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AFP / PATRIK STOLLARZ

Alemanha inicia julgamento de ex-guarda de Auschwitz

Reinhold Hanning, 94 anos, é acusado de cumplicidade na morte de ao menos 170 mil pessoas entre janeiro de 1943 e julho de 1944

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O Estado de S. Paulo

11 Fevereiro 2016 | 12h07

BERLIM - O julgamento de Reinhold Hanning, 94 anos, ex-guarda do campo de concentração de Auschwitz e acusado de cumplicidade na morte de milhares de pessoas, começou nesta quinta-feira, 11, em Detmold, oeste da Alemanha.

Em razão da enorme atenção midiática que o caso provoca, e ao número de partes civis - 40, procedentes de vários países (Canadá, Israel, Hungria) - o julgamento não ocorre na sede do tribunal e sim na sede da Câmara de Comércio e Indústria, afastada do centro da cidade.

Uma hora antes da abertura do julgamento, 50 pessoas esperavam diante o edifício para poder entrar na sala. Vários carros da polícia, assim como dois agentes a cavalo, estavam presentes no local.

Na sessão, o acusado admitiu sua presença em Auschwitz no período citado, quando chegaram cerca de 92 transportes de presos ao campo, mas negou qualquer participação nas mortes de prisioneiros. Contudo, a promotoria considera que, com seu trabalho como guarda, contribuiu para o funcionamento do "maquinário da morte".

O ex-guarda do campo de concentração é acusado de cumplicidade na morte de ao menos 170 mil pessoas entre janeiro de 1943 e julho de 1944. Neste caso, a pena é passível de 3 a 15 anos de prisão, dada a idade de Hanning.

"A idade não tem nenhuma importância", estimou o procurador Andreas Brendel, responsável pela acusação contra Hanning. A justiça alemã "deve às vítimas e aos seus familiares" julgar os crimes do Terceiro Reich.

Para o processo, estão planejadas 12 audiências e, em consideração à idade avançada e ao estado de saúde do acusado, não poderão durar mais que duas horas cada uma. O julgamento deve seguir até ao menos 20 de maio.

Em 2015, Oskar Gröning, outro antigo membro das SS, que ficou conhecido como o contador de Auschwitz, foi condenado a 4 anos de prisão por cumplicidade em 300 mil assassinatos. Ele recorreu da sentença, que está agora na Suprema Corte.

A negacionista (pessoas que negam a existência do Holocausto) Ursula Haverbeck tentou assistir ao começo do julgamento, mas foi intimidada por outros presentes e teve que se retirar sob proteção policial, segundo a imprensa local.

Durante o processo contra Gröning, a própria Haverbeck - condenada duas vezes por incitação ao ódio racial - afirmou a um grupo de jornalistas que Auschwitz não tinha sido um campo de extermínio, mas um campo de trabalho.

Nas primeiras décadas após a Segunda Guerra Mundial, a perseguição penal contra os crimes relacionados ao Holocausto se concentrou nos autores materiais e nos casos em que era possível provar que o acusado tinha dado ordens para matar.

A condenação a cinco anos de prisão ao ucraniano John Demjanjuk em 2011, por cumplicidade em 28 mil assassinatos no campo de Sobibor, onde ele trabalhou como guarda voluntário, abriu espaço para outros julgamentos contra cúmplices do Holocausto.

Atualmente há outros processos abertos, contra uma mulher de 92 anos que era responsável pelas comunicações por rádio, um enfermeiro e outro guarda.

Reparação

Para Christoph Heubner, vice-presidente do Comitê Internacional Auschwitz, o processo trata de reparar as "carências da justiça alemã" . Dos 6.500 SS do campo que sobreviveram à guerra, menos de 50 foram condenados, em um ambiente caracterizado na Alemanha pelo desejo de virar a página, e também em razão da forte presença de ex-nazistas na magistratura.

"Este julgamento deveria ter sido realizado há 40 ou 50 anos. Mas nunca é tarde para reviver o que ocorreu", afirmou na véspera do julgamento Justin Sonder, de 90 anos, que perdeu 22 membros de sua família sob o regime nazista e foi deportado aos 17 anos.

Angela Orosz, aposentada canadense de origem húngara de 71 anos, foi um dos dois bebês que sobreviveu a Auschwitz e testemunhará para manter viva a memória das vítimas do Holocausto, e porque acredita que todos os funcionários do campo "contribuíam para a maquinaria de morte".

Não existe nenhuma prova contra Reinhold Hanning de que ele tenha cometido um ato criminoso preciso. Ele é acusado de ter feito parte do "funcionamento interno" do campo de Auschwitz.

Hanning, um jovem funcionário que entrou nas Waffen SS em julho de 1940, foi transferido no início de 1942 a Auschwitz. Foi membro das Totenkopf, unidade das SS cuja insígnia era um crânio, trabalhou no campo de base Auschwitz-I e supervisionava às vezes a chegada de prisioneiros ao campo de Birkenau. /AFP e EFE

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