Afeganistão realiza sua primeira eleição presidencial

A primeira eleição direta para presidente do Afeganistão, neste sábado, será um experimento histórico com a democracia depois de mais de 20 anos de guerras e ruína nesta país localizado numa das encruzilhadas da Ásia, entre Paquistão, China, Irã e o antigo império soviético. Embora a ONU considere o país pronto para o voto, a violência continua: na quarta-feira, último dia da campanha eleitoral, o candidato a vice na chapa do presidente interino Hamid Karzai, Ahmed Zia Massood, escapou por pouco de um atentado, atribuído a contrabandistas de drogas. A papoula, matéria-prima da heroína, é cultivada em partes do país. Milhares de seções eleitorais, comandadas por mesários treinados às pressas, abrirão na manhã de Sábado para os 10,5 milhões de afegãos que se alistaram para votar. Forças afegãs, dos Estados Unidos e da Otan acompanharão o pleito de perto. Karzai é o franco favorito para vencer a eleição e conquistar um mandato de cinco anos à frente do país. Ele concorre com outros 15 postulantes, entre líderes tribais que comandam suas próprias milícias particulares, intelectuais e uma única mulher, a médica Masooda Jalal. O principal adversário de Karzai é o ex-ministro da Educação do governo provisório, Yunus Qanooni, da etnia tajique, que compõe cerca de 30% da população. Diversos grupos étnicos dividem o Afeganistão, sendo que a maioria da população (cerca de 35%) pertence à etnia pashtun, a mesma do presidente interino. Outro importante candidato é o líder militar Abdul Rashid Dostum, da etnia usbeque, um veterano da invasão russa - ele lutou contra e favor dos soviéticos - e da guerra contra o Taleban. Embora Kazai seja o franco favorito, o grande número de candidatos poderá levar a uma pulverização do voto e à necessidade de um segundo turno de votação. Muitos pashtuns no sul do país, área ainda envolvida em conflitos com os remanescentes do Taleban, não se alistaram para votar. Além disso, a tradição e os costumes impediram o registro eleitoral de muitas mulheres. A eleição é um passo importante na reconstrução da sociedade afegã, depois de décadas de conflito, primeiro com a invasão soviética de 1979, a guerra de 1985 a 1989 contra a ocupação, a guerra civil de 1992 a 1996 - que terminou com a vitória de um grupo de fanáticos religiosos, o Taleban - e a guerra dos EUA contra o Taleban, após os atentados de 11 de setembro de 2001. A ameaça de violência é constante. Além do recente atentado contra o vice de Karzai, mais de uma dezena de funcionários envolvidos no processo eleitoral já foram mortos. O próprio presidente escapou de alguns atentados durante a campanha. Além dos talebans e dos traficantes de drogas, as milícias particulares de poderosos líderes regionais - que ajudaram na guerra contra o Taleban, mas que agora relutam em entregar as armas e submeterem-se à autoridade do governo central - podem ter motivos para sabotar o pleito.

Agencia Estado,

08 Outubro 2004 | 16h45

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