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Internacional

Alemanha

Alemanha e os imigrantes

Os maus ventos sopram sobre a Alemanha, com o escândalo vergonhoso da Volkswagen e mais recentemente o caso das 516 mulheres molestadas de modo infame por desconhecidos em Colônia e Hamburgo na noite do dia 31 de dezembro. 

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Gilles Lapouge

17 Janeiro 2016 | 03h00

Os suspeito eram homens de aparência árabe ou oriental. Pior: vários dos homens interpelados são imigrantes, aqueles que Angela Merkel acolheu generosamente na Alemanha. 

Em seguida às denúncias, surgiu uma nova Merkel, com ar severo e firme. Ela, cuja posição nada tinha conseguido abalar, repentinamente revidou: no futuro qualquer requerente de asilo condenado a uma pena de prisão leve, mesmo com suspensão de pena, terá seu pedido rejeitado. Atualmente, somente os condenados a três meses de prisão fechada, ou mais, perdem a oportunidade de ter seu pedido de asilo aceito. “Colônia é o fim do politicamente correto”, declarou no sábado o Der Spiegel.

Para que essas medidas rigorosas se tornem efetivas, será necessário que os parceiros socialistas (no âmbito da coalizão CDU/SPD) concordem. Não haverá obstáculos. O vice-chanceler Sigmar Gabriel, que também é presidente do partido socialista, antecipou-se à ala esquerda do SPD declarando ao jornal Bild que todas as possibilidades devem ser usadas para enviar os requerentes de asilo criminosos de volta ao seu país. Ele chegou até a desejar que seja imposta aos refugiados a cidade onde poderão se instalar.

A indignação dos alemães é ainda mais viva porque esses atos degradantes não foram nada espontâneos, segundo um membro socialista da coalizão, o ministro da Justiça Heiko Mas. “Quando uma tal horda se reúne para infringir a lei, isso parece planejado. Ninguém me fará acreditar que o incidente não foi preparado”, disse.

Nesse intervalo, os imigrantes continuam a chegar à Alemanha. Entre três e quatro mil pessoas chegam diariamente em busca de asilo. Há um mês Angela Merkel impôs sua posição aos opositores do seu partido durante o congresso da CDU. Ela não aceitou que fosse imposto um limite para o número de refugiados.

Claro que seu desejo era de que o fluxo se estabilizasse ou até diminuísse, mas contava com a solidariedade europeia. Neste aspecto, ela demonstrou uma “credulidade extravagante”. Exceção feita à Alemanha, todo o continente fechou a porta e rejeitou os estrangeiros. Polônia, Hungria, Eslováquia, os países bálticos e escandinavos erigiram barricadas e cercas de arame farpado.

Felizmente temos a França, o país mais próximo e mais fraterno que tem o mérito de manter depois de três séculos discursos humanistas maravilhosamente escritos.

A França admira e aprova a generosidade de Angela Merkel. Mas curiosamente só acolhe imigrantes a conta-gotas, algumas dezenas de milhares. Vale dizer, em favor do governo francês, que os imigrantes africanos e asiáticos não têm nenhum desejo de se instalar na França. Eles são muito mal tratados aqui. Preferem se arrastar com suas misérias e seu desespero sob céus mais clementes. 

Futuro. Os problemas em Colônia, Hamburgo podem fazer desmoronar a popularidade de Merkel? É verdade que muita gente, mesmo em seu próprio campo, começam a emitir alertas. “Colônia mudou tudo”, disse o presidente do CDU em Hesse, Volker Bouffier. “As pessoas começam a duvidar”. 

Mas a força de resistência da chanceler é impressionante. Apesar dessas convulsões, sua popularidade continua incrível. No domingo o jornal Bild calculou que, se os alemães tivessem votado esta semana, Angela Merkel reuniria ainda 39% de eleitores. O SPD teria um leve recuo, para 23%.

O partido Die Linke, da esquerda radical, e os ecologistas, obteriam 10%. E o novo partido de extrema direita, Alternativa para a Alemanha, contabilizaria 8% dos votos apenas, em ligeira queda em relação a pesquisas anteriores. Em suma, poucas mudanças. E a extrema direita xenófoba não extraiu nenhum benefício dos excessos verificados em Colônia. Por enquanto. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

GILLES LAPOUGE É CORRESPONDENTE EM PARIS

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