Ações militares da Rússia na Síria são 'receita para desastre', afirma Obama

Em Paris, presidente russo Vladimir Putin discutiu com François Hollande a possibilidade de uma transição política em Damasco, mas não houve acordo sobra saída de Assad

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

03 Outubro 2015 | 02h02

PARIS - O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, afirmou ontem que a ação militar iniciada pela Rússia na Síria na quarta-feira é uma "receita para o desastre". O líder americano referiu-se às suspeitas de que os bombardeios russos tenham como alvo não apenas o Estado Islâmico (EI), mas grupos rebeldes moderados que combatem o regime de Bashar Assad.

"Não transformaremos a Síria em uma 'guerra por procuração' entre EUA e Rússia. Isso não é uma espécie de torneio de xadrez entre superpotências", acrescentou Obama.

A coalizão internacional liderada por Washington que bombardeia posições do EI na Síria e no Iraque exortou ontem o governo da Rússia limitar seus ataques em território sírio. Em um comunicado conjunto, os governos dos EUA, França, Grã-Bretanha, Alemanha, Turquia, Arábia Saudita e Catar acusaram Moscou de "fomentar o extremismo e a radicalização".

As críticas foram feitas no dia em que o presidente russo, Vladimir Putin, participou em Paris de uma reunião de cúpula organizada pelo francês François Hollande, com a participação da chanceler da Alemanha, Angela Merkel, e de Petro Poroshenko, presidente da Ucrânia. O objetivo oficial do encontro era discutir a implementação do Acordo de Minsk, que deveria garantir o cessar-fogo no leste ucraniano. Mas a situação na Síria se impôs como pauta.

Na declaração conjunta, distribuída pelo Ministério das Relações Exteriores da França, a coalizão liderada pelos EUA exprime sua "viva inquietude diante do reforço do engajamento militar russo na Síria".

Além disso, o texto exorta o Kremlin a reorientar sua ofensiva militar: "Pedimos à Federação da Rússia que encerre ataques contra a oposição e a população sírias e concentre seus esforços no combate ao Daesh" - Daesh é a sigla árabe pela qual o governo francês se refere ao EI.

Facções. O apelo veio a público um dia depois que aviões Sukhoi-34, Sukhoi-24M e Sukhoi-25 bombardearam posições mantidas nas cidades de Idlib e Hama pela aliança islâmica Jaish al-Fatah, o "Exército da Conquista", liderado por milicianos da Frente Al-Nusra. Essa organização é considerada pela ONU como braço sírio da Al-Qaeda, mas luta contra o regime de Assad e não faz parte do EI - por isso, conta com a tolerância do Ocidente.

Na quarta-feira, posições de militantes armados contra o regime já haviam sido bombardeados em Homs.

Com a pressão internacional sobre o governo russo, Alexei Pushkov, deputado e presidente da Comissão de Assuntos Externos da Câmara dos Deputados da Rússia (Duma), respondeu lembrando da ineficiência da coalizão ocidental frente ao EI. "Os EUA criticam a Rússia por 'falta de seletividade em seus alvos' na Síria. Mas o que os impediu de bombardear os alvos corretos durante um ano inteiro, em lugar de bombardear o deserto?", questionou.

Entraves. De acordo com o Palácio do Eliseu, o presidente francês fixou três condições de base para uma cooperação com a Rússia na guerra civil Síria: a realização de um processo de transição política que resulte na saída de Bashar Assad do poder - condição também imposta por EUA e Turquia -, foco dos ataques militares sobre o EI e proteção da população civil.

Dos três pontos, o encontro de ontem se concentrou na discussão da transição, já que Putin continua a apoiar a permanência de Assad. Ainda segundo o Palácio do Eliseu, os líderes "tentaram aproximar seus pontos de vista" - indicando que não houve acordo. / Com AP

Ajuda russa

Maio de 2011: Rússia bloqueia primeira resolução no Conselho de Segurança que condenaria o uso da força pelo governo de Assad

Abril de 2012: Uma missão de observação da ONU é aprovada no Conselho de Segurança com o apoio russo, prevendo o envio de 300 observadores não armados para a Síria

Setembro de 2015: Atendendo a pedido de Assad, Parlamento da Rússia aprova envio de ajuda militar ao regime sírio. Têm início os bombardeios supostamente contra o EI

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