Afegão leva família ao Paquistão e volta para lutar

O afegão Nasshulah atravessou a fronteira pelo posto de Spin Buldek-Chaman nesta terça-feira com um caminhão, duas carroças e 35 pessoas de sua família. Mas ele não ficaria em Chaman. No mesmo dia, à noite, tomaria o caminho de volta para Kandahar, de onde partiu no domingo, para juntar-se aos mujahedines talebans. "Volto hoje mesmo para lutar pelo meu povo e pelo Islã", disse Nasshulah, em pashtu, à Agência Estado. "Tenho dois filhos que ficaram em Kandahar para lutar pela jihad (guerra santa) e vou combater ao lado deles." Nasshulah trabalhava até sábado numa plantação de uvas nas proximidades de Kandahar. Mas decidiu retirar a família do Afeganistão por causa dos ataques aéreos, que foram intensos sobre a cidade na semana passada. Kandahar é o quartel-general do Taleban e a cidade onde vivem o chefe supremo do regime, o mulá Mohammed Omar, e os principais líderes da milícia que adota a interpretação literal do Alcorão como princípio legal e impõe essa interpretação à maior parte do Afeganistão. "Kandahar tem vários edifícios destruídos, e as bombas estão sendo lançadas contra hospitais e escolas", prosseguiu Nasshulah. "Não estão atacando alvos militares, mas sim a população civil. Já mataram mais de 400 civis em vilas inteiras que foram destruídas por eles." Ele relatou que vários conhecidos seus morreram ou ficaram gravemente feridos durante os bombardeios. "Eu era amigo de muitas pessoas que morreram. Outras muitas pessoas que morreram eram amigos e parentes dos meus amigos e parentes. As perdas civis foram muitas, e eles (os norte-americanos e britânicos) estão usando armas novas e potentes para massacrar a população civil. As bombas estão caindo sobre Kandahar há duas semanas, causando um barulho intenso de explosões e iluminando o céu como fogos de artifício. As mulheres, velhos e crianças estão assustados." O afegão afirmou que já é um combatente taleban veterano. Com um rifle Kalashnikov ajudou o Taleban a resistir a uma ofensiva das tropas de Ahmed Shah Massud - hoje agrupadas na Aliança do Norte - sobre Kandahar, no início dos anos 90. "Vou para a jihad outra vez, e outra vez vamos vencer o inimigo", assegurou. Nasshullah disse também que, no caminho para Chaman, viu várias casas destruídas e muitos afegãos deixando suas casas e rumando na direção do Paquistão: "Aquelas pessoas que estão lá (retidas do outro lado da fronteira) são o dobro das que conseguiram chegar do lado de cá". Indagado pela AE sobre se tinha algum abrigo garantido para sua família no Paquistão, Nasshullah afirmou que não. "Vou deixá-los aqui para que procurem abrigo entre os irmãos pashtus de Chaman. Até quando? "Alá, o poderoso, é quem dirá. Vou para o combate, combaterei para livrar o Afeganistão das injustiças que estão sendo cometidas contra o meu país e lutarei até a morte, se isso for necessário, para que toda a minha família possa voltar para a nossa terra e viver lá com segurança." Leia o especial

Agencia Estado,

24 Outubro 2001 | 22h59

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.