AFP PHOTO / Guillermo Arias
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Afetados por terremoto no México perdem esperança e desconfiam das autoridades

Uma semana depois do terremoto de 7,1 graus na escala Richter que deixou 326 mortos, socorristas continuam buscas por sobreviventes e vítimas em prédios colapsados na capital do país; parentes protestam contra a omissão das autoridades locais

O Estado de S.Paulo

26 Setembro 2017 | 11h17

CIDADE DO MÉXICO - Uma semana após o terremoto de 7,1 graus na escala Richter que deixou 326 mortos no México, a esperança de encontrar vida entre os escombros se esgota e as tensões aumentam em meio a acusações de negligência de autoridades por trás do colapso de alguns edifícios.

O prefeito da capital mexicana, Miguel Mancera, disse à rede de televisão local que as equipes de resgate continuam trabalhando em cinco pontos, mais precisamente no centro e no sul. A maioria deles se concentra no setor Roma, onde um edifício de sete andares desabou.

Depois que a chuva obrigou a suspensão dos trabalhos de centenas de socorristas, a tensão voltou a aumentar quando pessoas que diziam ser parentes dos desaparecidos exigiram informações.

"Queremos informação. Estamos sendo enganados. Ontem queriam me entregar um corpo que não era de minha sobrinha, já a encontrei no Semefo (serviço médico legal)", disse uma mulher que afirmou ser tia de uma das vítimas.

A Defesa Civil contabiliza cerca de 40 famílias que buscam os entes queridos que estavam ali no momento do terremoto, pouco depois do meio-dia da terça-feira passada. Ao menos 100 parentes completaram seis dias alojados perto do imóvel destruído, mesmo sob chuva.

"Só nos dizem mentiras, que os vão tirar de lá, que estão trabalhando, e nada", disse Anel Jiménez, comerciante de 42 anos e prima de Martín Estrada, um contador preso nos escombros. 

As autoridades não informaram nas últimas horas se ainda esperam encontrar sobreviventes, mas um socorrista mexicano comentou que ainda há esperança de se encontrar pessoas com vida.

"Ninguém do governo veio dar a caras, mandam funcionários de baixo escalão, que andam sempre com o capacete limpo e os sapatos lustrados. É gente que só vem assistir a dor alheia", acrescentou Jiménez.

Veículos da mídia local denunciaram que a escola do sul da cidade, onde morreram 19 crianças e 7 adultos, teria utilizado documentação falsa para poder funcionar.

O prefeito de Mancera, o ministro da Educação e a subprefeita da zona onde fica o colégio Enrique Rébsamen trocaram acusações sobre a instância que teria responsabilidade direta pela eventual violação das normas.

"Se for confirmado, seria muito grave", disse o ministro Aurelio Nuño à rede Televisa e garantiu que seu gabinete abrirá uma investigação.

A maioria de escolas da capital recebeu autorização para continuar operando após o terremoto do dia 7 de setembro, de magnitude 8,2, que devastou o sul do país, mas deixou a capital ilesa.

Desconfiança

Mais de 9.000 imóveis foram vistoriados em toda a cidade. A grande maioria já está habitável, cerca de 700 precisam de algum tipo de reparo e 300 apresentam problemas graves. Neste último caso, será avaliado se essas construções serão derrubadas ou se suas estruturas, reforçadas, informou Mancera.

Em Tlalpan, no sul da cidade, nos destroços de um edifício desabado a desconfiança em torno de autoridades e políticos também prevalecia. "Os partidos não podem tirar proveito da nossa situação", disse María Angélica Molina, de 63 anos, que vivia com seu marido no segundo andar e está abrigada na casa de amigos. 

O poderoso sindicato patronal mexicano Coparmex se pronunciou sobre a necessidade de que governo e classe política mostrem "integridade na reconstrução", pedindo que se impeçam as vias de lucro com os trabalhos de assistência e reconstrução.

"De nenhuma maneira toleraremos que os funcionários (do governo) e os políticos se promovam com a ajuda que generosamente demos aos cidadãos", disse a Coparmex.

Difícil retomar normalidade

Pouco a pouco, a cidade tenta voltar ao seu ritmo de vida, retomando parcialmente as aulas nas escolas e nas universidades, enquanto algumas empresas e repartições públicas trabalham com equipes reduzidas.

Na Torre Mayor, um dos edifícios mais altos da capital, com 225 metros de altura e 59 andares, os luxuosos e modernos escritórios ainda funcionavam bem abaixo de sua capacidade. "Temos medo. Na sexta-feira muitos não quiseram vir. Lhes demos a opção de trabalhar em casa", disse David González, um contador de 42 anos que trabalha no décimo andar.

Sua empresa não pode parar, pois as operações em outros países dependem da equipe no México. González diz que entre seus companheiros o impacto do terremoto é grande: três perderam a casa, uma perdeu a irmã e outra o filho, no colégio Rébsamen.

No meio da emergência, um alarme falso de bomba forçou a retirada de 3.000 trabalhadores da sede central da petroleira estatal Pemex, aumentando o nervosismo.

Até a noite de segunda-feira, foram contabilizados 326 mortos no terremoto: 187 na Cidade do México, 74 no Estado de Morelos, 45 em Puebla, 13 no Estado do México, seis em Guerrero e um em Oaxaca, segundo boletim atualizado da Defesa Civil federal. / AFP

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