidamente para refugiados e imigrantes de sete países muçulmanos, Vargas diz que já se prepara para o pior.

Codiretor da Dream Action Coalition, uma associação de luta para dar aos indocumentados um caminho para a cidadania, o mexicano elaborou um plano de emergência para imigrantes que forem detidos. "Meu principal trabalho é que possam entender seus direitos, que não se deixem vencer pelo medo, que estejamos unidos nos próximos quatro anos", afirma.

Hoje Vargas pode trabalhar legalmente graças a um decreto conhecido como DACA, que o ex-presidente Barack Obama assinou em 2012, antes de sua reeleição, que concedeu a milhares de jovens uma permissão de residência e trabalho de dois anos, renovável.

"Não sabemos o que acontecerá com Trump, se o DACA será eliminado. Mas independente do que aconteça, vamos continuar lutando pelo direito de permanecer no país que é o nosso lar", garante. "Minha mãe me ensinou que o sonho americano não é um carro da moda, uma casa grande. É abrir a porta para muitas pessoas, sem se importar com seu status migratório ou sua religião", conclui. /AFP

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